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PARA ALÉM DA CORAGEM -
NOTAS SOBRE O DESAFIO DE SER GOVERNO

" O que as derrotas têm de bom é que elas não são definitivas; o que as vitórias têm de ruim é que elas não são definitivas."
José Saramago

Pela primeira vez na história do Rio Grande do Sul, o Partido dos Trabalhadores elege o governador do Estado. A vitória de Olívio Dutra confunde-se com os sonhos de uma geração inteira de militantes apaixonados pela justiça social e pela liberdade. O que ocorreu no último dia 25 de outubro neste estado será lembrado por muito tempo e haverá de marcar as nossas vidas de uma forma que ainda não podemos imaginar. Somos, todos nós do PT, privilegiados pelo fato de, a um só tempo, termos alcançado a rara condição de testemunhas e agentes de um processo de dimensões históricas.

Enfrentamos a mais poderosa coalizão de partidos conservadores já formada em nosso estado. Nossos adversários colocaram de lado antigas rusgas paroquiais e diferenças políticas apresentando um candidato apoiado por 11 partidos, do centro à extrema direita. Pela primeira vez, nosso adversário era, também, o titular do Poder Executivo almejando a reeleição. Mais do que isso, a coligação "Rio Grande Vencedor" expressou a realidade de um projeto político, social e econômico formatado coerentemente com os interesses dos mais poderosos grupos econômicos nacionais e multinacionais. Por isso, apenas aparentemente enfrentamos um candidato - Antônio Britto - e seus partidos. Em verdade, enfrentamos o "Bloco Histórico" hegemônico no Brasil, expressão da simbiose de interesses dos grandes monopólios privados com o Estado. Por conta da natureza desta disputa, nosso adversário teve a maior soma de recursos financeiros jamais colocada à disposição de alguma candidatura no RS. Formou-se aqui uma verdadeira "máquina de guerra" destinada a garantir o continuísmo. De um lado, o uso abusivo e descontrolado das verbas publicitárias do governo assegurando a reprodução de uma imagem favorável através dos principais canais de comunicação social, acompanhado pela triagem, censura ou desconsideração aos fatos políticos produzidos pela oposição e, particularmente, pelo PT; de outro, a formação de uma verdadeira "sociedade" entre o Estado e os oligopólios, incluindo o mais forte grupo de comunicação do estado, processo que alcança seu apogeu com a política ofensiva de privatizações. De um lado, o uso incontrastável da máquina estatal, a pressão sobre os funcionários públicos, a distribuição de favores e o reforço dos laços de clientela; de outro, o emprego massivo da mentira, a reprodução de um discurso triunfalista amparado na manipulação das pesquisas de opinião, a confecção de panfletos anônimos com ataques ao PT e a Olívio, o emprego disseminado de métodos de atemorização e terror, valendo-se, inclusive, da colaboração de alguns setores empresariais e o recurso, em várias oportunidades, da violência física contra nossos militantes.

Fomos capazes de superar todas estas dificuldades, viabilizar a realização do segundo turno e, por fim, garantir a vitória da Frente Popular. Neste processo, foi preciso um esforço anônimo de milhares de militantes e ativistas; mais do que isso: foi preciso a coragem de centenas de milhares de trabalhadores, homens e mulheres do povo, que assumiram em suas mãos o seu próprio destino e construíram uma parte importante da história do Rio Grande. Agora, entretanto, quando se trata de construir respostas à crise e produzir políticas públicas capazes de inaugurar uma alternativa democrática e popular em nosso estado, será preciso mais do que a coragem. Este documento é uma tentativa de oferecer ao debate partidário e aos nossos aliados políticos uma contribuição em torno daqueles que nos parecem ser os primeiros desafios da tarefa histórica de governar um dos mais importantes estados da federação. O redigimos, premidos pelo tempo, com a nítida sensação de estarmos lidando com a história em um nível de responsabilidade que é, por todas as razões, inédito. Por isso mesmo, queremos emprestar a este texto um sentido francamente propositivo e oferecê-lo ao debate com o sincero propósito de reforçar o diálogo que se impõe entre todas as forças dispostas a sustentar o novo governo e garantir as reformas pelas quais ele se justifica.

Os pressupostos da nossa vitória:

 Muitas são as razões que merecem ser lembradas quando se trata de compreender as causas de nossa vitória político-eleitoral.

