ACOMPANHAMENTO DOS GASTOS SOCIAIS DO GOVERNO FHC

 


Deputado Federal MARCOS ROLIM

Maio de 2000.

 

            Dando continuidade ao acompanhamento sistemático da evolução do comportamento dos gastos sociais promovidos pelo governo Fernando Henrique Cardoso, através de alguns programas selecionados, apresentamos, na seqüência, alguns indicadores que julgamos importantes. Os dados disponíveis nos permitem analisar a evolução desses gastos orçamentários de 1995 a 1999, em valores corrigidos a preços de dezembro de 1999 e, às medida do possível, identificar algumas rubricas importantes na Lei Orçamentária para o corrente ano (Lei nº 9.969, de 11 de maio de 2000).

 

            Os programas apresentados não tem como propósito abarcar todos os programas, tido como sociais, no Orçamento Geral da União. Procurou-se identificar aqueles que dizem respeito à assistência social, programas selecionados no âmbito do Ministério da Justiça e no Ministério da Saúde, como a aquisição de medicamentos para o tratamento da AIDS.

 

            Os objetivos da assistência social, definidos pela Lei Orgânica da Assistência social, permanecem: (i)  proteção á família, à infância, à adolescência e à velhice; (ii) apoio às crianças e adolescentes carentes; (iii) promoção da integração ao mercado de trabalho; (iv) habilitação e reabilitação das pessoas portadoras de deficiência e a promoção de sua integração à vida comunitária; (v) a garantia de um salário mínimo de benefício mensal à pessoa portadora de deficiência e aos idosos com 70 anos ou mais que comprovem não possuir meios de prover a própria manutenção e nem de tê-la provida por sua família.   

 

            O número de pobres no pais, público alvo da assistência social, portanto dos gastos sociais, é de 63,6 milhões de pessoas (15 milhões de pobres, 24 milhões de despossuídos, e 25 milhões de miseráveis) segundo o Mapa da Exclusão (1998), calculado com base no Índice de Condições de Vida (ICV)/PNUD).

 

            Com a recente aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal, ficou mais do que patente a subordinação dos gastos orçamentários ao cumprimento das metas de ajuste fiscal acordados junto ao Fundo Monetário Internacional, o que condiciona a efetiva liberação de recursos públicos para a área social. A rigor, os gestores públicos estão amarrados, inclusive com sanções penais previstas em lei, às determinações do decantado ajuste fiscal.

 

            Feito isto, apresentamos alguns dados relativos à evolução dos gastos sociais promovidos pela União, tendo como fonte de consulta o Sistema Integrado de Acompanhamento e Administração Financeira (SIAFI) e da Secretaria do Tesouro Nacional (STN), elaborados pela consultoria de Orçamento da Câmara dos Deputados e do Prodasem, com valores corrigidos a preços de dezembro de 1999.

 

           

 

 

 

 

Quadro nº 1 - GASTOS NO ÂMBITO DO MINISTÉRIO DA JUSTIÇA

(Programas Selecionados)

 

Valores corrigidos a preços de Dez/99 - em R$ 1,00

PROGRAMA

Liquidado 95

Liquidado 96

Liquidado 97

Liquidado 98

Liquidado 99

Promoção e Defesa dos Direitos da Cidadania

 

-

 

-

 

2.658.397

 

4.401.807

 

1.533.043

Garantia dos Direitos Humanos e da Educação para a Cidadania

 

-

 

4.438.566

 

19.944

 

-

 

1.206.535

Defesa dos Direitos da Mulher

 

-

 

65.813

 

33.399

 

43.406

 

15.568

Apoio Financeiro às Casas de Abrigo para Mulheres em Situação de Violência

 

-

 

-

 

-

 

-

 

1.251.421

Instituto Latino-Americano para Prevenção de Delito e Tratamento de Delinqüentes - ILANUD

 

-

 

-

 

2.265

 

2.306

 

2.071

Promoção de Ações de Defesa dos Direitos e de Proteção à Criança e ao Adolescente

 

-

 

25.229.264

 

28.458.139

 

10.944.934

 

8.575.209

Ações de Reabilitação Integral do Portador de Deficiência

 

2.747.176

 

3.028.736

 

3.036.127

 

2.807.599

 

1.916.388

FUNDO PENITENCIÁRIO

Capacitação de Recursos Humanos

 

-

 

-

 

377.050

 

-

 

108.439

Apoio a Penas Alternativas

 

-

 

 

16.243

 

-

 

1.117.290

 

1.257.459

Profissionalização de Detentos

 

-

 

-

 

-

 

860.840

 

711.360

Fonte: SIAFI/STN - elaboração própria.

 

            Das informações contidas no quadro acima, pode-se inferir alguns aspectos relevantes, dentre os quais destacam-se:

 

            1. a queda contínua dos gastos com a Promoção e Defesa dos Direitos da Cidadania, passando de R$ 2.6 milhões, em 1997, para R$ 1.5 milhão, em 1999, representando uma queda real de 65 % em relação ao volume gasto em 1998;

 

            2. se em 1996 foram gastos R$ R$ 65 mil com a Defesa dos Direitos da Mulher, em 1999 foram gastos, tão somente, R$ 15 mil, representando uma queda real de 64 % relativamente aos gastos efetivados em 1998;

 

            3. a redução substancial nos gastos na Promoção de Ações de Defesa dos Direitos e de Proteção à Criança e ao Adolescente reflete  o total descaso do governo federal para com este segmento social. No ano de 1999 forma gastos apenas R$ 8.6 milhões para em âmbito nacional;

 

     4. apesar de ainda representarem volumes insignificantes, observou-se uma pequena elevação nos gastos, de 1998 para 1999, com as atividades de Apoio a Penas Alternativas e na Profissionalização de Detentos.

