O espectro do Socialismo 1) Um espectro ronda a esquerda no Brasil - o espectro do socialismo. Do PT ao PDT, passando pelo PSB, o PPS, o PCB, o PSTU e o PCdoB; os mais importantes partidos e correntes da esquerda brasileira professam, a seu modo, convicções "socialistas". Já era tempo de os socialistas exporem abertamente suas idéias, seus fins e suas tendências de forma a permitir o debate público em torno do conceito com o qual definem sua própria perspectiva. O que assistimos, não obstante, é um silêncio obsequioso em torno dos marcos teóricos que amparam esta adesão ao "Socialismo" acompanhado, via de regra, pela repetição infinita de clichês ideológicos tão estridentes quanto carentes de conteúdo. 2) A expressão "Socialismo" traduz, para a esquerda brasileira, um referente utópico com o qual procura-se evidenciar a perspectiva de negação do capitalismo, entendido como um modo de produção histórico indesejável. Com o uso do termo, pretende-se anunciar um projeto alternativo à realidade de exclusão social, concentração de riquezas e monopolização do poder político que caracteriza a experiência capitalista tal como a conhecemos. A vigência do conceito e seu emprego descriterioso em nossa cultura política, desta forma, dá-se, muito mais por aquilo que se pretende negar do que por aquilo que se afirma efetivamente. O socialismo para a esquerda brasileira é, então, o equivalente de uma esperança generosa e indeterminada. Verdadeiramente, um sentimento vivido como realidade, com o qual encobre-se a ausência de um projeto real com algum sentido. 3) Os conceitos expressam, no âmbito da linguagem, sínteses operantes. Um conceito adquire concretude quando suas determinações são conhecidas. Vale dizer: os conceitos afirmam-se por relações inter-subjetivas. Quanto mais rico em determinações, mais denso o conceito. Os conceitos existem na história e pela história. Nunca antes dela ou além dela. Suas determinações, então, são também históricas. Trata-se de uma idéia metafísica imaginar que qualquer conceito possa expressar determinações que se afirmem independentemente da realidade histórica. Os conceitos são impregnados por determinações novas ou renovadoras - que, frequentemente, os redefinem - pela ação dos sujeitos. Assim, por exemplo, os significados concretos da expressão "Nazismo" são, atualmente, bem distintos daqueles comumente aceitos nos primórdios da experiência do nacional-socialismo na Alemanha. Pode-se perceber isto facilmente quando se reconstituem as posições de tantos quantos aderiram a Hitler ou simpatizaram com ele em um primeiro momento para, logo depois, se horrorizarem diante do totalitarismo. Pois bem, quando empregamos um conceito, o fazemos com base nos significados construídos historicamente em torno dele. É possível, diante de certos conceitos, empreender a tentativa de sua atualização oferecendo-lhe novas determinações. Em filosofia, especialmente, procedimentos do tipo são bastante comuns. Determinado autor recolhe em sua reflexão um conceito empregado, até então, de uma maneira determinada e o insere dentro de uma nova hierarquia teórica, discriminando as razões pelas quais lhe oferece significados distintos. A depender da coerência alcançada e das vantagens heurísticas, é comum que a empreitada alcance êxito. Quando lidamos com os conceitos no âmbito da práxis política, entretanto, empreendimentos análogos são, pelo menos, bem mais complexos. 4) No âmbito da práxis política, lidamos com conceitos cuja "realidade" se confunde com símbolos. Particularmente ao final deste século, diante de sociedades largamente formatadas pelos meios de comunicação social, a efetividade de um conceito empregado pelo discurso político associa-se aos símbolos que ele evoca na consciência de milhões de pessoas. Frequentemente, esta realidade simbólica aglutina uma carga imensa de preconceitos. Assim, por exemplo, quando a palavra "louco" é empregada, associa-se a ela, invariavelmente, noções como "incapacidade civil" e "periculosidade" embora, concretamente, os "loucos" não sejam incapazes nem perigosos em sua grande maioria. Nestes casos, o emprego da palavra "louco" em um contexto de afirmação dos direitos daqueles que padecem de sofrimento psíquico oferece um contraste forte o suficiente para "demarcar campo" com os símbolos que evocam discriminação e intolerância. A tentativa de atribuir à expressão um conjunto de novas determinações e, por extensão, de constituir em torno dela novos símbolos, é, por isso, não apenas legítima, mas necessária politicamente como um instrumento da própria luta civilizatória. Com a expressão "Socialismo", não obstante, as tentativas de re-significação encontrarão obstáculos de outra natureza que devem ser, antes de tudo, ponderados.
5) Sob a definição do "Socialismo" abrigaram-se, historicamente, múltiplas correntes políticas e teóricas, desde os utopistas do século XVIII até os social-democratas da II Internacional, os PCs vinculados ao Comintern e todas as suas correntes dissidentes. Seja como for, a expressão "Socialismo" encontra-se indescartavelmente associada a dois fenômenos situados em planos distintos: de um lado, à experiência de todas as nações que constituíram o chamado "Socialismo Real" ; de outro, à tradição política e teórica que inspirou os movimentos ditos "revolucionários" no século XX e com a qual, majoritariamente, se buscou a legitimação daquela experiência: o marxismo. Ao empregarmos este conceito, então, devemos necessariamente definir nossa posição diante de uma das mais amplas e significativas tradições do pensamento desta época - o marxismo - e diante do mais importante e extraordinário fenômeno político deste século: o totalitarismo. Qualquer emprego do conceito "Socialismo" em nosso tempo que não se situe diante de, pelo menos, estes dois temas será um emprego arbitrário ou manipulatório. OPINIÃO |