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Cerroni (Teoria do Partido Político, 1982) definiu a experiência moderna dos partidos políticos propondo uma fórmula sintética capaz de captar aquilo que de essencial constituiu o fenômeno surgido no início deste século. Para ele, um partido é um programa mais uma máquina organizativa. Esta tentativa sempre me pareceu bastante questionável e penso que lhe escapa o mais importante do fenômemo-partido: a identidade imaginária proposta e efetivamente realizada no movimento de sua auto-constituição. Dito de outra forma, parece-me bastante infrutífero buscar uma definição positiva do fenômemo-partido se o preço a ser pago pela empreitada for o esquecimento daquilo que pode expressar a relação desta "forma" com valores - conteúdo social - verdadeiramente veiculados na e pela experiência política. O fenômeno-partido não será efetivamente apreendido sem que se tematizem as próprias expectativas resultantes de sua existência. Um partido é, então, também e talvez principalmente, o que se espera dele. Um partido só merece este nome quando um conjunto de idéias mobilizadoras são produzidas e compartilhadas gerando um ordenamento político para a ação. São estas idéias e o ordenamento resultante que, adquirindo visibilidade social, geram as expectativas que, por sua vez, irão alterar aquelas idéias e redesenhar constantemente o ordenamento necessário para ação partidária. A "objetividade" partidária, assim, é este fluxo subjetivo entre um conjunto de pessoas identificadas por valores, símbolos e desejos. Pode-se dizer, também, que um partido é uma idéia de futuro que torna-se presente pela aquiescência de um grupo disposto a agir em seu nome, o que será tanto mais significativo e "histórico" quanto maior for sua capacidade de interlocução com os demais grupos. Ao pensar o fenômeno-partido como resultado de idéias e expectativas sociais estamos, propositadamente, afrontando um determinado senso comum de esquerda que só pode conceber o partido como uma derivação, mais ou menos direta, das lutas sociais; vale dizer: das "contradições geradas pela própria estrutura social". Como se sabe, não agrada à ortodoxia mais renitente a noção de "criação histórica", o próprio termo, quando empregado, adquire o sentido da emergência de algo que provem, nunca de algo que advém. Para o imaginário ortodoxo, afinal, a tecitura das sociedades humanas não é um "sem fundo" pleno de mistérios e indeterminações, mas um conjunto bastante ordenado de causas e efeitos, de estruturas que se refletem e condicionam e de seres humanos que, naturalmente, agem de acordo com interesses sabidos e reconhecidos. Felizmente, para todos nós, a sociabilidade real guarda muita distância desta monotonia conceitual e vem sendo formada historicamente pela capacidade única demonstrada pelos humanos de criarem significados originais em sua própria atividade. Significados que, mesmo condicionados e limitados socialmente, jamais são redutíveis a causalidades externas e anteriores ao sujeito que pensa. Assim, ao pensar o partido como uma realidade decorrente de idéias mobilizadoras já se está, também, valorizando o que significa propriamente o caminho para a vitalização do partido: o debate em torno de idéias ou, pelo caminho inverso, alertando sobre os riscos decorrentes da ausência de idéias, processo que conduz à senilidade do fenômeno-partido e a sua transformação em aparato do poder burocrático. A este respeito, é interessante observar como a inteligência de Leon Trotsky o faz transpor as fronteiras do "materialismo histórico" quando se trata de refletir sobre uma experiência bastante singular: a ascensão de Stálin. Em algumas passagens bastante desconhecidas porque não codificadas por seus seguidores, Trotsky parece contornar seus próprios pressupostos teóricos rompendo com a inclinação sociológica e reducionista que o acompanha por toda sua vasta obra. Vários autores o assinalaram, entre eles Lefort (A Invenção Democrática, 1983) que se refere, em outro contexto, a uma passagem em que Trotsky (Stálin, O militante Anônimo, 1980) situa o partido bolchevique como o resultado de... Idéias! O texto a que ele se refere é o seguinte: "Stálin tomou conta do poder, não com a ajuda de suas qualidades pessoais, mas com a ajuda de sua máquina impessoal. E não fora ele que criara a máquina, mas sim a máquina que o criara. Esta, com sua força e a sua autoridade, resultava da luta heróica e prolongada do partido Bolchevique, o qual surgira das idéias. (grifo meu) A máquina era o veículo da idéia antes de encontrar o seu fim em si mesma. Stálin pôs-se à frente da máquina no momento em que esta cortou o cordão umbilical que a ligava à idéia e quando se converteu numa coisa em si mesma... A máquina emergira das idéias. Mas a primeira qualificação de Stálin vinha a ser uma atitude de desprezo para com as idéias..." Não casualmente, Trótsky toca em um ponto central: Se há alguma coisa que a burocracia não tolera, esta coisa é uma idéia. Primeiro, a burocracia necessita transformar as idéias mobilizadoras em mandamentos e codificá-las ordenadamente; depois, precisa sustentar a prevalência do código è reforçá-lo permanentemente remetendo toda e qualquer discussão aos limites autorizados pelo próprio ordenamento que, desta forma, coloca-se fora do alcance de qualquer discussão. A tentativa tem de ser recorrente visto que não há outra forma de legitimar suas opiniões e interesses perante a própria base partidária a não ser falando em nome das