ensaios.gif (1194 bytes)


ESCOLA E VIOLÊNCIA JUVENIL

Reflexões sobre um sintoma 

"Quase todos os nossos desejos são criminosos"

P. Valery

O fenômeno da violência juvenil que surge neste último período, em nosso país, como uma questão política, vale dizer: como uma questão de importância pública precisa ser, antes de tudo, objeto de uma reflexão específica. Inicialmente, seria importante reconhecer que experimentamos uma época cujas características mais marcantes estão indissociavelmente vinculadas à velocidade, ao movimento e ao trânsito. Nossas referências morais, políticas, religiosas ou estéticas são rarefeitas e confundem-se num espaço etéreo onde cada uma delas se converte na outra e todas podem ser cada uma. Baudrillard (1) chama a atenção para esta dissolução das categorias e dos seus domínios o que arrasta consigo a idéia de valor. Qualquer fenômeno social passa a ser tratado como se pudesse ser "político" incluindo-se as questões atinentes, até então, à vida privada. O sexo está em toda a parte e tudo pode ser interpretado em termos de fantasmas e recalque. Ao mesmo tempo, tudo se estetiza, incluindo-se a política transformada em espetáculo midiático. Bom, mas se "tudo é político", se "tudo é sexual", se "tudo é estético" então nada é uma coisa ou outra. O mal estar deste fim de século é este "nada" ao nosso entorno e a angústia decorrente.

Ao trabalharmos com o tema da violência juvenil temos, sempre, a tentação de "explicá-la" a partir de determinados modelos ou paradigmas conceituais. Ocorre que esta é uma época sem modelos, um tempo pós- paradigmático, que envolve uma sociedade angustiada. As noções utópicas tradicionais - compreendidas como tal aquelas que se definiram como "grandes narrativas", particularmente a idéia do Socialismo/Comunismo - foram varridas da história. Podemos apreciar este resultado ou lamentá-lo, o fato é que a idéia de "transcendência", de superação daquilo que está posto como sociedade, parece, cada vez, mais inatingível. Os riscos do conformismo ou da inação são por demais evidentes. O mundo é, para a grande maioria das pessoas, a dimensão de um presente contínuo que se define não apenas pela ausência de memória e respeito à tradição; vale dizer, pela insignificância do passado, mas, também e fundamentalmente, pelo fim do futuro. Note-se que, entre todos, são exatamente os jovens aqueles para os quais esta carência de história - no seu sentido mais amplo - parece ser mais perturbadora posto que, além das referências (perda que entre os adultos poderá ser "suportada" pela experiência) , lhes subtrai também a disposição em favor dos outros, o descentramento oferecido pela virtude do "cuidado". (o que na realidade do mundo adulto será operante, pelo menos, na relação com os filhos) Premidos por esta circunstância cultural, os seres humanos -mais facilmente hoje que nas gerações passadas - podem encontrar sentido para a existência nela mesma. A busca do prazer, a realização dos desejos, encontra na urgência o seu tempo ótimo e no consumo o seu espaço natural confundindo-se com a própria idéia da felicidade. Não por outra razão, aquele que desejar compreender o "espírito objetivo" desta época haverá de se debruçar sobre a publicidade.

Pois bem, a juventude (ou, mais precisamente, a adolescência) é, ela própria, um trânsito entre o mundo da iniciação habitado pelas crianças e o mundo da realização vivido pelos adultos. Em verdade, o adolescente vive a experiência de uma definição a respeito de si mesmo formatada pela negatividade. Ele é aquele que "já não é" e, também, aquele que "ainda não é". Assim, natural que as indefinições de uma época, que os dilemas de uma cultura, se façam sentir com maior agudeza entre os jovens. As sociedades que conhecemos imaginaram a instituição escolar como o espaço privilegiado para a preparação dos jovens diante dos desafios da integração ao mundo do trabalho. No próprio processo da aprendizagem, há uma ética pressuposta - oferecida mais ou menos explicitamente aos alunos- que parte da idéia de que o estudo é o esforço necessário - ou mesmo o sofrimento incontornável - para a qualificação profissional. Assim, aquele que estuda poderá adquirir as condições exigidas pelo mercado e habilitar-se ao sucesso. Esta "ética do trabalho", não obstante, contrasta violentamente com valores ideológicos muito mais efetivos e com a própria realidade social, notadamente no Brasil. Primeiro, a própria "cultura de massa" , resultante da produção típica dos meios de comunicação de massa, cimenta uma espécie de "ética do prazer" pela qual os "heróis" ou os modelos de sucesso se realizam. Como o assinala Morin, "o tema da liberdade se apresenta através das janelas diariamente abertas da tela, do vídeo, do jornal, como evasão onírica ou mítica fora do mundo civilizado, fechado, burocratizado" (2) Assim, o espaço da liberdade é aquele só vivido pelos ricos e pelos "fora da lei". Uns e outros, afinal, tudo podem. De qualquer maneira, o contraste com a esfera da "necessidade" - da contenção, da aceitação de regras ou do império da lei - é um desejo que se realiza, sobretudo, na violência e pela violência desde as histórias infantis. Ao mesmo tempo, os jovens - e com mais incidência aqueles da periferia, intuem que a aposta no esforço em direção ao mercado de trabalho significa, mais certamente, o espaço subalterno oferecido pela condição de trabalhador, de assalariado, quando não o destino do desemprego. Ora, mas se a felicidade é uma grife, se "ser jovem" significa possuir determinados ícones de consumo que oferecem distinção, então "o trabalho não compensa". (3) De outra parte, se a idéia moral nesta época carece de referências fortes e o sentido da idéia de "bem" vincula-se irrefletidamente à idéia de "prazer", então, para grande parte dos jovens, a escola é um "mal".

