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Estivemos juntos, homens e mulheres, no lodo há milhões de anos. Ali iniciamos a conceber nossa necessidade de ar e segurança na cosmologia confusa dos nossos primeiros dias. Mas estávamos juntos, homens e mulheres, ali e tão distantes da nudez estética de Vênus e sem o corpo escultural de Apolo - distantes do mármore róseo e muito aquém do aço damaceno que aprenderíamos a forjar nas labaredas e no formão para lançá-lo no mundo de todos os tempos. Ali, deixando os charcos, esboçamos os paradigmas das desigualdades e diferenças que vêm sendo mantidos durante toda essa pequena história que chamamos humana. Iniciamos nossa viagem juntos e separados. Viajamos assim desde então: o homem com um roteiro e a mulher com um roteiro, que às vezes até se confundem e às vezes até se eliminam como nas tragédias. Ainda com o barro pingado de nossos corpos, perguntamos numa virginal indignação: de quem é a culpa? Homens e mulheres respondem em silêncio de ombros contraídos. Estivemos unidos na procura do fogo; do fogo que nascia maravilhoso junto às touceiras além dos pântanos regelados. Juntos estivemos na sofreguidão, no espanto e nos atoleiros. Indicamo-nos, homens e mulheres, o ponto comum das parábolas fosfóreas ardendo nas noites adâmicas. Atingimos o fogo juntos, com nossa alcatéia e esperanças. A meta era o fogo e nele chegamos, sexos solidários nesta busca quimérica e civilizatória. Muito tempo depois, já com uma história oral vasta e poderosa, imaginamos um paraíso original e nos colocamos lá em um tempo onde supostamente não conhecíamos a vergonha, tampouco o bem ou mal. Mas nossa alma pressentia que a turbulência e o desejo que constituem o próprio fenômeno humano só poderiam se estabelecer em mundos bem diversos daquele de tamanha paz paradisíaca. Elaboramos, então, em uma consciência de tempo já tridimensional, o sentimento de culpa, de pecado, de proibido. Foi neste momento que alguém espreitou, num único e voraz lance, que desejo e objeto do desejo poderiam se encontrar na objetividade e subjetividade de uma colheita. A mulher mostrou para o homem esta possibilidade, com ela, a noção primeira do preço das coisas; a maçã, desde então, nunca mais foi a mesma. Nem nós. A mulher fundou, descerrando aos olhos de um homem temerário, o devir não inocente e não é de forma alguma casual o fato da parábola lhe atribuir a culpa primordial. A maçã não institui - como o fogo instituíra - uma célula de civilização. Mas sim e vertiginosamente o fascínio e o sublime, o óvulo de todos os trânsitos, o que funde o arco na lira, o alvo na flecha. Então era possível cheirar, morder, engolir as proibições? Ora, um raio acertara o núcleo das certezas e tudo se escurecera em símbolos de chumbo sobre a terra humana. As constituições orais foram lançadas para além do grito dos pássaros, vencidas pela luz de todos os relâmpagos. Um retorcido instante se instalara ali nos olhos e nas telas de todos os pintores. O oco das cavernas encandeceu-se de uma nova e incontida realidade e as renas passaram a se estampar plenas em quatro cores. As cobras, então, penetram os nossos sonhos que eram de lodo e nuvens. Sonhos nômades, sonhos com escamas, sonhos elétricos e de alto risco, de onde já não se retorna igual para alguém que permanecera igual enquanto não se arriscava nem fuçava a saliva do veneno. A vida, desde o mito de Eva e para todos, tornou-se dupla, dúbia, incerta: a cama alinhada estava desarrumada e o mundo nos desalojara e se tornara vasto, inóspito, um único desalentador e impalpável verde. No imaginário promoveu-se, então, a crispação, o arrepio. O medo de tudo e todos gerou a covardia medular; o mistério universalizou a violência e o lugar reservado ao fogo foi ocupado pelo poder de uns sobre os outros. Os homens e seus instrumentos ao sol dos acampamentos foram rodeados de feras de dentes de pesadelo. O macho humano estava no centro da