A primeira delas está, evidentemente, ligada ao fato de termos construído ao longo dos últimos anos uma potente linha de resistência ao projeto neo-liberal no RS. O PT e suas principais expressões públicas constituíram o centro desta resistência, desde as iniciativas tomadas pelos nossos governos municipais - destacadamente pela Administração Popular de POA , passando por nossa postura de enfrentamento aos governos FHC e Britto no Congresso Nacional e na Assembléia Legislativa, até nossa postura de aposta, solidariedade e participação nos movimentos sociais organizados. Foi esta persistência crítica, nossa coerência nas denúncias do caráter anti-popular de tantas medidas governamentais, associada aos exemplos transformadores que passamos a constituir com a divulgação de nossos projetos, que animaram a perspectiva de luta dos movimentos sociais e contribuíram para o seu amadurecimento político. Por certo, toda esta trajetória não nos isenta de inúmeros erros que cometemos, nem deve servir para elidir nossas próprias limitações. Desejamos, tão somente, destacar como uma virtude imprescindível o fato de termos, coletivamente, com as nossas diferenças e com a nossa unidade, construído a resistência e oferecido a ela determinada visibilidade política.

A segunda diz respeito à capacidade que demonstramos na campanha de trabalhar em torno de problemas reais, sentidos pela população. Nosso programa político nestas eleições esteve centrado nos desafios de apoio aos "pequenos" - micro, pequenos e médio empresários, trabalhadores do campo e da cidade , interessados em apoio, incentivo, assistência técnica, crédito, etc; no apelo à geração de empregos - criação de milhares de novos empregos, programa da "bolsa-primeiro-emprego", etc; na descentralização das decisões - democratização efetiva via COREDES, diálogo permanente com a sociedade civil, valorização dos conselhos, etc; nos investimentos prioritários em saúde, saneamento, educação, segurança pública e assim por diante. Não nos dirigimos a uma parte do Rio Grande, mas a todos os setores; não abordamos qualquer questão a partir dos clichês ideológicos com os quais a esquerda mais ortodoxa costuma se desembaraçar do real; pelo contrário: estivemos sempre com o "pé no chão". Olívio Dutra teve a capacidade de se relacionar mesmo com setores do grande empresariado e até obter alguns apoios significativos daqueles que se sentiram à margem do modelo em vigor; teve condições de se dirigir aos grandes produtores rurais e debater com eles uma nova política agrícola, sem desconsiderar os desafios de recuperar a pecuária de corte ou a lavoura orizícula, por exemplo. Por contra desta conduta, uma parte significativa das resistências culturais e ideológicas enfrentadas pelo discurso mais tradicional da esquerda foi contornada na campanha.

Sem dúvida, outro elemento central de nossa vitória encontra-se na própria crise econômica e social vivida pelo país. Centenas de milhares de gaúchos, sentindo na própria pele os efeitos dramáticos do desemprego, da insegurança, da falta de apoio governamental ao setor produtivo, da crise da agricultura, da desagregação dos serviços básicos como a saúde ou a educação, encontraram na candidatura de Olívio uma forma real ou simbólica de se opor "a tudo isto que aí está". Somente assim é possível compreender, por exemplo, as votações significativas alcançadas por Olívio na fronteira-oeste e, singularmente, o apoio obtido em alguns redutos eleitorais sempre hegemonizados pelo latifúndio.

Um quarto elemento que deve ser destacado foi o acerto de nossa política de alianças. Após os resultados do segundo turno, não resta qualquer dúvida que não venceríamos as eleições sem o apoio efetivo do PDT e de sua base militante. Mais do que isso: os resultados nos autorizam a concluir que teríamos todas as chances de vencer ainda no primeiro turno caso tivéssemos alcançado a coligação com o PDT, como foi o desejo e a linha política do PT. Se esta assertiva parece mais do que óbvia, é preciso reconhecer, ainda, o acerto da posição da direção nacional do PT quando da intervenção no Rio de Janeiro. Não fosse a coligação entre o PT e o PDT alcançada no Rio, não teríamos a chapa LULA- BRIZOLA. Não teríamos, portanto, o bom desempenho alcançado nas eleições presidenciais e a campanha no Rio Grande do Sul teria, provavelmente, outro desfecho.

