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A FEBEM E O HORROR

No sábado à noite me desloquei de Santa Maria para Porto Alegre para acompanhar o motim do Instituto Juvenil Masculino (IJM) da FEBEM. Cheguei no local por volta da 1:30 e saí de lá as 7 horas da manhã. O que presenciei foi um dos mais graves motins da história da instituição. Foram horas de horror e de enorme tensão vividas por todos os que acompanhavam o desfecho das negociações com os amotinados. Um motim com reféns nos apresenta, sempre, uma situação limite. Quando, entretanto, as ocorrências implicam em uma morte, a situação se torna, ainda, muito mais difícil. A morte do monitor Luís Fernando da Silva Borges nos coloca diante de uma tragédia incontornável. Como militante da luta pelos Direitos Humanos quero expressar minha solidariedade aos familiares, amigos e colegas do funcionário assassinado friamente por um dos internos. Não há qualquer justificativa ou circunstância atenuante que possa enquadrar este fato. Luís Fernando era, por todos os relatos que tive, um funcionário virtuoso e dedicado. Por conta disto, era muito estimado pelos internos. Nunca se atribuiu a ele qualquer gesto ou atitude condenável. Sequer pode-se argumentar que, no momento em que foi tomado como refém, tenha reagido ou assumido postura que agravasse seu próprio risco. Luís Fernando foi executado, esta é a verdade. É o ideal dos Direitos Humanos que nos permite afirmar que este crime é imperdoável.

A dor que se repartiu entre todos a partir daquela noite, entretanto, não pode ser manipulada em função de objetivos políticos quaisquer. Um grupo de funcionários de extrema direita, comprometidos com valores anti-humanistas, aproveita-se do episódio para responsabilizar a "política dos Direitos Humanos" pelo desfecho trágico deste motim. Trata-se de uma manifestação de obscurantismo e intolerância diante da qual não pode haver complacência. Não se faz política com cadáveres, nem deve-se permitir que, por conta da tragédia, se renove os apelos em favor do "endurecimento" na relação com os internos. Uma mudança deste tipo só nos conduzirá a novos e mais sangrentos motins. O governo do Estado deve tomar os episódios como um sinal evidente da necessidade de investimentos urgentes nas unidades de internação da FEBEM. Passados 8 meses deste a posse de Olívio Dutra, as unidades de internação da FEBEM continuam sem condições de desenvolver uma política educacional e profissionalizante pela absoluta ausência de recursos que sustentem estas atividades. A direção da FEBEM tem a exata dimensão do que deve ser feito, mas grande parte do que se impõe como necessidade urgente não se viabiliza por falta de recursos. Entre estas providências, deve-se incluir, também, obras físicas que aumentem a segurança nas unidades de internação. Para este plano, deve-se discutir com todos os funcionários, com as autoridades e entidades ligadas à área. É preciso, entretanto, incluir a FEBEM nas prioridades governamentais. Antes que novas tragédias aconteçam e antes que a intolerância e a mediocridade se imponham como um "caminho alternativo".

Marcos Rolim - 06/09/99

 

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