idéias mobilizadoras e, portanto, colocando-se na condição de defensora de uma identidade original sempre ameaçada. O passo seguinte é o de estigmatizar toda e qualquer posição divergente como incompatível com o código e montar estratégias para derrotar aqueles que questionam a sua prevalência. O desfecho deste processo é a promoção de uma esfera pública fantasmagórica onde todos os procedimentos são rituais, a começar pelo ato de fala uma vez que todos dizem exatamente o que se espera que digam. Neste espaço dramático onde tudo imita a política, já não resta mais tempo para qualquer sociabilidade digna. O convívio transforma-se ele mesmo em cálculo e todo o desprendimento será castigado. Na atmosfera burocrática, apenas a intriga é permutável. Faço parte de uma geração de militantes de esquerda que emprestou ao PT e aos valores que ele simboliza bem mais do que os melhores anos de nossas vidas. Em certa medida, todos nós entregamos a esta experiência uma parte de nosso futuro; se não por aquilo que já nos determinamos, certamente, de forma negativa, pelas possibilidades que fomos descartando. Esta trajetória não nos ilumina especialmente, nem nos assegura quaisquer prerrogativas. Pelo contrário, ela nos impõe deveres. É precisamente em nome das expectativas que criamos e que ajudamos a repartir que devemos advertir o partido e a sociedade a respeito do que, a nosso juízo, compromete um projeto único e, talvez, insubstituível em nosso país de uma de suas mais autênticas vontades transformadoras. Estamos falando do processo de burocratização pelo qual um partido político transforma-se em um aparato do poder burocrático. Por nossa opinião, o processo de construção do Partido dos Trabalhadores coloca, pela primeira vez em um horizonte visível, a emergência desta possibilidade degenerativa. Não se trata, como se poderia deduzir, de identificar uma "camada privilegiada" de dirigentes partidários, funcionários ou assessores políticos e estabelecer, de imediato, a existência de uma "burocracia usurpadora". Muitos menos, como o tentou Trotsky diante do Partido Bolchevique, identificar um "termidor" no PT ou uma "base social" para a própria burocracia. A burocracia é, antes de tudo, um conteúdo político, um modo de se conduzir politicamente e não um grupo identificado por funções burocráticas, de resto totalmente inconformáveis e para cujo provimento é necessário a formação de um quadro profissional relativamente autônomo. Interessa-nos, então, sobremaneira, identificar este conteúdo político ou este modo de se conduzir politicamente que caracteriza o fenômeno burocrático. Tal identificação é, aliás, condição para o enfrentamento da degenerescência política. O que talvez possa surpreender os leitores mais familiarizados com os códigos internos da chamada "vida partidária" é a proximidade cotidiana dos conteúdos que estaremos examinando. Como se verá, os militantes do PT, especialmente, saberão reconhecer o "estilo" aqui criticado e sentirão que ele, por vezes, é por demais "íntimo". Nada mais natural. Ocorre que o processo mesmo de burocratização corresponde a um desdobramento lógico e espontâneo que precisa ser detido, travado. A burocratização não é um projeto que se impõe desde o exterior do fenômeno-partido; ela é uma resultante política do predomínio da razão instrumental nas relações que se constroem entre os indivíduos formadores do partido. Dito de outra forma: sustento que a redução tipicamente moderna da conduta racional ao "agir instrumental tendo em vista a eficácia na obtenção dos fins" é o panorama cultural mais amplo sobre o qual os partidos políticos modernos são conduzidos à degenerescência. Tal processo é particularmente sensível nos partidos de esquerda pela simples razão de que, via de regra, são estes os que se propõe mais fortemente a partir de idéias mobilizadoras enquanto que a grande maioria dos chamados "partidos políticos" já surgem enquanto aparatos do poder burocrático. O "agir instrumental tendo em vista a eficácia na obtenção dos fins" orienta um tipo de atividade humana onde o "outro" é, para todos os efeitos, transformado em "meio" para a eficácia política. Neste tipo de conduta, não há qualquer espaço à problematização das posições políticas se não aquele definido em torno da idéia de eficácia. Todas as considerações de natureza ética, por exemplo, perdem qualquer sentido em si mesmas e só passam a adquirir alguma importância política na medida em que, pragmaticamente, seja possível manipular expectativas éticas disseminadas socialmente em função dos objetivos políticos já definidos. Ora, se a perspectiva aceita como "racional" em nossa própria cultura autoriza a instrumentalização do outro e se a conduta política de um partido que visa, fundamentalmente, a responsabilidade de governo é orientada pela eficácia frente aos seus objetivos, então o próprio debate interno a este partido - e, por decorrência, todas as relações entre seus integrantes - pode ser construído tendo em vista o objetivo de fazer valer a posição de cada uma das partes envolvidas. Vale dizer: o referencial externo de aferição das posições políticas do partido - a eficácia - passa a ser também o referencial interno através do qual suas próprias posições vão sendo construídas. É este processo que, naturalmente, exige que cada militante do partido se transforme num astucioso estrategista e que, ao mesmo tempo, lhe oferece a perspectiva sempre próxima da velhacaria. Uma vez posto que os fins a que nos propomos se bastam a si