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Independentemente dos acertos ou erros de reflexões desta natureza, parece certo constatar que este início de século se faz acompanhar de uma tendência à contaminação das categorias e de superposição infinita das esferas da sociabilidade. Assim, a política já não habita apenas o espaço público, mas insinua-se em todos os espaços; o sexo já não está no sexo, mas rigorosamente em todos os domínios; a cultura desdobra-se além do cultural para toda a atividade humana e assim sucessivamente. Ao final deste processo, se tudo é político, se tudo é sexual, se tudo é estético, então nada especificamente é político, sexual ou estético. O resultado é uma diluição tamanha de tais noções e fenômenos que deles só nos restaria uma "memória de água". Para nós, importa recuperar a lembrança de que a política, concebida como dignidade, é uma esfera determinada, resultado da criação humana, a qual se atribui a tarefa de solucionar - ainda que sempre provisoriamente - os dilemas de uma sociedade a partir do desafio de atribuir às nossas escolhas o equivalente ao interesse público. Que, portanto, ela não se confunde com a mera exposição de interesses ou demandas, nem pode ser dissolvida no "espetáculo" dos mass mídia. Que, por outro lado, a cultura não é o mesmo que a "produção" de bens culturais destinados ao mercado, que não se confunde com a publicidade nem se define por esta ou aquela "utilidade". A imagem de um Beethoven mortalmente doente que joga longe um romance de Walter Scott gritando: "Esse sujeito escreve para ganhar dinheiro!" parece mais significativa do que qualquer tese sobre a necessidade da autonomia para a realização plena da grande obra de arte tanto quanto para a afirmação da cultura. O cotidiano que resulta da diluição da cultura e da política é, por certo, pobre em determinações. De um lado, a imposição massificada do lixo da indústria cultural; de outro, a face obscura do espelho político refletindo nosso estranhamento diante de uma carranca que fomos construindo pela distância e pelo desinteresse. Desprovidos da noção de transcendência, absortos pela simulação, vamos imaginando a possibilidade da construção de sentidos privados à existência e, súbito, nos vemos em busca da felicidade como se fosse possível experimentá-la, realmente, imersos na infelicidade geral. A idéia de militância na cidade, de participação ativa neste espaço que nos conforma e define é, mesmo, um caminho inverso. Não deixa de ser fascinante saber que podemos contribuir para que a vida de milhares de pessoas seja alterada para melhor; ou que é possível inventar a pólis que desejamos, radicalizando aqui uma aspiração dos gregos antigos por cidadania e liberdade. A militância na cidade estabelece o trânsito mais concreto do indivíduo isolado com o mundo e lhe devolve uma noção de "pertencimento" que restava em pedaços. De toda a forma, como só nos reconhecemos pelo outro, é preciso militar para que se contraste a maldição de uma época onde os humanos, onde quer que se dirijam, encontram apenas a si próprios.
OPINIÃO |