 

                O quadro abaixo indica os gastos com a função Assistência Social, onde selecionamos alguns programas, no âmbito das diversas Unidades Orçamentárias.

 

Quadro nº 2 - GASTOS COM ASSISTÊNCIA SOCIAL

(Programas Selecionados)

 

             Valores corrigidos a preços de Dez/99 - em R$ 1,00

PROGRAMA

Liquidado 95

Liquidado 96

Liquidado 97

Liquidado 98

Liquidado 99

MINISTÉRIO DA JUTIÇA

Promoção de ações de Defesa dos Direitos e de Proteção à Criança e ao Adolescente

 

-

 

25.229.264

 

28.458.139

 

10.944.934

 

8.575.209

Implantação e Apoio ao Funcionamento de conselhos de Direitos e de Conselhos Tutelares

 

-

 

1.392.630

 

2.395.769

 

478.623

 

57.365

Ações de Reabilitação Integral do Portador de Deficiência

 

2.747.176

 

3.028.736

 

3.036.127

 

2.807.599

 

1.916.388

FUNDAÇÃO NACIONAL DO ÍNDIO

Proteção e Defesa dos Direitos Indígenas

 

377.104

 

 

182.676

 

76.291

 

138.837

 

57.036

FUNDO NACIONAL DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE

Apoio ao Atendimento de Adolescentes Infratores

 

-

 

-

 

-

 

-

 

3.746.957

FUNDO NACIONAL DE ASSISTÊNCIA SOCIAL

Atendimento à Criança Carente em Creche

 

299.032.963

 

258.607.670

 

38.034.089

 

2.373.007

 

28.631.564

Apoio ao combate ao Trabalho Infanto-Juvenil

 

-

 

-

 

19.176.169

 

47.860.478

 

89.724.788

Assistência Integral à Criança e ao Adolescente

 

-

 

 

30.876.931

 

16.026.078

 

13.292.970

 

24.031.140

Apoio à Pessoa Idosa

 

-

 

-

 

3.023.470

 

1.659.073

 

2.979.787

Apoio à Pessoa Portadora de Deficiência

 

83.472.360

 

 

74.332.921

 

6.842.449

 

1.326.525

 

6.988.560

Participação da União em Programas de Garantia de Renda Mínima

 

-

 

-

 

-

 

-

 

42.444.653

Apoio às Ações Sociais e Comunitárias no Enfrentamento da Pobreza

 

-

 

 

-

 

-

 

38.963.934

 

16.261.533

FUNDO NACIONAL DE SAÚDE

Aquisição e Distribuição de Medicamentos para Controle de doenças Sex. Transm. - DST/AIDS

 

-

 

 

-

 

78.868.663

 

264.340.774

 

527.969.167

Fonte: SIAFI/STN - elaboração própria.

 

                A queda substancial dos valores gastos com a Promoção de Ações de Defesa dos Direitos e de Proteção à Criança e ao Adolescente, passando de R$ 25.5 milhões, em 1996, para R$ 8.5 milhões, em 1999, só nos permitem concluir que esta ação governamental não se insere no rol das prioridades dos gastos orçamentários do governo federal.

 

            A Proteção e Defesa dos Direitos Indígenas que, em 1995, obteve recursos da ordem de R$ 377 mil, passou, em 1999, para R$ 57 mil, notadamente num momento em que os direitos desses povos encontram-se ameaçados, em todos os níveis, colocando-os  à margem das políticas públicas do país.

 

            Assusta redução dos valores gastos, no período considerado, com o Atendimento à Criança Carente em Creche, passando de R$ 300 mil, em 1995, para R$ 29 mil, em 1999. Fato semelhante é constatado nos gastos com o Apoio à Pessoa Portadora de Deficiência (de R$ 84 milhões, em 1995, para R$ 7 milhões, em 1999).

 

            Já no Apoio ao Combate ao Trabalho Infanto-Juvenil, verifica-se um aumento real dos gastos governamentais, passando de R$ 19 milhões, em 1997, para R$ 89 milhões, em 1999. No caso da Aquisição e Distribuição de Medicamentos para controle de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST/AIDS), ocorreu um acréscimo da ordem de 100 %, de 1998 para 1999, nos gastos com esse Programa.

 

            No geral, há que se constatar, através desta pequena amostra, que os gastos sociais promovidos, com recursos oriundos do Orçamento Geral da União, ainda estão muito distantes das reais necessidades do  povo brasileiro e, pior, estão subordinados e condicionados às exigências do ajuste fiscal promovido pela equipe econômica do governo federal.

 

            A participação e fiscalização da sociedade brasileira na elaboração e execução das metas orçamentárias é uma exigência cada vez mais premente para, de vez , buscar a inversão das prioridades estabelecidas no gasto do dinheiro público. 

 

       

Gabinete do Deputado Marcos Rolim  (PT/RS)

Maio de 2000