círculo do medo doméstico rodeado pela lenha em chamas e pelas fêmeas humanas, as mesmas que uniam em seu corpo o avô e o neto na magia da gestação e semeavam a humanidade para além dos tetos ásperos daqueles dias. As perguntas e as respostas que não foram ouvidas ou feitas naqueles remotos lares vêm nos acompanhando tempo afora. Na dúvida, o homem saltara a uma posição semelhante a um Deus tribal e obscuro, feito de músculos, idéias de sacrifício e mutilações mágicas. A mulher aprendeu muito daqueles Deuses terrenos e soube conservar suas lições diante do braço secular da Inquisição enquanto suas vestes e sua carne iluminavam para sempre as trevas medievais. Vem dos tempos remotos uma sinistra hierarquia nas relações de gênero. Em sua base está invariavelmente um sistema de idéias místicas alimentado por um "medo natural" e por um "medo sobrenatural". No centro destas eras e estágios, encontramos a mulher perpetuada no desconhecido, no desenfreado, excitante e caótico e, portanto, sempre sob ameaça. Muito antes da fala, a mulher esteve ligada a algo infeccioso e, mesmo assim, seguiu lançando fluidos que atordoam a razão fervilhante dos machos sistemáticos. E ela avança nas idades ocultando seus estandartes, maldizendo o cotidiano tedioso e, instintiva e fundamentalmente, protegendo e mantendo a humanidade viva. H.G. Wells, em sua "História Universal", analisando antepassados nossos de cerca de 50 mil anos atrás, diz: "O Homem Velho" era o único macho, completamente adulto, do pequeno grupo. O resto, mulheres, meninos e meninas. Logo que os rapazes cresciam e começavam a despertar o ciúme do Homem Velho, este entrava em luta com eles e, ou os expulsava, ou os matava. Algumas meninas podiam, talvez, partir como exiladas, ou dois ou três jovens podiam conservar-se juntos por algum tempo, errando até encontrarem outro grupo do qual tentariam roubar uma companheira. Lutariam então pela posse (...) certo dia, quando estivesse pelos quarenta anos, ou talvez mais velho, e seus dentes estivessem gastos e sua energia em declínio, algum macho mais jovem enfrentaria o Homem Velho e o mataria, passando a reinar em seu lugar. Havia pouco espaço para a velhice no acampamento. Desde que seus membros se tornavam fracos e impertinentes, a luta e a morte os vinha aniquilar." É a mulher que reorienta e instaura uma decisiva e rudimentar unidade entre e intra grupos. A mulher penetra silenciosamente no mundo dos símbolos do Homem Velho e, dos seus adornos, ferramentas, tabus e armas, e mediando a vida entre os mais caros valores, ela inaugura o respeito ao Homem Velho, a sua sabedoria e a sua experiência. Tudo isto em troca da vida dos filhos machos que, ordinariamente, seriam encurralados pelo medo, pelos ciúmes e pelas severas necessidades de sobrevivência do Homem Velho. A maçã dera uma volta aos olhos do mundo, mas não trocara de mão, nem de encanto. Milênios depois, algo próximo a uma família é visto sob o sol: "O Homem Velho" foi o começo da sabedoria social. O jovem das primitivas moradas do homem crescia sob este medo. Os objetos associados com o Velho eram, provavelmente, objetos proibidos. Todos estavam proibidos de tocar em sua lança ou de sentar em seu lugar, exatamente como hoje as crianças não podem tocar no cachimbo do pai, ou sentar em sua cadeira. Era, provavelmente, o senhor de todas as mulheres. Os jovens da pequena comunidade deviam estar lembrados disto. As suas mães lhes ensinavam. As suas mães lhes instilavam no espírito de temor e respeito pelo "Velho".