próprios e que os melhores meios são aqueles que aproximam os fins, temos que apenas a sensibilidade individual para o êxito deverá decidir sobre a natureza do meio empregado. Em nosso país, os políticos que desenvolvem esta sensibilidade são normalmente admirados por sua "esperteza" enquanto que os que se recusam a esta especialização são classificados como "ingênuos". O que se perde com esta conduta é a própria idéia original de "política" e, com isto, a dimensão mais generosa e fascinante da ação desenvolvida na esfera pública para a construção de opiniões e posições comuns de defesa da pólis. O embate político, a luta política, é aquela que se verifica entre idéias para o ordenamento social, processo cuja relativa autonomia e radicalidade permite submeter interesses à "lógica coercitiva" do discurso argumentativo. Já as disputas centradas ou presididas por interesses que submetem opiniões são extremamente comuns nas sociedades contemporâneas - como de resto em todas outras - e podem adquirir legitimidade mesmo em seu particularismo; nada possuem em comum entretanto, com a noção de luta política. Verdadeiramente, parece incrível que as disputas políticas sejam concebidas como manifestações de interesses e que isto seja aceito, mesmo entre a esquerda, sem que ninguém admita - com a mesma naturalidade - que esta simples definição retira da práxis política qualquer transcendência e lhe obscurece mesmo a dignidade. De fato, estamos tão acostumados à evidência de que, em nossa sociedade, boa parte do que se convencionou chamar de "política" encontra-se inteiramente subordinado a interesses particularistas que já iniciamos a constituir o esquecimento de que a "boa política" é filha do desprendimento e que a ação política por excelência busca sua legitimação em valores éticos. Percebe-se, neste ponto, como uma determinada tradição da esquerda funde-se ao senso comum e vem oferecer novo impulso à degradação da política. Em uma passagem de "A Revolução Traída", encontraremos, com a sinceridade de sempre, a síntese da visão ortodoxa constitutiva da própria tradição marxista; diz Trotsky: "Ora, a luta política é, no fundo, a dos interesses e das forças, não dos argumentos." Poderíamos corrigi-lo afirmando: A luta burocrática é, no fundo, a dos interesses e das forças, não dos argumentos e seríamos, inclusive, mais justos com relação à trajetória do revolucionário e grande "argumentador" Leon Trotsky. Assinale-se que o autor não se referia à luta política do partido com as posições adversárias - o que já seria de todo mau - mas, explicitamente, procurava justificar sua derrota no interior do Partido Bolchevique. Para Trótsky, portanto, "a luta dos interesses e das forças" é aquela que se verifica, também, entre os membros do partido. Nem poderia ser diferente. A passagem me traz à lembrança um filme bastante interessante de Scorcese intitulado no Brasil "Os Bons Companheiros". Quem viu o filme lembra que a história se passa em torno de um grupo de mafiosos unidos por um forte código de ética e por valores necessários à própria sobrevivência do grupo. Com o passar do tempo, os valores que sustentavam as práticas criminosas nas relações do grupo com a sociedade terminam por se impor também entre os próprios integrantes do grupo o que conduz a estrutura à dissolução. Mede-se o estado já alcançado pelo processo de burocratização de um partido pelo trânsito maior ou menor dos argumentos em seu interior. É preciso saber se a reprodução das posições políticas do partido já se dá a partir de um processo sistêmico o que, rigorosamente, exclui a intervenção possível dos indivíduos ou se, pelo contrário, um único sujeito dono de um bom argumento é capaz de influenciar em alguma medida a posição do todo. Qualquer exame que façamos sobre a realidade atual do PT deverá constatar indícios bastante preocupantes de bloqueios sistêmicos aos processos argumentativos. É verdade que se discute freqüentemente no interior do partido e que inúmeras polêmicas internas têm marcado a vida partidária. Entretanto, se desejarmos ir além do dado, será preciso indagar sobre os espaços reais para a constituição de posições por conta da confrontação pública de idéias no PT. Esta pergunta não encontrará uma resposta animadora em nenhuma instância do PT. Construímos um partido onde as principais definições políticas são tomadas fora das esferas públicas de debate, seja no âmbito estrito das "tendências" sobreviventes, seja nas articulações informais de grupos dirigentes. As instâncias que construímos para o exercício das funções dirigentes - na verdade, instâncias do tipo parlamentar como os Conselhos e as Comissões dirigentes - revelam-se muitas vezes menos permeáveis aos processos argumentativos do que os parlamentos oficiais onde, graças à possibilidade de repercussão pública, ainda é possível construir posições por sobre as diferenças políticas. A comparação, bastante provocativa para aqueles que se contentam em classificar o parlamento como "burguês", só ilustra um resultado previsível de qualquer instância política cujo funcionamento é marcado pelo afastamento da realidade. No caso das instâncias parlamentares de direção do PT, parte-se do pressuposto que seus debates são "internos" o que, concretamente, significa que as questões ali tratadas só dizem respeito aos integrantes do partido. Sabemos que a assertiva não é verdadeira e que nenhuma questão política debatida pelo partido deixa de concernir aos demais e, tendencialmente, a todas as pessoas. Por isso