O SILÊNCIO DOS CULPADOS
No oitavo andar do Palácio da Justiça do Paraguai há duas toneladas de documentos a respeito da repressão política desencadeada na América Latina pelas ditaduras do Cone Sul. O acervo de documentos encontrado em uma delegacia de polícia em 1993, com um total de 700 mil páginas, demonstra à exaustão, o comprometimento daqueles regimes de exceção com a tortura e o assassinato de opositores. Após a descoberta desse arquivo, denominado "Arquivo do Horror" já não cabe qualquer dúvida a respeito da chamada "Operação Condor", mega empresa repressiva que reuniu as ditaduras de Brasil, Paraguai, Uruguai, Argentina e Chile durante os turbulentos anos 70 e início dos anos 80. Nosso estado esteve diretamente envolvido com o tema quando do seqüestro em Porto Alegre de Lílian Celiberti e Universindo Dias. Os dois militantes do PVP Uruguaio foram seqüestrados por policiais civis gaúchos e conduzidos aos presídios uruguaios em uma ação típica daqueles tempos. Nesta quarta feira, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados realiza uma audiência pública sobre o tema, ocasião em que estaremos recolhendo depoimentos que permitam agregar conhecimentos sobre aquelas atividades repressivas desencadeadas desde a clandestinidade. Queremos, obviamente, pressionar o governo brasileiro para que os arquivos das Forças Armadas e da Polícia Federal daquele período sejam, finalmente, abertos. Afinal, o povo brasileiro e a opinião pública mundial têm o direito de saber o que foi feito em nome da "Ideologia da Segurança Nacional" por regimes cuja simples lembrança nos causa asco. O que ocorre é que vivemos em um país onde as elites políticas firmaram um pacto de silêncio com os responsáveis pela "guerra suja." Nossos governantes civis agem de tal forma que todos os esforços já realizados para revelar a verdade redundam nas mesmas negativas oficiais: "não sabemos", "não temos notícias" , etc. Ocorre que há, nesse momento, uma série de iniciativas esclarecedoras que vem sendo tomadas em várias partes do mundo. A divulgação de informações dos arquivos da própria CIA, nesta última semana, comprovam, por exemplo, que a ditadura brasileira teve um papel destacado na montagem da DINA, o setor de informações da temida polícia política chilena. Dados como esse surgirão cada vez mais permitindo que se perceba, inclusive, o protagonismo do Brasil na montagem da "Operação Condor." A Comissão de Direitos Humanos da Câmara estará envolvida em mais essa frente de atuação. Nosso compromisso, a exemplo daquele firmado pelas "Mães da Praça de Maio" é permitir, apenas, que o Estado brasileiro responda a 4 perguntas básicas: O quê? Onde? Como? Quando?
Marcos Rolim - 15-05-2000 |