Seria preciso, é claro, pelo menos a título introdutório, lembrar ainda que a instituição que chamamos "família" já não pode mais ser dita assim como se expressasse um fenômeno unívoco. Sob esta palavra encontraremos uma vasta rede de relações interpessoais e grupais que já distam significativamente do "modelo família" cuja realidade é sua lembrança. " Irmãos" filhos de casamentos diferentes que convivem em uma mesma unidade doméstica, "pais" e "mães" que se multiplicam, que "aparecem" ou "desaparecem" na medida em que as relações entre os adultos são reconstituídas; filhos criados por avós, entre tantos outros fenômenos, alguns até mesmo de difícil identificação, tornaram-se frequentes, habituais. Parece claro que este processo radical de dissolução das estruturas familiares tradicionais - paralelo à inserção moderna da mulher no mercado de trabalho - enfraqueceu determinados mecanismos de socialização das crianças esmorecendo, notadamente, a interdição ou, se preferirem, a "função paterna". Jovens que carecem de limites e que se inclinam em direção à perversão parecem ser, neste quadro, um resultado previsível. Seja como for, é evidente que a estrutura real dos grupos encarregados da "recepção" às crianças no mundo moderno - o que chamamos indiferenciadamente de "família" - caracteriza-se, atualmente, por uma permissividade objetiva com relação às crianças, medida muitas vezes pela própria distância que as separa dos pais. O que não significa que tais relações entre pais e filhos tenham se tornado menos arbitrárias ou violentas. O que parece ter diminuído é a incidência formadora dos pais sobre seus filhos. Se esta observação for verdadeira, há uma nova demanda sobre a escola no Brasil. Uma demanda para a qual nossos professores não foram preparados.

A escola descobre-se, então, acossada desde as suas entranhas. A violência não é mais uma ameaça oferecida pelo que há de incompreensível e intolerável "fora" de seus muros. Muitos adolescentes se vinculam à violência dentro da escola e em oposição a ela. Alguns exibem armas nos corredores, outros se drogam nos banheiros. O que fazer?

Qualquer que seja a solução possível, sabe-se que ela não nos será ofertada pela hipótese repressiva. Pelo contrário. A tentativa de "disciplinar" os adolescentes pelo reforço de medidas impositivas ou pela própria presença das forças de segurança pública - policiamento, etc., tendem a, cedo ou tarde, aguçar e generalizar conflitos. É preciso lembrar que os valores morais mais apreciados entre os jovens são exatamente aqueles repetidos à exaustão pela indústria cultural dos mass midia. Digno de estima moral, então, é aquele que se impõe por sua força, habilidade ou coragem pessoal. Aquele "que se garante". Glória Diógenes (4) faz menção ao problema quando sustenta a necessidade da escola superar a "lógica do confronto". É preciso, afirma a pesquisadora cearense, romper a dinâmica pela qual no tratamento de conflitos deva existir, sempre, um ganhador e um perdedor. Importa, então, construir soluções com os próprios adolescentes e não contra eles. O que não deve ser entendido como recusa diante da necessidade de fixar limites e responsabilizar aqueles que os transgridem. A questão inicial é anterior. É preciso ver na violência juvenil um sintoma de problemas mais amplos situados também na escola. O primeiro deles pode ser percebido a partir do silêncio e da invisibilidade dos adolescentes. Ora, qual a importância conferida a eles, efetivamente, pela escola? Qual a oportunidade que lhes é concedida de contestarem, pelo uso da palavra, as regras existentes na escola ou os métodos empregados pelos professores, antes que o façam com pedras ou pontapés? As noções de "disciplina" vigentes em nossas escolas não se fizeram sinônimas do silêncio? A figura do "bom aluno" , afinal, não se confunde tantas vezes com aquele que é "quietinho" e que, por isso, "não incomoda"? Quando a escola olha para um aluno e, especialmente, para aquele que se afigura como um "problema" o que ela, de fato, observa? A realidade das eventuais transgressões ou a pessoa implicada? Em outras palavras, a dinâmica efetivada pela instituição disciplinar permite ao professor/orientador/dirigente que reconheça no fato imputado como "desviante", além da norma a ser observada, as subjetividades irredutíveis a serem descobertas ? Em caso negativo, como estabelecer com este aluno uma "ponte" que permita a comunicação e, por consequência, um pacto firmado pela palavra?

