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A FELICIDADE PARA OS MODERNOS

O século XX promoveu a conquista do espaço privado e esta foi uma das suas grandes realizações. Ao final do século XIX, o próprio trabalho realizava-se, basicamente, na esfera doméstica e a família desempenhava funções educacionais - no trato com as crianças, e assistenciais - no cuidado com os idosos. A generalização do trabalho assalariado retirou estas funções da família, socializou a educação e a assistência e estabeleceu uma nítida demarcação entre o tempo e espaços públicos e privados. Antoine Prost, por exemplo, demonstra como os investimentos maciços em habitação popular na França permitiram a definição de um espaço para a intimidade no interior da vida familiar e o quanto isto foi decisivo para a afirmação dos indivíduos.

Na mesma linha, seria possível, ainda, assinalar o fenômeno da reabilitação do corpo, as alterações comportamentais que se seguem diante da TV e da publicidade, etc.. Ocorre, entretanto, que, paralelamente, nosso século vem produzindo, também, outro fenômeno digno de nota: o encolhimento da esfera pública; o estreitamento dos espaços para o debate e a tomada de decisões que dizem respeito à vida de todos. Tudo se passa como se a esfera pública estivesse destinada, cada vez mais, aos profissionais da política e aos tecnocratas de plantão.

O estranhamento contemporâneo frente à própria atividade política parece ser apenas um sintoma de uma modificação mais profunda no interior da sociabilidade moderna. Nem sempre, entretanto, isto foi assim. Para os gregos antigos, levar uma vida inteiramente privada significava, precisamente, privar-se de algo essencial para a dignidade humana; a saber: a possibilidade de ser visto é ouvido na esfera pública, espaço por definição da liberdade contraposta à esfera da necessidade que abarcava a vida privada.

Hannah Arendt examinou detidamente esta questão chamando a atenção para o fato de que, modernamente, a própria idéia de felicidade passou a ser concebida, exclusiva e naturalmente, no âmbito privado da existência. Já nos é difícil visualizar a possibilidade de uma felicidade pública e o futuro de nossa cidade ou de nosso país podem dizer respeito a tudo, menos à felicidade.

Evidentemente, este resultado seria incompreensível para um ateniense dos século IV ou V a.C. A derrocada da experiência socialista e a inexistência de uma utopia potente ao final do século parecem reforçar esta tendência de privatização da sociabilidade que faz com que os indivíduos se voltem para dentro de si mesmos. Paradoxalmente, entretanto, é este mesmo fenômeno que irá reduzir ao mínimo as chances de ação dos sujeitos, que irá fragmentá-los e submetê-los a uma lógica de reprodução sistêmica e, consequentemente, afastá-los da felicidade. Para os modernos, a felicidade é uma distância; precisamente a distância que nos separa dos outros.

Marcos Rolim - 1994

OPINIÃO

 

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