mesmo, o exercício da política só pode ser concebido enquanto atividade pública. As atividades secretas dirigidas à intervenção na sociedade dizem respeito à prática conspiratória e sua necessidade virtual costuma assinalar a falência da política. Não por outro motivo, as reuniões clandestinas - protegidas da luz pública - constituem um procedimento corriqueiro sob regimes ditatoriais, precisamente porque esta é uma situação onde a violência se sobrepõe ao processo argumentativo e chega mesmo a destruir a esfera pública regrada para a disputa de idéias. Mesmo admitindo que existam situações bastante especiais - e sabemos que elas existem- onde instâncias parlamentares de direção partidária devam se reunir reservadamente - o que, de qualquer modo, pode ser legitimado pelas próprias características de uma democracia competitiva que pressupõe definições sobre estratégias eleitorais, etc. O fato é que a grande maioria das reuniões partidárias deveriam se revestir de um caráter público, o que não ocorre. Como em uma sociedade complexa e multifacetada como a nossa não há nenhuma possibilidade de fazer chegar ao grande público- incluindo a base de filiados do partido as informações necessárias sem o recurso à imprensa, então o acesso dos jornalistas às reuniões partidárias deveria ser regra e não, como acontece hoje, a exceção. Infelizmente, o entendimento atual reafirma a idéia "internista" do debate político o que termina por afastá-lo dos temas e, principalmente, dos enfoques relevantes socialmente. Não se estranha então, que as estruturas partidárias sejam progressivamente esclerosadas posto que, a cada dia, mais envolvidas com temas auto-referentes. A própria dificuldade em debater política nas instâncias de direção em contraste com a imbatível vocação da burocracia para as querelas administrativas parece constituir apenas o caráter emblemático de um processo bem mais radical. Mas se estes elementos não forem considerados suficientes para a caracterização do problema, deveríamos, então, prestar bastante atenção no fato de que nossa limitada tradição de debates políticos é, rigorosamente, a lembrança que temos de intervenções orais de companheiros e companheiras (poucas). Isto porque a sustentação criteriosa de posições políticas por escrito parece cada vez mais desnecessária. Se deveria esperar que, pelo contrário, diante da crescente importância do PT no cenário nacional e mesmo diante da magnitude de seus desafios, a produção critica interna aumentasse. De outra parte, parece bastante evidente que o PT vai firmando um perfil de "dirigente de novo tipo" caracterizado, exatamente, pela extraordinária habilidade política em se consolidar como referência partidária na exata medida em que consegue obliterar suas próprias posições e transitar com desenvoltura entre as ambigüidades que se alargam. Ao que tudo indica, as referências partidárias vocacionadas ao exercício do poder no PT não são aquelas cujas posições políticas são conhecidas, mas, incrivelmente, aquelas sobre as quais ninguém pode afirmar com certeza o que verdadeiramente pensam. Pode-se mesmo observar uma "lei interna" segundo a qual quanto mais importantes são as funções desempenhadas pelos personagens do PT, mais difícil é encontrar o indivíduo no personagem. Tudo se passa como se o preço a ser pago pelo reconhecimento partidário implicasse necessariamente na diluição das diferenças que formaram o próprio dirigente e na promoção metafísica de sua identidade com o "todo". Com isto, amesquinham-se os dois. As observações anteriores tocam de passagem em duas questões decisivas: a tradição de debates e a conduta dos dirigentes. As limitações apontadas atestam suficientemente a gravidade dos bloqueios sistêmicos já consolidados contra os processos argumentativos. Quando os integrantes do partido não escrevem e quando seus dirigentes modulam suas opiniões de forma a solidificar identidades simbólicas com o conjunto isto é a prova de que a estrutura partidária já não oferece nenhum incentivo ao trânsito dos argumentos; que, pelo contrário, segundo a lógica burocrática, argumentar passa a ser uma atividade suspeita. O próprio processo de preparação do I Congresso do PT, concebido como um evento de extraordinária importância na vida partidária, tornou evidente a realidade dos bloqueios sistêmicos. Se tomarmos como referência o processo ocorrido alguns meses antes com o extinto PCI que, por conta de uma longa discussão política, deu origem ao partido Democrático da Esquerda, teremos, pelo menos, uma referência importante para um contraste: podemos começar constatando que, na Itália, todos os debates partidários se organizaram a partir de teses referenciadas nas posições individuais das principais lideranças do ex-PCI (Ochetto, Ingrao, etc.) que exerceram em todo o processo um papel decisivo; já no caso do PT, nossas principais lideranças exerceram influência política desde os bastidores, na melhor das hipóteses. Enquanto na Itália o "velho" PCI rompia com uma tradição inteira e dava origem a um novo partido, o "novíssimo" PT aprovava por escassa maioria uma emenda que condenava explicitamente a "ditadura do proletariado", e se negava a aprovar outra que condenava teoricamente o emprego da violência. Em que pese a importância de todo o esforço realizado, não há como negar que a superficialidade foi a tônica das discussões que travamos em um quadro de extrema fragilidade política e teórica das teses apresentadas. A situação atual do PT, por conta do processo de