Por fim, poderíamos, ainda, assinalar a vantagem que obtivemos durante a campanha em nossa propaganda eleitoral. Nossos programas eleitorais foram muito bem feitos. Particularmente no segundo turno quando, de fato, produziu-se uma polarização aguda com nosso adversário, oferecemos lições de criatividade, contundência, simplicidade e bom humor. Não é possível menosprezar a importância do marketing eleitoral nas democracias contemporâneas. A campanha de nosso adversário produziu, especialmente no primeiro turno, um discurso triunfalista e arrogante. A imagem do "Rio Grande Vencedor" descolou-se do mundo real e de seus problemas gerando desconfiança crescente dos gaúchos e, por fim, indignação. Também por conta disto, a adesão popular à campanha de Olívio foi adquirindo uma dimensão de espontaneidade surpreendente. Graças aos programas eleitorais, alcançou-se um patamar de debate político, de confronto entre projetos absolutamente distintos, que contribuiu em muito para esclarecer a população sobre as questões que estavam em jogo. O resultado final, por decorrência, expressa, mais do que uma vitória eleitoral, uma vitória política sem precedentes.

Um governo sitiado

É preciso que façamos uma avaliação cuidadosa do cenário que haveremos de encontrar a partir do primeiro dia de governo. Em larga medida, sabemos já qual a herança que receberemos: um Estado que termina o ano de 1998 com um déficit operacional da ordem de 600 milhões de reais; compromissos com a rolagem da dívida que comprometem de forma insuportável a receita; uma arrecadação em queda comprometida em 85% com o pagamento da folha; uma tendência macroeconômica de conteúdo claramente recessivo recentemente reforçada pelo pacote fiscal do governo FHC que retira ainda mais recursos dos estados e municípios e coloca dificuldades extraordinárias ao setor produtivo. Tudo isto deve ser contrastado com o conjunto extraordinário de demandas sociais por reformas urgentes, com os justos pleitos da massa de servidores públicos por reajustes salariais e com a imensa expectativa por investimentos significativos na área social capazes de gerar emprego e renda.

Agregue-se a estes elementos o fato de o novo governo não contar com maioria na Assembléia Legislativa, mais a característica bastante provável de uma resposta muito ofensiva da oposição na cobrança de promessas eleitorais, somada ao cerco que poderá ser montado por setores da grande imprensa e poderemos ter todos os ingredientes de uma crise de governabilidade em curto espaço de tempo.

Diante deste risco, pode-se argumentar que quando de nossa chegada à Prefeitura de POA enfrentamos dificuldades bastante semelhantes; que "no começo é sempre assim" ou que, "com o tempo, as coisas se ajeitam", etc. Nada nos parece mais equivocado. Em verdade, trata-se de uma grande ilusão tomar as dificuldades enfrentadas no começo da experiência da AP em POA como parâmetro. Estamos tratando de um problema de natureza distinta e não, apenas, de um problema de extensão distinta. Primeiro, a via de "ajuste" para o equilíbrio das finanças públicas encontrada pelo "modo petista de governar" os municípios é incapaz de oferecer a mesma resposta no âmbito da administração do estado. Como regra geral, nossas administrações municipais alcançaram determinada saúde financeira em uma conjuntura macroeconômica mais favorável e, basicamente, a partir de uma reforma de natureza tributária. A arrecadação estadual é, basicamente, aquela derivada de um imposto, o ICMS que, por um lado, não pode ser aumentado e, por outro, depende, em larga medida, de fatores macroeconômicos. Por mais que façamos esforços no combate à sonegação, por mais que alteremos a política de renúncia fiscal em curso, que se revisem os benefícios e incentivos tributários no estado, o fato é que isto, por si só, não irá alterar na dimensão necessária o perfil da arrecadação. Para enfrentar este problema central é preciso encontrar, de forma mais clara, um projeto de saneamento das finanças públicas e, ao mesmo tempo, encontrar uma linha coerente de desenvolvimento econômico do estado. O governo Britto comprometeu largamente as finanças públicas, aumentou o endividamento do estado, foi conivente com a sonegação e com a inadimplência. Ao mesmo tempo, contudo, encontrou uma forma de financiamento de suas políticas públicas e formulou um projeto de desenvolvimento econômico. A escolha feita, o sabemos, foi a venda de patrimônio público, por um lado, e a transferência destes recursos, na forma de incentivos, para a atração de grandes empreendimentos. Este modelo concentrador de riqueza e perverso socialmente não nos serve. A questão que se coloca, então, é: qual o modelo de financiamento das nossas políticas públicas e qual o projeto de desenvolvimento econômico que haveremos de desenvolver?

