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UM DRINQUE NO INFERNO

Como membro da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal, tenho acompanhado a evolução do caso do Deputado Hildelbrando Pascoal, coronel da Polícia Militar, eleito pelo PFL do Acre e, recentemente, expulso deste partido. As recentes revelações trazidas à público pela Revista Época sobre o envolvimento do parlamentar com o crime organizado e a reprodução de partes das fitas com a escuta telefônica legal realizada pela Polícia Federal chocaram o país. Sabe-se, agora com provas materiais, que o referido cidadão é responsável direto pela morte do médico e capitão do Exército, Moacir José da Silva, em 1983. Pelos testemunhos já colhidos na Câmara, Hildebrando Pascoal mantinha uma relação de grande intimidade com os narcotraficantes e organizava pessoalmente a distribuição de drogas no Acre. Mais grave do que isso, pesa contra ele a acusação de ter chefiado um verdadeiro esquadrão da morte naquele estado a quem se atribui cerca de 150 assassinados praticados, em regra, com requintes de crueldade. Não vou, no espaço desta crônica, reproduzir os métodos de execução que seriam empregados pela quadrilha do Coronel Hildebrando por dois motivos: primeiro por que não tenho a menor inclinação pela morbidez, segundo porque penso que a insistência neste tipo de descrição possa cumprir algum papel no fenômeno contemporâneo de banalização da violência quando não na sua transformação em espetáculo. Meu ponto é outro: seria preciso investigar as razões que conduzem um cidadão com este perfil ao parlamento estadual - onde desempenhou dois mandatos- e, depois, à Câmara, com votações significativas em seu universo eleitoral. Será possível que os milhares de eleitores que escolheram o Coronel Hildebrando nada soubessem sobre as atividades violentas e ilegais que ele desenvolvia há muitos anos? Ou estaríamos autorizados a pensar que, de alguma forma, sabiam mas não se importavam e que seus votos foram comprados pela troca de benefícios? Conheço o Acre. Ou melhor: conheço Rio Branco, sua capital. Lá estive em duas oportunidades. Trata-se de um estado-limite não apenas do ponto de vista geográfico. Vive-se no Acre, permanentemente, no limite entre a barbárie e a civilização. Há responsáveis, entretanto, pelo "estado de natureza" hobbesiano do qual o Coronel Hildebrando é , apenas, o representante mais adequado para integrar roteiros de Tarantino. Visitar o processo que já se tem contra o parlamentar acreano é, mesmo, o equivalente a um "Drinque no Inferno." Resta saber se vamos, apenas, exorcizar um dos seus demônios e manter, para os próximos efeitos especiais, a elite política e econômica que não se cansa de produzir Hildebrandos menos cênicos todo o dia.

Marcos Rolim 13-09-99

 

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