burocratização, vem promovendo duas realidades partidárias em crescente processo de antagonismo. De um lado, um partido que se firma eleitoralmente como alternativa democrática para reformas nacionais; de outro, um partido que despreza as reformas e denuncia o crescente envolvimento de seus quadros e militantes com aquilo que chama de "institucionalidade". O primeiro destes partidos é uma esperança concreta para milhões de brasileiros; o segundo, é sua frustração. O PT democrático pretende construir políticas públicas que promovam a cidadania, conquistar novos direitos e assegurar, pela via da disputa política, reformas econômicas e sociais de sentido igualitário. Para este objetivo, torna-se decisivo o estabelecimento de uma ampla política de alianças e uma relação de interlocução com todos os sujeitos políticos modernos dispostos à construção de posições comuns. O PT burocrático, por seu turno, quer "dirigir" a sociedade e acredita-se vocacionado para a "missão redentora". Todas as reformas políticas que ele sustenta estão subordinadas aos objetivos de mobilização popular que conduzam o partido ao poder. Este partido resiste a toda política ampla de alianças, mas está disposto a rever sua posição sempre que seu papel preponderante estiver, de antemão, assegurado e a própria composição for condição da vitória eleitoral. O PT democrático é, atualmente, o partido da maioria dos filiados e simpatizantes que, há muito, se afastaram das instâncias partidárias. O PT burocrático é, fundamentalmente, aquele dos "homens de comitê" para voltar a empregar uma expressão bastante cara a Trotsky. Com efeito, pode-se estabelecer como "fronteira" entre estas duas realidades as próprias instâncias partidárias. Evidentemente, isto não significa que a proximidade ou a distância dos indivíduos frente às instâncias partidárias seja, em si mesma, esclarecedora. Estamos a falar, bem entendido, de "tensões" políticas cujos polos podem perfeitamente ser localizados na "militância social", o primeiro e na "militância de aparelho", o segundo. A esquizofrenia apontada já não é mais suportável e começa a gerar crises políticas em todos os lugares. Em larga medida, o processo representa um "custo" político derivado da opção pragmática de boa parte dos dirigentes partidários que, via de regra, preferiram realizar o curso prático de uma estratégia democrática mantendo internamente - para o consumo manipulatório das disputas fracionais - o mesmo discurso "revolucionário" e simplificador do início dos anos 80. Hoje, entretanto, a cultura política da "criatura" é um empecilho aos objetivos do "criador", com destaque - evidentemente - à candidatura LULA -94. A situação parece tão delicada que passa a ser uma questão fundamental a administração interna dos conflitos e a construção de um "ponto de equilíbrio" inexistente desde a implosão da principal tendência interna, a "Articulação". Tarefa tanto mais difícil quanto maior for o fosso que separa os "dois PT". Assinaladas estas características mais gerais, acredito que seja interessante aprofundar o debate sobre a figura do burocrata. Afinal, como ele costuma agir? Quais são os valores normalmente associados a sua conduta? Como exercer sobre a burocracia e sobre nossas próprias inclinações burocráticas uma postura crítica e auto-crítica? É preciso que se entenda, em primeiro lugar, que os burocratas são esfinges sem qualquer enigma. Neles, nada há a decifrar; tudo está posto, dado e se desdobra naturalmente. Não obstante, sua pretensão permanente - o controle - lhes exige uma postura beligerante para com todo o espaço de autonomia, a começar pelo pensamento genuíno. A reflexão é uma temeridade posto que a crítica desorganiza e acrescenta elementos de imprevisibilidade ao ordenamento político que institui a própria burocracia. A estranheza frente às idéias - já apontada - encontra aqui sua motivação principal: o domínio burocrático é uma tentativa infeliz de preservar a vida partidária da vida; de construir um mundo à parte cujos "valores" enaltecidos evocam sempre a disciplina, a subordinação, a identidade. A utopia burocrática construída na máquina partidária é a de um "Partido-Máquina" cujo funcionamento na sociedade reproduza o movimento de corpo-uno. Dal porque o partido seja concebido como uma instância centralizadora de proposições políticas para os filiados que atuam em movimentos sociais; vale dizer: em outros sujeitos políticos tão autênticos e legítimos quanto o próprio partido. Assim considera-se, em geral, bastante "normal" no PT que o partido aprove definições políticas não públicas que vinculam os filiados para, por exemplo, uma disputa na Central Única dos Trabalhadores ou no Centro dos Professores do Rio Grande do Sul. Certamente, se a CUT definisse políticas reservadas para a centralização dos sindicalistas filiados ao PT, ou se o CPERS decidisse centralizar os professores petistas durante um encontro partidário, isto seria tomado como um escândalo. A pergunta é: partindo-se do pressuposto de que tanto o partido quanto os demais sujeitos políticos contemporâneos são autônomos, o que autoriza a implantação de uma estratégia de "colonização" partidária em qualquer daqueles sujeitos? Ora, por acaso não estamos aqui diante da velha e conhecida idéia lenineana das "correias de transmissão" sustentada quando da polêmica sobre os sindicatos no nascente poder soviético? Não se desconhece a "eficácia" destes mecanismos tanto quanto sabemos já o suficiente dos malefícios decorrentes do "aparelhismo", um