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APRESENTAÇÃO

O presente trabalho deverá suscitar algum interesse entre aqueles que encontram-se insatisfeitos com a forma pela qual a esquerda no Brasil vem sustentando doutrinariamente suas pretensões transformadoras. Em suas limitações, o texto aqui disponível procura demonstrar porque razões a utopia socialista/comunista não deveria mais atravessar impunemente o discurso dos partidos e movimentos de esquerda e porque tal questão não pode ser compreendida como um "preciosismo conceitual" ou qualquer esforço diletante.

Para aqueles que estão habituados aos trabalhos críticos já realizados por inúmeros autores em todo o mundo no exame da tradição marxista, as presentes teses não devem evocar qualquer espanto. Afinal, firmou-se desde há muitas décadas -particularmente na Europa - um questionamento tão forte ao dogmatismo que parece mesmo inacreditável que a esquerda brasileira incorpore ainda idéias e conceitos cuja realidade mesma é sua expressão fantasmagórica no resto do mundo.

Os militantes de esquerda que, entretanto, sentem ou intuem o que há de equívoco e insustentável naquela tradição ideológica perceberão de imediato que o próprio esforço em discuti-la haverá de enfrentar dificuldades muito significativas. A todos quantos recusem o exame das questões que propomos, tomando-as, possivelmente, como inoportunas ou despropositadas, quero, apenas, registrar que lhes reconheço todos os direitos, inclusive o de desconsiderar meus argumentos. O que não deveria desobrigá-los a expor, de forma coerente e clara, o que entendem por "Socialismo" e se, de alguma forma, sustentam ainda os traços fundamentais da própria doutrina tal como ela nos foi legada pela tradição marxista. Acredito que este desafio não foi ainda aceito pelos riscos que lhe são inerentes. Talvez, para a esquerda brasileira, a realidade tenha se tornado tão espessa pela ideologia que a possibilidade de devassá-la possa equivaler mesmo à temeridade.

Na "Dialética do Esclarecimento", Adorno e Horkheimer chamaram a atenção para o fato de que, contemporaneamente, os indivíduos (ou o que restou deles) recebem seus sentidos de uma forma tão pronta e acabada como aqueles consumidores que recebem seu automóvel nas concessionárias. Desde Hamlet, pelo menos, nossas incertezas são expressões de pensamento e humanidade. Mas as ideologias obliteram as dúvidas e nos oferecem garantias eternas. Tanto pior. Estes sistemas obscuros que atribuem um sentido arbitrário ao mundo exterior introduzem na dimensão política uma expressão de heteronomia tal que é a própria idéia de "realidade" que se confunde com a de "revelação". O mecanismo é similar àquele que demarca o campo paranóico e costuma provocar uma determinada dose de agressividade por parte de seus defensores. Também por conta disto, procurei desenvolver as presentes teses em um tom nunca provocativo. O que elas sustentam polemicamente é apenas o que seria inevitável na expressão do seu próprio conteúdo.

Para evitar mal entendidos - além daqueles que imagino sejam mesmo inevitáveis - devo assinalar que não atribuo ao imaginário socialista e à carga dogmática que ele carrega a responsabilidade maior pelas limitações hoje bastante evidentes na experiência política da esquerda brasileira, notadamente aquela representada pelo PT. Para entender estas limitações seria preciso, antes de tudo, discutir o próprio processo de construção partidária em sua relação com a ausência de uma forte tradição democrática no Brasil, com a influência da máquina estatal na política brasileira, com o peso do populismo em nossa herança política, com a própria conduta autoritária e manipulatória da direita, etc. A herança ideológica do "paradigma socialista" é, tão somente, uma das questões relevantes que estão a merecer uma discussão séria entre nós. Em algum momento desta fascinante experiência representada pelo processo de construção do PT, os temas que proponho ao debate serão tratados. Possivelmente, as próprias características de um "partido de massas" - que lhe asseguram uma salutar heterogeneidade - não permitam fixar qualquer posição teórica definida sobre os temas que abordo nas Teses. O PT, evidentemente, deve buscar sua unidade em uma plataforma política que tenha um sentido transformador e não em uma filosofia. De qualquer modo, será sempre importante alimentar o senso crítico diante das nossas próprias tradições e seria surpreendente que imaginássemos ser possível transformar o mundo sem operar transformações em nós mesmos.

As Teses operam um "recorte" nesta complexa gama de questões selecionando um tema. O trabalho é uma tentativa de sistematizar e expor de forma concisa o conteúdo de algumas posições de fundo que tenho sustentado ao longo dos últimos anos, dentro do PT e publicamente. Elas estão, por certo, muito influenciadas pela minha militância em favor dos Direitos Humanos e pelas extraordinárias possibilidades que, acredito, sejam oferecidas por esta luta no enfrentamento à exclusão social, às injustiças e à violência que caracterizam a maior parte das sociedades contemporâneas. A hipótese de uma alternativa humanista que procuro esboçar na parte final das Teses revela minha compreensão sobre a necessidade de se buscar uma fonte subversiva e coerente para a legitimação da política, o que, sustento, só pode ser encontrado em uma perspectiva moral. Não vai aqui qualquer ingenuidade, nem a pretensão de equivaler política e moral. Estou consciente de que, algumas vezes, a própria reconciliação entre as duas torna-se impossível. Vale a pena insistir, todavia, na necessidade desta reconciliação. Ela não nos trará qualquer garantia sobre o êxito na política, mas, seguramente, nos afastará dos erros que nos fizeram cúmplices do mal estar desta época.

Marcos Rolim

Porto Alegre, Julho de 1999

O espectro do Socialismo

OPINIÃO

 

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