O governo Olívio Dutra deverá lidar com uma imensa divisão político-ideológica no RS tornada evidente pela votação que ambos os candidatos obtiveram no segundo turno. O fato é que a oposição ao novo governo parte de uma base social considerável. Em termos eleitorais, a coligação conservadora foi mesmo "empurrada" para os pequenos municípios e seus partidos perdem espaços em todos os centros urbanos, inclusive no interior. De qualquer forma, a oposição a Olívio contará com uma forte presença na Assembléia (um complicador e tanto), com um espaço considerável na mídia, com o apoio de importantes setores do empresariado e, a depender da nossa atuação, com um espaço crescente nos movimentos reivindicatórios e mesmo em setores do funcionalismo. O governo Olívio Dutra expressa, seguramente, o maior desafio político já colocado ao Partido dos Trabalhadores no Brasil. Nossas experiências anteriores de governos estaduais transcorreram em estados de importância secundária e foram, cada uma a seu modo, derrotadas. De qualquer forma, a crise no Espírito Santo e a não reeleição de Cristóvam Buarque no DF não colocaram em xeque a imagem do Partido nem foram significativas a ponto de comprometer a afirmação política da esquerda no Brasil. A experiência de governar o Rio Grande do Sul, não obstante, terá repercussões muito maiores, para o bem e para o mal. Para cá estarão voltadas as atenções de nossos aliados e de nossos adversários, nacionalmente. Se governarmos com sucesso, estaremos oferecendo a mais importante demonstração da viabilidade de um projeto político alternativo para o país; se fracassarmos, teremos contribuído muitíssimo para a manutenção da hegemonia política conservadora.

Amplitude e governabilidade:

O primeiro desafio do novo governo é o de construir as condições políticas para a governabilidade. Para isto, concorre, evidentemente, a amplitude do novo governo. Entendemos que, desde a composição do secretariado, o novo governo deve constituir uma coalizão de todas as forças progressistas e democráticas. Uma coalizão que não esteja restrita ao equilíbrio das forças internas ao Partido e que não se encerre na participação do PDT no governo. É preciso ir além disto atraindo setores descontentes de outros partidos, do centro para a esquerda e integrando importantes segmentos sem-partido da sociedade civil. Em todos os casos, os critérios para a indicação devem combinar três elementos fundamentais subordinados à identidade com nosso programa:

capacidade política - nossa experiência tem demonstrado que as personalidades centrais de um governo devem possuir uma sólida formação política. Isto significa capacidade de produzir fatos, de tomar iniciativas de repercussão, de incidir no momento oportuno para a resolução de problemas sentidos pela população, de propor caminhos e liderar efetivamente, de participar com naturalidade e competência do debate público constituindo opinião, de agregar parceiros, de viabilizar recursos, de antecipar-se às crises, de atuar com independência, etc. A ausência desta capacidade política tende a criar problemas graves e se traduzirá em uma falta de sensibilidade que pode ser fatal em situações de agudo tensionamento.

capacidade técnica - é preciso agregar à primeira característica a imprescindível capacitação técnica do primeiro escalão do governo. Primeiro, para que as soluções efetivas sejam encontradas, para que seus custos sejam os menores e curto o tempo necessário para gestá-las. Segundo, para que o próprio governo se imponha através do respeito e da admiração profissional que seus integrantes inspiram em suas respectivas áreas. Um governo que opte por uma composição exclusivamente política de seu primeiro escalão estará oferecendo tão somente uma demonstração pública de desprezo pela inteligência. Quadros políticos sem a necessária capacitação técnica podem ser aproveitados da mesma forma que os quadros técnicos sem a necessária formação política: nas assessorias.

representatividade social - um(a) Secretário(a) de Estado deve representar algo mais do que o Partido ou a corrente política que o (a) indica. Este critério é, na verdade, aquele que inaugura nossa disposição de permitir à própria sociedade fazer-se representar mais amplamente no governo. O primeiro escalão deve agregar prestígio social em cada uma das pastas; salutar, então, que seus nomes sejam o mais amplamente reconhecidos.

Observados estes critérios norteadores, a composição do governo deve refletir, tanto quanto possível, a correlação de forças entre os Partidos que o apoiam e a representatividade política de suas correntes de tal forma que se assegure a unidade na diversidade e que nenhum setor do governo seja monopolizado por uma força ou tendência política.