dos principais responsáveis pelo enfraquecimento das entidades de representação popular. Enquanto estas práticas se reproduzem e vão sendo mesmo alimentadas pela burocracia partidária, o PT deixa de fazer o que lhe compete como partido político: apresentar propostas globais de políticas públicas para a educação e submetê-las à consideração do CPERS ou, no caso da CVT, apresentar um plano político para a superação da recessão e retomada dos níveis de emprego mobilizando os trabalhadores em função desta proposta, etc. Ora, mas a luta política não é, "no fundo, a dos interesses e da força, não dos argumentos? "então porque, de fato, haveríamos de perder tempo apresentando propostas de políticas públicas? Para a burocracia, muito mais importante é assegurar os postos chaves para o exercício do Poder. A estratégia burocrática, na verdade, busca o controle da sociedade, não seu ordenamento democrático e autônomo, daí a perspectiva "racional" da colonização. A alteridade, a diferença, a emergência do novo são ameaças ao poder burocrático que necessita antecipar os resultados de todas as disputas e, portanto, torná-las meramente rituais. Por conta de sua própria incapacidade, os burocratas adoram a previsibilidade e veneram a tradição. A primeira, lhes oferece segurança para agir; a segunda, lhes permite legitimar o feito. Trata-se, como se percebe, de uma base ágil e permanentemente sujeita a "desestabilizações". Ora, a própria sociabilidade dos humanos é constituída por previsibilidade e imprevisibilidade. Graças às regularidades políticas, por exemplo, é possível coordenar ações sociais planejar agendas de debates públicos, etc. Em função das regularidades causais verificadas tanto na natureza quanto na vida social e das regularidades estatísticas derivadas da experiência, é possível, também, estabelecer margens bastante significativas de previsibilidade. Posso, por exemplo, afirmar, sem medo de errar, que este texto não agradará a burocracia partidária e que muitos burocratas do PT reproduzirão opiniões negativas à respeito das posições aqui sustentadas sem que tenham lido o texto; isto deve acontecer assim, porque sempre acontece; é o que chamamos de estatística. Entretanto, não há como saber se estas posições exercerão agora ou no futuro alguma influência na conformação do PT uma vez que qualquer resultado deste tipo está na dependência da ação dos indivíduos e ninguém pode prever nada a respeito de decisões individuais que consagrem a autonomia dos sujeitos; aliás, é a própria liberdade dos humanos que reside nesta condição. A liberdade não existiria na ausência da pura contingência. Uma história feita só de necessidade não seria apenas "mística" como o assinalou Marx (Cartas a Kugelmann, 1878), mas deixaria de ser "História" e passaria a ser "Revelação". Especificamente com relação a este tema, podemos repetir com Macintyre (After Virtude, l981): "Se a vida há de ter sentido, é necessário que possamos nos comprometer em projetos de longo prazo e isto pressupõe previsibilidade; se a vida há de ter sentido, é necessário que nos possuamos a nós mesmos e não sejamos meras criaturas dos projetos e intenções dos demais e isto requer imprevisibilidade". De fato, é preciso saber, afinal, em que medida o processo de construção partidária reforça ou enfraquece a "posse" que temos de nós mesmo; em que sentido a ação dos indivíduos é valorizada e promovida e suas "autorias" respeitadas. Iniciamos aqui a comentar uma questão central cuja importância no mundo contemporâneo é, por certo, muito maior do que já foi no passado: trata-se do papel reservado aos indivíduos na sociedade. Acredito que devemos à Escola de Frankfurt o reconhecimento pela potente denúncia do processo de liquidação do indivíduo que caracteriza a modernidade e que fez Adorno (Mínima Moralia, 1992) concluir que: "A tarefa quase insolúvel consiste em não se deixar imbecilizar nem pelo poder dos outros, nem por nossa própria impotência." De qualquer forma, parece haver um consenso em torno da constatação de que as sociedades contemporâneas, em que pese as imensas possibilidades inauguradas pela evolução tecnológica mais recente, parecem adquirir, cada vez mais, sistemas de reprodução impermeáveis e praticamente independentes da ação individual. Seria de se esperar que um partido político moderno vocacionado pela liberdade tivesse esta preocupação no centro de sua cultura e que a tradição "coletivista" - fonte de alienação e dominação burocrática em todas as experiências socialistas - tivesse já sido superada. As coisas, entretanto, não se passam assim. Qualquer análise mais detida do discurso da burocracia verá como a glorificação do "coletivo" é um tema sempre recorrente. Além da falta de imaginação, há uma ideologia herdada da tradição comunista que se especializou em associar a própria idéia de "indivíduo" a uma degradação tipicamente burguesa. O que precisa ser dito, e repetido sempre que possível, é que a ideologia do coletivismo é sempre a atribuição mística de possibilidades a uma instância imaginária, o que tem acompanhado o lamento dos medíocres e formado a primeira característica da adulação ritual proposta e sancionada pela burocracia. A ideologia do coletivismo presta-se assim, no plano político, a pelo menos três funções: de um lado, reduz sensivelmente as responsabilidades de cada um dos sujeitos, o que agrega outro estímulo ao processo de vergamento e educação para a submissão; de outro, estimula a auto-condescendência entre os "de baixo" enquanto