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Via de regra, a cultura de esquerda sempre subestimou enormemente a necessidade de reforma do Estado e da política. Mesmo a idéia de radicalizar a democracia foi sempre identificada com o reformismo e, portanto, com o abandono dos "compromissos revolucionários". Pouco importava se estes compromissos revolucionários só diziam respeito a um conjunto de fórmulas bolorentas deduzidas de manuais de iniciação ao materialismo histórico e só lembradas nos intermináveis debates internos. Sim porque publicamente vale dizer: na ação política -, os compromissos eram outros. A experiência riquíssima de construção partidária oferecida pelo PT é pródiga nestes exemplos. Muitas de nossas lideranças estiveram sempre dispostas a estimular internamente os preconceitos "revolucionários" da militância contra as posições que pretendiam realizar abertamente o debate sobre a necessidade das reformas; ato contínuo, realizavam em sociedade uma política situada bem à direita daqueles seus pressupostos teóricos sustentando sobre este abismo conceitual uma frágil estrutura de argumentos pragmáticos. O que foi bem funcional para a manutenção de posições internamente no partido revelou-se, logo a seguir, como um problema seríssimo para todos nós: a cultura sedimentada na base partidária é hoje pouco permeável a uma estratégia política democrática e, em certa medida, já oferece fortes resistências a ela. O PT vê-se, assim, envolto em uma séria contradição construída pelos práticos da ambigüidade: ou bem radicaliza os passos já dados e disputa para valer em torno de um projeto de reformas os destinos do pais - o que significa refundar um pacto partidário em novas bases - ou bem sucumbe às pressões esquerdistas de sua cultura e caminha para a estagnação política. Como se não bastasse, pode-se afirmar, também, que a ausência de um processo mais rigoroso de debate, acompanhado pela notável característica de um partido onde as lideranças são conduzidas - com raríssimas exceções - a não expressar o que pensam, fez com que muitos quadros e militantes abandonassem as "certezas" dogmáticas sem uma referência mínima de valores éticos capazes de estruturar um pensamento tão autônomo quanto tributário de princípios. O pragmatismo, então, passa a colocar dilemas éticos ao PT e, súbito, descobrimos que nosso partido não está imune a nenhum dos vícios e distorções encontrados nos demais. Trata-se de uma dura descoberta. Marcos Rolim - 1998 OPINIÃO |