CRÔNICA DE UM CONFLITO ANUNCIADO
Os acontecimentos de Porto Seguro quando das solenidades relativas aos 500 anos revelam muito sobre a política brasileira e a conduta das suas elites. Primeiro, percebe-se como a turma do andar de cima abomina tudo aquilo que não controla. Movimentos sociais? Em tese sim, mas, na vida real, este é o espaço privilegiado pelos "baderneiros", não é mesmo? Pluralidade? Sim, por certo, mas de tal forma que não importunem o governo. Índios? Claro, adoramos eles, mas se exigem a demarcação de suas terras e denunciam nossos vínculos com os garimpeiros e as madeireiras, passam a ser incômodos e podem estragar nossa festa. Negros? Oh, quanta emoção, nosso presidente tem até mesmo um pé na cozinha. Mas se essa negrada resolve vir prá cá, a gente desloca a PM da Bahia prá dar as "boas vindas" e prendemos logo uma turma que é prá lembrá-los do seu lugar. Se alguma imagem comprometedora for divulgada lamentamos o ocorrido e, dependendo, sai uma nota oficial prometendo providências para apurar os "abusos" . Ora, o que todos puderam presenciar na Bahia - aquilo que, felizmente, a imprensa do Brasil e do mundo registrou - foi a introdução extralegal do Estado de Sítio: suspensão do direito de ir e vir, quebra das garantias individuais, prisões sem ordem judicial e, para culminar a série de violações com um tanto de sangue, uma dose cavalar de repressão direta sobre aqueles índios metidos a gente. Durante os últimos 20 dias, insisti com o governo para que se tomassem as medidas necessárias para se evitar um conflito de graves proporções na Bahia. Falei com dois ministros da justiça sobre o assunto; na audiência que mantive com Fernando Henrique Cardoso com as representações indígenas voltei ao tema; escrevi sobre isso, denunciei à imprensa o que estava em curso; ofereci ao governo a intervenção mediadora da Comissão de Direitos Humanos da Câmara para o que fosse possível. Muitas outras pessoas e entidades fizeram o mesmo e alertaram o governo. Tudo isso em vão. Prevaleceu a política de exclusão e a imbecilidade paga com dinheiro público. O governo da Bahia não agiu solitariamente. Nada foi feito sem o aval da União. O cerco policial montado em Porto Seguro, os cruzadores no mar, os helicópteros, as intimidações, tudo foi definido como uma política de segurança voltada para o "inimigo interno"; no caso os sem terra, os sem emprego, os sem estatuto. Prevaleceu a política dos sem vergonha. Ao invés de conceber as atividades todas para que os próprios movimentos sociais pudessem afirmar seu ponto de vista, iniciou-se logo pela derrubada de um monumento que os Pataxó haviam erguido em suas próprias terras em homenagem à resistência de seus antepassados. Pelo que me afirmou José Carlos Dias, um certo Rafael Greca teria considerado o monumento ofensivo ao Brasil (!) O julgamento do ministro valeu a ocupação armada da área por mais de 200 PMs. Mas isso foi só o começo, como se viu. Uma ofensa ao Brasil foi perpetrada, efetivamente, por essa turma de fala vazia e gestos estudados que habita os corredores refrigerados da República. Não houve um entre eles, incluindo-se aí o presidente, que tenha feito algo para que os 500 anos não passassem sem bombas de gás ou cassetetes. Houve uma festa em Porto Seguro, é certo, uma festa maquiada, paga pelos brasileiros e organizada sobre uma violência que abre um gravíssimo precedente. Marcos Rolim - 24-04-2000
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