vai lhes inculcando a noção de que suas limitações individuais serão superadas antes pela comunhão do que pelo estudo; mais pela prática do que pela crítica; por fim, oferece aos próprios dirigentes partidários a "senha" que lhes permite expressar opiniões como sendo aquelas que sintetizam e expressam o próprio "partido". Logo, a idéia de partido, que evoca um conjunto abstrato e múltiplo de projetos e aspirações, aparece corporificada na conduta algo sublime da direção que, por definição, fala em nome do "todo". Não casualmente, é comum, por exemplo, que todos refiram-se às posições da direção como se elas fossem as posições do partido e que, muitas vezes, fale-se "partido" quando se pretende designar, especificamente: "direção". Ora, uma direção que se preze jamais terá posição "igual" a do partido, situação que a tornaria absolutamente desnecessária. Mesmo na eventualidade de determinada orientação política da direção coincidir com o que efetivamente decidiram a maioria dos filiados, presume-se que aquela orientação tenha sido tomada em um quadro de referências políticas e teóricas e mediante determinadas injunções "táticas e estratégias" que, de qualquer maneira, não são estas encontradas no conjunto partidário pelo que a coincidência verificada será tão somente tópica. Fica evidente que reproduzir-se-á, também nesta hipótese, a diferença de posição que é peculiar ao ato de conceber uma política globalmente. Em se tratando desta atividade, estamos diante do momento criativo por excelência da práxis política, quando nossa capacidade inventiva 8 chamada a oferecer o máximo de si. Este é o momento irredutível do indivíduo convocado não apenas a escolher entre alternativas, mas a forjar alternativas que não existem. É aqui que o gênio de cada um pode evadir-se da garrafa e, mesmo, em algumas raras circunstâncias, encontrar-se com a história universal. O que é válido para a atividade dirigente partidária o é, integralmente, em níveis aproximados ou distantes, para todo e qualquer militante que, ao agir, vai impregnando as coisas com seu gênio e as fazendo melhores ou piores. Parece elementar que a própria possibilidade da ação pressupõe o outro e que, como o assinalou Arendi ( A Condição Humana, 1987) seja a ação uma prerrogativa exclusiva dos humanos (nem um animal, nem Deus podem "agir" porque a presença do "outro" lhes é estranha ou impossível) assim, a própria elaboração política e teórica irá nutrir-se do debate negando-se tão mais radicalmente quanto busque, de fato, construir verdades, o que confere ao próprio processo argumentativo uma essência dialógica e, portanto, coletiva. Entretanto, descartada a objeção que seria feita pelos amantes do óbvio, é preciso estar atento ao fenômeno decisivo que a ideologia do coletivismo pretendente ignorar; a saber: que o pensamento jamais é coletivo. Sua própria possibilidade afirma o indivíduo ali onde, precisamente, pretende-se tornar irreversível seu processo de liquidação. A idéia de um "pensamento coletivo" significa a negação mais absoluta da autonomia e, ato contínuo, a perseguição da "dissidência" e a valorização da obediência. Desta forma, a fala feita " em nome do todo" já insinua a vertente maligna que acompanha a esquerda como uma sombra e é, em qualquer caso, uma pretensão descabida e alucinada. Ocorre que mesmo as ideologias e principalmente elas necessitam adquirir visibilidade. A direção pode, então, simbolizar o espírito que nos separa dos "outros". A imagem que se projeta coerentemente não pode ser, logo, a de uma alma aflita, múltipla e contraditória, mas a de um corpo homogêneo e seguro. Não raras vezes, esta projeção será realizada pela figura simbólica de alguns poucos quadros partidários. A estes personagens, que adquiriram expressão pública por conta do papel simbólico representado, se atribuem qualidades extraordinárias e, de qualquer modo, se "autoriza" o sucesso. Nenhuma contradição; afinal, o coletivismo só interdita a luz própria. O brilho "oficial", pelo contrário, não é apenas aceito, mas se constitui em uma necessidade para os destinos daqueles que irão corporificar o espírito em cujo culto busca-se a salvação. O "coletivo", então, ao qual se prestam todas as homenagens é, antes do cinismo, o mito providencial à diluição das diferenças realmente importantes entre os indivíduos que, uma vez valorizadas, lhes informariam possibilidades inéditas; vale dizer: imprevistas. Para o coletivismo, entretanto, como já vimos, a imprevisibilidade - através da qual nos reconhecemos como seres livres - é um "problema" a ser superado. O burocrata é um militante que aprendeu a calcular. Por isso, ele é necessariamente lento. A espontaneidade, afinal, é um defeito imperdoável e é preciso "amadurecer" cada posição sempre, como se o raciocínio fosse uma pêra e houvesse uma estação apropriada para colhê-la, O que garante a eficácia do agir burocrático, assim, lhe retarda a ação tornando-o incapaz de responder politicamente em situações de aguda turbulência ou rápida alteração conjuntural. Trotsky capta alguns dos traços psicológicos comumente associados a esta conduta quando descreve as características do jovem "Koba" (Stálin): "Desde o começo, o jovem Koba procurara dominar as pessoas que, em geral, lhes pareciam mais fracas do que ele. Contudo, não era mais inteligente, mais instruído ou mais eloqüente que os demais. Não possuía nenhum dos atributos que atraem simpatias. Mas era mais rico que os outros em tenacidade fria e bom senso prático. Não se dobrava a