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Ainda hoje, o imaginário social sobre a loucura se concebe no interior de uma embarcação. Tudo se passa como se os que experimentam sofrimentos psíquicos fossem, eles mesmos, navios à deriva aos quais seria preciso oferecer o competente comando. Coube à razão, em sua dimensão instrumental, a tarefa de oferecer um determinado discurso "científico" com o qual foram erguidos sólidos portos para a loucura. Como nas docas, estas construções foram ladeadas por muros e situadas à margem das cidades. Desde os antigos leprosários, transformados em manicômios na alta Idade Média, até às modernas clínicas psiquiátricas, muitos foram os "navios sofredores" que atracaram para nunca mais... Deles, já não temos notícias. Não é possivel reconstruir o lamento das caravelas avariadas pelos imensos corredores da exclusão, nem saber da tristeza dos submarinos contidos, amarrados, sedados. Sabemos, apenas, que eles eram seres humanos à procura da luz e que de claridade deve viver o homem. A metáfora, entretanto, pode ser reinventada por todos nós que desejamos, luminosamente, alongar em nosso corpo a neve derramada. Em certo sentido, somos todos tripulantes de uma ampla embarcação sem qualquer destino. E, na busca por novos caminhos, vamos descobrindo gestos solidários e ações ensandecidas de humanidade. Neste navio planetário é preciso jogar ao mar os manicômios e todas as práticas que 1he são correspondentes. Faríamos o bastante, penso, se víssemos no outro um sujeito dono de carecimentos e desejos. Talvez esta seja a "senha" que nos é proposta pelos trabalhadores em saúde mental, loucos pela vida. Não nos seduz qualquer visão romântica sobre a loucura. Mas, se toda loucura tem uma razão que a reconhece e protege, então toda razão tem sua loucura que 1he provoca e estimula. Em nossa embarcação, por isso, deve haver espaço para as razões irrazoáveis e para os razoáveis desatinos... A extinção progressiva dos manicômios com sua substituição por formas alternativas de atenção é, neste fim de século, uma exigência incontornável para a recuperação da cidadania dos "doentes mentais". Esta convicção foi, sem dúvida, o saldo mais forte do Seminário Internacional de Saúde Mental, promovido pela Assembléia Legislativa. Importa agora, consolidar uma vontade política para operar as transformações.
Marcos Rolim - 1991 OPINIÃO
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