Tanto quanto possível, a definição do primeiro escalão deve ser alcançada sem traumas ou disputas públicas. Deve-se, sobretudo, evitar o clima criado com a disputa em POA quando da composição do atual governo municipal. Entendemos que as dimensões do desafio de governar o estado são tamanhas que seria de uma importância estratégica chegarmos a uma definição do primeiro escalão num prazo curtíssimo. Isto agregaria a imensa vantagem de antecipar a preparação das equipes de governo para as medidas urgentes a serem tomadas logo após a posse. Um processo longo e tortuoso de negociações não é garantia de uma melhor escolha, mas é a certeza de tempo perdido no enfrentamento à crise. Em larga medida, haveremos de tomar um conjunto de decisões políticas cruciais sobre o estado mesmo antes da posse. O exemplo mais significativo é a nossa conduta na Assembléia diante dos projetos pendentes na pauta o que envolve, entre outros temas, a política salarial para o funcionalismo e as votações do orçamento de 1999 previstas para novembro.

Nossa postura tática na Assembléia Legislativa:

Somados os votos dos deputados e deputadas eleitos pela Frente Popular e pela Frente Trabalhista, temos o apoio de 20 parlamentares em um universo de 55. Para que alcancemos maioria absoluta, seriam necessários 28 votos. Este quadro deve ser examinado com bastante atenção. Necessariamente, não precisaremos contar com uma maioria prévia como aquela que esteve à disposição do governo Britto. Ao longo dos últimos 4 anos estivemos sempre à frente de uma crítica substancialmente correta: a formação de maiorias sólidas de sustentação dos governos nos parlamentos tem concorrido para amesquinhar as possibilidades do legislativo transformando-o em um departamento homologador das decisões palacianas. Por este caminho, suprime-se a própria disputa política pelos efeitos de um cálculo matemático. A oposição descobre-se alijada de qualquer alternativa distinta da denúncia ou da radicalização e os próprios movimentos sociais perdem a chance de influenciar as decisões pela legítima pressão aos seus representantes. O resultado final é uma farsa sem precedentes e a transformação dos próprios debates parlamentares em um mero ritual do qual já se sabe, com antecedência, todos os resultados.

Nossos compromissos com a democracia e nossa disposição em favor do diálogo devem estar simbolizados também pelas relações que nosso governo haverá de manter com o parlamento gaúcho na tentativa de construir, a cada momento, uma maioria de sentido progressista nas votações. Com esta disposição haveremos de contribuir para que a própria potencialidade do parlamento gaúcho seja explorada. Para isso, será necessário, antes de tudo, desconstituir qualquer idéia de "maioria prévia" , tanto a nosso favor, como contra nós. O que nosso governo deverá fazer é inaugurar uma dinâmica de negociação intensa com os parlamentares, da situação e da oposição, de tal forma que seja possível valorizar as posições daqueles que estejam dispostos a construir alternativas concretas de interesse público. Isto pressupõe capacidade de transigir, de compor soluções, de dividir méritos, etc. Agindo assim, haveremos de evitar o principal risco das relações com o parlamento que é a criação de um bloco hegemônico coeso que se proponha a obstaculizar nossa política. O governo deve interagir especialmente com o colégio de líderes fazendo com que suas posturas sejam absolutamente transparentes e convidando as lideranças políticas da Casa a apresentarem sugestões aos nossos projetos. Na medida em que se assegurar publicidade a estas iniciativas, estaremos "desmontando" a atuação de um "bloco oposicionista" com vantagens evidentes para o governo, para o parlamento e para o povo gaúcho. Particularmente, devemos iniciar discussões políticas neste sentido com o PTB e o PSDB. Olívio Dutra não haverá de repetir o tom desrespeitoso e tantas vezes agressivo com o qual o senhor Antônio Britto se dirigia à oposição. Olívio, como primeiro magistrado, será, afinal, o governador de todos os gaúchos e não o governador dos petistas.

Uma primeira disputa na Assembléia dar-se-á quando da composição da nova mesa diretora. É fundamental assegurar a composição pluripartidária da mesma, com a representação proporcional das bancadas. Nossa bancada, por este mesmo critério, tem direito, no mínimo, a um ano de presidência no legislativo, além de outras posições chave. Um eventual alijamento do PT ou das oposições da mesa diretora sinalizaria um confronto radical que deve ser evitado a todo custo. Ao contrário do que já foi dito, o regimento da Casa não oferece qualquer garantia quanto à composição pluripartidária. A rigor, a maioria pode excluir a minoria. Os atuais deputados e deputadas do PT e do PDT, bem como os novos parlamentares, devem dedicar-se exaustivamente a este tema.