impulsos: ao contrário, sabia como submetê-los aos seus cálculos. Tal característica já se mostrara quando escolar. "Habitualmente, Iossif respondia às perguntas sem pressa", escreve Glurdjidze, "sempre que a sua resposta em todos os aspectos fosse bem formulada, replicaria logo; quando não, procrastinaria o seu parecer por um maior ou menor espaço de tempo." Posto de lado o exagero quanto à possibilidade de sua resposta ser "bem formulada em todos seus aspectos", estas palavras mencionam um traço vital do jovem Stálin que lhe deu enorme vantagem entre os jovens revolucionários, os quais em sua maioria eram impetuosos, precipitados e ingênuos." Mais que um militante que aprendeu a calcular, o burocrata é alguém que desenvolveu a habilidade de fazer com que todos os seus gestos e, principalmente, suas "opiniões" reverenciem interesses fixados para além dos temas em debate e se alterem de acordo com as condições consideradas mais propicias à realização daqueles. Como o assinalou Adorno referindo-se às pessoas que se dedicam à prática de perseguir interesses: "...as pessoas com as quais entra em contato transformam-se automaticamente em amigas ou inimigas. Na medida em que ele as examina quanto à maneira pela qual elas se enquadram nas suas intenções, ele as reduz de antemão a objetos: umas são utilizáveis, outras são um obstáculo. Toda opinião desviante aparece, no sistema de referência dos fins preestabelecidos e sem o qual prática alguma pode subsistir, como uma resistência incômoda, como sabotagem, intriga; toda aprovação, mesmo quando derivada do mais baixo dos interesses, torna-se um estímulo, algo utilizável, uma prova de aliança. É assim que se empobrece a relação com as outras pessoas: a capacidade de perceber o outro enquanto tal e não em função de nossa própria vontade, mas sobretudo a capacidade de uma oposição fecunda, a possibilidade de ir além de si mesmo através da assimilação compreensiva do que nos contradiz, tudo isto se atrofia." O processo de burocratização do partido é esta atrofia ensinada; é a intolerância política que virou escola; é a pedagogia do medo frente ao desconhecido; é a malediscência dos mudos que se põe a falar. Não de deve, entretanto, menosprezar a burocracia. Seu discurso exerce uma grande influência sobre a militância exatamente pela sua coerência e simplicidade. E nenhum de nós está a salvo de ceder aos seus "encantos". Em verdade, todos nós somos permanentemente tentados a evadir-nos da realidade, seja porque esta nos pareça insuportável, seja porque o caráter acidental, contingente, de nossas próprias conexões com o mundo nos coloca em uma situação de total insegurança. Houve um tempo em que a companhia de Deus já ofereceu um bálsamo protetor aos indivíduos fragmentados por um mundo que nos corta e reparte incessantemente. Hoje, talvez estejamos diante da multiplicação destes escudos imaginários e tão reais quanto pirâmides dotadas de excitantes poderes energéticos, ou talismãs, pedras e fórmulas gramaticais diante das quais todos os conflitos se dissipam. Em qualquer das alternativas, a promoção do ocultismo, das seitas e mesmo do fanatismo religioso estão a demonstrar a mesma incapacidade de conviver com a indeterminação, o mesmo mal-estar diante do indefinido. O ser humano - na fragilidade que o caracteriza - precisa de um sentido para a existência e se a filosofia não o oferece, a mitologia ou a ideologia estarão sempre a postos. Arendt (O Sistema Totalitário, 1978) situa perfeitamente o problema: "Entre enfrentar a crescente decadência, com sua anarquia e total arbitrariedade, e curvar-se ante a coerência mais rígida e fantasticamente fictícia de uma ideologia, as massas provavelmente escolherão este último caminho, dispostas a pagar por isso com sacrifícios individuais - não porque sejam estúpidas ou perversas, mas porque, no desastre geral, esta fuga lhes permite manter o mínimo de dignidade." Sabe-se que a força da propaganda totalitária reside na sua capacidade de isolar as pessoas do mundo real. Ao contrário do que se imagina, as condições concretas da existência no mundo atual fazem com que as pessoas acreditem, em geral, muito mais na sua imaginação do que nos seus olhos e ouvidos. Hannah Arendt o compreendeu brilhantemente assinalando que o quê as pessoas se recusam a aceitar é o caráter fortuito do qual a realidade é feita. Ora, se isto for verdadeiro, torna-se perfeitamente compreensível as razões que fazem com que quatro ou cinco fórmulas doutrinárias freqüentemente combinadas ofereçam uma metafísica aceitável e "coerente" com a qual já nos inserimos no mundo seguros de um sentido; ainda que isto seja, por exemplo, a idéia de que há "dois lados" na sociedade, que um deles é pobre e outro é rico, que meu partido representa os primeiros e combate os segundos que, no futuro, iremos construir uma outra sociedade e que esta é a vontade de Deus. Também internamente ao partido a força do discurso místico - e, portanto, do bloqueio resultante - é significativa e começa já pelo tom sacro emprestado ao próprio fenômeno PT; o que faz com que, muitas vezes, o partido apareça como aquela "máquina que era o veiculo da idéia antes de encontrar o seu fim em si mesma". Já é hora de perceber que estamos a construir uma instituição profana da qual deve-se falar em termos profanos. O PT não é uma catedral; é uma casa para seres humanos, feita de virtudes e vícios, exposta a chuvas e trovoadas e povoada por lutadores dos mais variados sonhos e pesadelos. Marcos Rolim - 1993 OPINIÃO |