A REAÇÃO ARMADA Os meios de comunicação configuram, a partir da produção de informações e opiniões, uma esfera pública específica pela qual se estabelece uma relação de "quase-interação" entre as pessoas. Independentemente da forma pela qual a imprensa atua, o fato é que mídia produz o mais significativo espaço público das sociedades modernas. A maior parte dos temas relevantes transitam pela imprensa. A população, via de regra, forma opinião sobre estes assuntos a partir deste trânsito. As empresas de comunicação e os profissionais de imprensa possuem, por isso mesmo, uma grave responsabilidade. A depender da atuação dos órgãos de comunicação, é possível iluminar questões complexas, esclarecer mesmo as pessoas mais simples, avançar na conquista de direitos, antepor-se à tradição cultural que legitima as práticas discriminatórias e violentas, etc. A mídia pode, por outro lado, atuar de tal forma que se reforce na opinião geral o maniqueísmo e o gosto pelas simplificações embrutecedoras; pode aprofundar as trevas experimentadas pelos que habitam o mundo dos preconceitos; pode contribuir para retrocessos importantes na democracia ou amplificar a intolerância através da qual a violência se legitima. Os veículos da RBS têm destacado, nas últimas semanas, o tema da violência no RS. Aqueles que tem acompanhado o noticiário por estes dias possuem razões de sobra para imaginar que o RS vive um surto agudo e desesperador de violência. Mais: devem, imaginar que nossas cidades estão entregues à sanha assassina dos bandidos, que nossa polícia não atua e não pode, sequer, ser encontrada. Pois bem, todas estas conclusões são simplesmente falsas. O problema da violência em nosso estado é grave, sem dúvida. Ocorre que não existe qualquer indicador sério a demonstrar que ele seja, neste momento, muito pior do que tem sido nos últimos 05 anos. Pelo contrário: pode-se afirmar que o mais importante indicador para se medir a violência em todo o mundo - o número de homicídios para cada 100 mil habitantes - experimentou uma queda significativa em 1999, no RS, da ordem de 33% . Esta notícia não encontrou qualquer destaque na imprensa gaúcha, o que é, em si mesmo, significativo. Para a comparação com a violência praticada nos demais estados, bastaria lembrar que na relação das cem cidades brasileiras mais violentas não há nenhuma do RS. O enfoque predominante da RBS ao tema aparece nos termos de uma campanha. Não uma campanha contra a violência, mas uma campanha de conteúdo alarmista - que especula com a violência - cujo único efeito será o de aumentar aquilo que a literatura especializada denomina "sensação de insegurança" o que, como se sabe, constitui fenômeno distinto da insegurança real medida, objetivamente, pelos riscos de vitimização. A cobertura e o destaque oferecidos ao episódio do cidadão que alvejou e matou dois assaltantes no bairro Bela Vista em Porto Alegre ofereceram a síntese dramática do que está em jogo. A reação armada naquele caso, não foi, rigorosamente, questionada. Pelo contrário: chegou a receber comentários positivos. Ainda que amparada pelo princípio da legítima defesa, o episódio revelou uma escolha de alto risco. Uma escolha cujas probabilidades maiores, seja pelo número de assaltantes, seja pelo armamento utilizado, apontavam para o fuzilamento do bancário e de sua acompanhante. Felizmente, o desfecho foi outro. Mas foi preciso, alguns dias depois, que dois outros rapazes desarmados, sem antecedentes criminais e, ao que tudo indica, sem intenções delituosas, fossem mortos para que o jornal Zero Hora abrisse uma discussão sobre "reagir ou não" a uma tentativa de assalto. Chegamos ao limite. O caminho da reação armada é o caminho da barbárie. O mesmo que nos oferece a chance de sermos parecidos com os piores bandidos. Resta saber quem, em nossa imprensa, está disposto a ser parceiro deste caminho.
Marcos Rolim 21-02-2000 |