Nossa postura com relação aos movimentos sociais:

Grande parte de nosso sucesso eleitoral deve-se à simpatia e ao respeito que angariamos em muitos anos de luta junto aos movimentos sociais. O fato de termos chegado ao governo do estado coloca desafios absolutamente distintos nesta relação que deve ser mantida e aprofundada. Nosso principal capital político nesta relação é a característica que haveremos de imprimir nas ações do governo de uma discussão prévia com as entidades representativas de todos os movimentos, inclusive e particularmente com as representações do funcionalismo. O tempo em que travava-se uma verdadeira batalha política para que uma representação sindical ou popular fosse recebida pelo governador felizmente chegou ao fim. Nosso governo haverá de construir uma marca de respeito às reivindicações populares e persistir, sempre, na negociação com as lideranças mais legítimas de todas as categorias e segmentos sociais.

Fundamental é que nossa militância se mantenha atenta e atuante nos movimentos sob pena de ceder espaços à direita ou credenciar oportunistas como legítimos representantes populares. Não haveremos de cometer o equívoco de transformar os movimentos sociais em linhas de transmissão dos objetivos do Estado. Pelo contrário, desejamos que estes movimentos afirmem sua independência frente ao Estado e que mantenham com o nosso governo todas as tensões legítimas e, ao mesmo tempo, a disposição para a negociação.

A primeira iniciativa que precisamos tomar é a de convocar uma ampla reunião com as entidades sindicais e populares para expor a situação em que recebemos o governo. Seria importante se pudéssemos constituir com estas lideranças um fórum permanente de acompanhamento e fiscalização da arrecadação e da despesa públicas. As contas do governo devem deixar de ser uma "caixa preta" e se transformar em um documento efetivamente público. É possível assegurar a este fórum as condições operacionais para que a execução orçamentária seja monitorada constantemente. Tal iniciativa, por si só, asseguraria um fato político de envergadura e constituiria um exemplo da transparência que propugnamos. Podemos, entretanto, avançar ainda mais. Seria fundamental que iniciássemos o processo de constituição de uma "esfera pública não estatal" responsável pela avaliação do serviço público estadual, em todas as suas áreas e repartições. Poderíamos elaborar um projeto para a formação de "Comitês de Fiscalização do Serviço Público" com a participação de representantes do funcionalismo e dos usuários dos serviços. Da mesma forma, seria fundamental abrir as comissões de licitação do estado à participação de representantes da sociedade civil. Com iniciativas do tipo, chamaríamos a população a zelar pela eficácia dos serviços oferecidos pelo estado e identificaríamos, com maior facilidade, as debilidades em cada setor, corrigindo-as prontamente. Uma verdadeira e necessária "Reforma do Estado" poderia ter início em projetos democráticos desta envergadura.

O PT diante do Governo:

Os desafios de sustentar um governo de esquerda no Rio Grande do Sul deverão garantir, também, profundas modificações nas relações internas do PT. O tipo de debate e a natureza das disputas internas que vimos travando ao longo destes últimos anos deverão ser revistas sob pena de agregarmos novas e imensas dificuldades políticas ao nosso projeto. É chegado o momento de centrar nossa pauta política na tarefa revolucionária de, no âmbito de nossa competência, gestar políticas públicas capazes de oferecer respostas às demandas populares. O que pressupõe a capacidade de superar o tom tantas vezes sectário com o qual permitimos, todos, que nossas diferenças fossem tratadas. O sectarismo foi, para nós, o espírito objetivo de uma época onde tornou-se possível reivindicar-se de esquerda sem transformar o mundo. Esta época não existe mais. Ou mostramos que somos capazes de transformar a realidade, ainda que no âmbito de um governo estadual, ou nos refugiamos na solenidade das desculpas e nos desmoralizamos. Governar o estado, por isso mesmo, significa "civilizar" nossa dinâmica interna e aproveitar ao máximo a colaboração que todos podem oferecer, concretamente. Que nossos debates, finalmente, se estruturem em torno das respostas que haveremos de construir e que possamos estimular uma verdadeira paixão pelos desafios de um "governo de verdade".


Marcos Rolim - 1998

OPINIÃO

 

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