(...) "Só pelo respeito a esta lei primordial podia o jovem macho escapar à cólera do Velho". E o jovem macho, que aprendera da mãe a lição de sobrevivência, adquirira, certa e simultaneamente, o mesmo e duplo e misterioso medo pela mulher que manobrava genialmente o velho que ele próprio acabaria sendo um dia. Às mulheres, desde aquela estreita e escura caverna, era atribuído um poder de comunicação e ligação com coisas secretas. Sobre esta pedra intuitiva repousa a vestidura do medo sobre os ombros masculinos. Só assim, é possível pensar nas razões que fazem com que, por exemplo, a mais querida das revoluções - a de 1789 - tenha sido tão desoladora e inclemente em relação à metade da população francesa, as mulheres. Neste particular é vergonhosa e odiosa. É assim que a fundação da modernidade pode ser vista como um decisivo episódio de nossa história e, ao mesmo tempo, como um breve e nuançado movimento de contorno aos estigmas brutais e cavernosos, o que mal conseguiu diferenciar os revolucionários daqueles homens que despegavam sílex da rocha para cortar a pele que vestiriam na noite gelada e cortante dos seus mistérios. Não há sobre a condição da mulher registro digno de nota feito por Mirabeau, Danton ou Robespierre. Nada. Rousseau, o iluminado, parecia carregar a mesma e triste tocha enceguecida que conduzira o Homem Velho nos seus rituais de morte. A mulher, na mais aclamada das revoluções, permanecia misteriosa e solitária no círculo breu de sua doença original. A maçã, mais uma vez, girou e, mais uma vez, não trocou de mão. Monarquistas e Republicanos estavam novamente unidos: o estatuto da mulher era tão somente uma engenharia de preconceitos e jogos ardilosos; a própria forma de sua morte fora questionada e o direito à guilhotina correspondeu a uma dura conquista. O aço perfeito degradava-se no bronze sem fio daqueles homens que temiam a cidadania feminina como já haviam temido o tigre de dente de sabre trinta mil anos atrás. Nós, homens, vimos singrando esta canoa de um só remo ao longo das eras. Os círculos são visíveis ao longo dos ciclos e séculos desta água transparente e incompreensível. Nossas tentativas de abordagem redundaram em maior mascaramento. O vício permanece descrevendo um círculo, a maçã não troca de mão. Nós, tigres seculares de trilhas segura, já estamos sabendo dos movimentos subterrâneos que se afirmam na cultura e desequilibram antigas noções de feminino e masculino. Alguns entre nós, tiveram o faro alertado e chamaram suas vozes atávicas; outros, tentam espantar seus fantasmas milenares alimentados desde quando nossos sonhos eram apenas lodo e nuvens. Nossos caminhos estão se acabando num emaranhado de trilhas sobrepostas e bifurcantes: a floresta toda está atordoada. As grandes cidades da modernidade igualaram homens e mulheres em um anonimato de culpa e liberdade. Ao entardecer, o sol nos edifícios ilumina o painel de dúvidas. O motel abriga a todos, os leitos estão mais misteriosos e mais livres. Resta-nos, entretanto, a memória do sílex diante da sinaleira. No Brasil, os registros (oficiais e mínimos) indicam que 205 mil agressões sobre mulheres foram comunicadas em apenas 6 meses no ano de 1992. A maçã está girando. A mulher uma vez a tocou e nos ofereceu. Outras alvou da ira do Velho. Ela nos deu o seio para que nos tornássemos fortes num mundo ainda avesso a homens e mulheres. Para onde a mulher está indo com seus mistérios e suas esfinges neste entardecer seco e úmido? Com o corpo tão frágil, com as roupas tão justas, com os lábios tão pintados? Irá para Caymi que assim não a tolera? Irá para Vinícius que foi de uma por inteiro? Para Chico, que olhou bem nos seus olhos e viu que eram de adeus? Não é possível intentar uma resposta sobre o futuro que, por definição não é, mas não parece possível permanecer indiferente à pergunta. Os projetos e iniciativas que vimos tomando coerentemente com os pressupostos de um mandato feminista são, talvez, apenas uma forma de amplificar a pergunta e as exigências de liberdade. Afinal, as mulheres não lutam mais pela igualdade, mas pela liberdade de serem diferentes. Novamente elas enlouquecem o Homem Velho com as suas incompreensões, sentadas em sua cadeira, tocando a sua lança. A maçã na mão. E entardece irremediavelmente no centro desta cidade.
OPINIÃO
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