Hannah Arendt sublinhou já as distinções conceituais entre o fenômeno da "violência" e do "poder", tão normalmente desconsideradas pela tradição sociológica. O que ela sustenta, além disso, é que a violência não á apenas distinta do poder, mas, precisamente, o seu oposto. (5) Se o poder é a capacidade que temos de agir em conjunto, toda impossibilidade de ação (política) estimula o ato violento. Talvez por isso mesmo a violência seja tão glorificada pela cultura de massa oferecendo-se ao ser humano fragmentado como o único gesto possível diante da burocratização da vida pública e da influência arrasadora dos grandes conglomerados econômicos. Na violência, então, há sempre a expressão de uma impotência tornada ativa.

Ora, talvez a violência juvenil seja essencialmente um apelo em favor do reconhecimento. Uma expressão muda em busca de um sentido que a própria escola já não oferece. Não vai aqui nenhuma ilusão romântica diante da violência juvenil. O fenômeno da violência equivale, sempre, à subtração arbitrária de direitos. Quando falamos em "ato violento", então, queremos dizer, também, "produção de vítimas". A violência é, por isso mesmo, a natureza de uma conduta inaceitável para uma ética centrada na perspectiva dos Direitos Humanos, o que se impõe racionalmente de maneira incondicionada. Ocorre que estamos a tratar de políticas públicas para o enfrentamento de um problema cujas razões são não apenas complexas mas, normalmente, desconhecidas. Se desejarmos uma intervenção eficaz, é preciso romper nosso estranhamento diante do universo cultural dos adolescentes dos grandes centros urbanos e lidar com alternativas que tenham, de pronto, a adesão deles. Nem que seja para iniciar uma relação que construa "pontes" legitimadoras de futuros compromissos. Assim, por exemplo, tenho a convicção de que boas oficinas de "Rap" em uma escola da periferia com a galera que "curte' o gênero serão muito mais funcionais para conter a violência do que a presença de policiais nas imediações da escola. Notadamente o Rap, mas também outras formas de expressão artística, oferecem aos jovens a possibilidade de simbolizar discursivamente o ato violento, o que, por óbvio, é muito distinto de praticá-lo. Estamos diante de uma alternativa, então. Muitas outras idéias podem ser examinadas. Uma aproximação maior entre a escola e as famílias, a participação dos alunos em campanhas solidárias e nas lutas da sua própria comunidade, a organização de viagens culturais e de lazer preparadas conjuntamente com o esforço dos próprios alunos, etc.

O fenômeno da violência juvenil e sua emergência nas escolas brota do tédio e da ausência de sentido, as heranças mais fortes que as sociedades deste fim de século oferecem aos seus infantes. Importa em fazer com que a escola seja um espaço produtor de vida e liberdade; que ela seja inventiva então e transformadora. Que nos seus próprios limites seja capaz de ensinar uma causa aos que se rebelam sem qualquer uma. Este, afinal, parece ser o desafio.

(1) BAUDRILLARD, Jean. "A Transparência do Mal, ensaios sobre fenômenos extremos". Campinas, SP, Papirus, 1990.

(2) MORIN. Edgar. "Cultura de Massas no Século XX, o espírito do tempo - I , neurose" Rio de Janeiro, Forense, 1990.

(3) É o que revela um dos mais interessantes e profundos estudos já feitos no Brasil sobre o fenômeno das gangues juvenis. Ver DIÓGENES, Glória. "Cartografias da Cultura e da Violência, gangues, galeras e movimento hip hop". São Paulo, Annablume, 1998.

(4) DIÓGENES, Glória. "Juventude, Cultura e Violência", exposição realizada em seminário da Secretaria de Educação de Pernambuco em agosto de 1998, original mimeo.

(5) ARENDT, Hannah. "Sobre a Violência", Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1994.

Marcos Rolim - 1998

 OPINIÃO

[Inicial]
[Links] [Ensaios] [Crônicas] [Currículo] [Relatório Azul]
[Projetos Parlamentares] [Discursos selecionados] [Direitos Humanos]