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A NORMALIDADE COMO DOENÇA A revista Veja da semana passada trouxe interessante ensaio de Pompeu de Toledo com um alerta especialmente oportuno. O articulista examina dois episódios chocantes retratados pela imprensa, comparando-os: o primeiro, as cenas de violência promovidas por PMs no Rio de Janeiro ; o segundo, a foto publicada em vários jornais que flagra um senhor em um bar em Manaus beijando uma menina de 13 anos, prostituída. Toledo chama a atenção para o fato de que, no primeiro episódio, enquanto um policial espanca um morador, outros conversam animadamente e riem. O "pano de fundo" das cenas de barbarismo revela um cotidiano "normal". De fato, tudo se passa como se nada de especialmente grave estivesse acontecendo. Por certo, aqueles policiais devem ter reencontrado com alegria seus familiares e dormido tranquilamente. Da mesma forma, a foto do bar amazonense permite que se vislumbre um conjunto de fregueses que, por trás da cena revoltante da prostituição de uma criança, bebem suas cervejas despreocupadamente. Toledo sustenta que é este ambiente de "normalidade" que deve nos preocupar; vale dizer: é a aceitação dos protocolos cotidianos de violação dos Direitos Humanos que nos compromete e é diante deste fenômeno que deveríamos nos envergonhar. O alerta parece-me decisivo. A oferta de violência em sociedades como a nossa há muito já transbordou qualquer limite imaginável. Esses dias, em Porto Alegre, um Policial Militar foi morto, baleado na cabeça quando se aproximava de dois suspeitos no estacionamento da PUC. Trata-se de mais um caso de morte de policiais no RS onde sequer pode-se falar na existência de um "confronto" , mas de assassinato puro e simples. Alguns dias antes, um idiota lançou uma bomba artesanal dentro de um coletivo apinhado de torcedores ferindo vários deles e cegando um menino. Há alguns minutos, emocionado, li a notícia de que, em Brasília, 5 jovens de classe média, possivelmente por divertimento, cobriram de álcool o corpo de um índio que dormia na rua e o queimaram. Assim, é preciso reconhecer que a violência passou a ser ofertada de forma gratuita, processo que, infelizmente, tem contribuído para a tornar banal, miseravelmente banal. E ainda há quem, normalmente, imagine que a luta pelos Direitos Humanos seja secundária e mesmo quem procure, normalmente, desqualificar esta exigência básica por dignidade. A normalidade no Brasil, por definitivo, é uma doença. Marcos Rolim - 21/04/97 OPINIÃO |