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CULTURA, COTIDIANO E CIDADE


Em seu ensaio sobre os fenômenos extremos, A Transparência do mal, Baudrillard inicia afirmando que se fosse caracterizar o atual estado de coisas, diria que é o da "pós-orgia". Entende por orgia o momento explosivo da modernidade, o da liberação em diversos domínios que implicou na oferta dos mais variados modelos de representação e anti - representação. Tal processo teria gerado um fenômeno cultural e político de "metástase" dos valores que se reproduziram fora de controle e já sem qualquer referência. Para ele, assim, já não há mais um modo fatal de desaparecimento, mas sim um modo fractal de dispersão.

Independentemente dos acertos ou erros de reflexões desta natureza, parece certo constatar que este início de século se faz acompanhar de uma tendência à contaminação das categorias e de superposição infinita das esferas da sociabilidade. Assim, a política já não habita apenas o espaço público, mas insinua-se em todos os espaços; o sexo já não está no sexo, mas rigorosamente em todos os domínios; a cultura desdobra-se além do cultural para toda a atividade humana e assim sucessivamente. Ao final deste processo, se tudo é político, se tudo é sexual, se tudo é estético, então nada especificamente é político, sexual ou estético. O resultado é uma diluição tamanha de tais noções e fenômenos que deles só nos restaria uma "memória de água".

Para nós, importa recuperar a lembrança de que a política, concebida como dignidade, é uma esfera determinada, resultado da criação humana, a qual se atribui a tarefa de solucionar - ainda que sempre provisoriamente - os dilemas de uma sociedade a partir do desafio de atribuir às nossas escolhas o equivalente ao interesse público. Que, portanto, ela não se confunde com a mera exposição de interesses ou demandas, nem pode ser dissolvida no "espetáculo" dos mass mídia.

Que, por outro lado, a cultura não é o mesmo que a "produção" de bens culturais destinados ao mercado, que não se confunde com a publicidade nem se define por esta ou aquela "utilidade". A imagem de um Beethoven mortalmente doente que joga longe um romance de Walter Scott gritando: "Esse sujeito escreve para ganhar dinheiro!" parece mais significativa do que qualquer tese sobre a necessidade da autonomia para a realização plena da grande obra de arte tanto quanto para a afirmação da cultura.

O cotidiano que resulta da diluição da cultura e da política é, por certo, pobre em determinações. De um lado, a imposição massificada do lixo da indústria cultural; de outro, a face obscura do espelho político refletindo nosso estranhamento diante de uma carranca que fomos construindo pela distância e pelo desinteresse. Desprovidos da noção de transcendência, absortos pela simulação, vamos imaginando a possibilidade da construção de sentidos privados à existência e, súbito, nos vemos em busca da felicidade como se fosse possível experimentá-la, realmente, imersos na infelicidade geral.

A idéia de militância na cidade, de participação ativa neste espaço que nos conforma e define é, mesmo, um caminho inverso. Não deixa de ser fascinante saber que podemos contribuir para que a vida de milhares de pessoas seja alterada para melhor; ou que é possível inventar a pólis que desejamos, radicalizando aqui uma aspiração dos gregos antigos por cidadania e liberdade. A militância na cidade estabelece o trânsito mais concreto do indivíduo isolado com o mundo e lhe devolve uma noção de "pertencimento" que restava em pedaços. De toda a forma, como só nos reconhecemos pelo outro, é preciso militar para que se contraste a maldição de uma época onde os humanos, onde quer que se dirijam, encontram apenas a si próprios.


Marcos Rolim - 30/07/01

OPINIÃO

 

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