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O "Socialismo Real"

6) Todas as nações que procuraram construir o "Socialismo" -desde aquelas onde movimentos revolucionários assumiram o poder político até as que se viram engolfadas pela introdução do novo regime graças à repartição do mundo em áreas de influência no pós-guerra - realizaram, concretamente, um mesmo modelo político, econômico e social de natureza totalitária. Em que pese as extraordinárias diferenças históricas de cada uma das nações denominadas "socialistas", em todas elas foi erigido um modelo de dominação e terror onde uma nova elite estatal assumiu, em nome do "proletariado" ou do "povo", o poder político em toda a sua extensão. Pelo Socialismo e em seu nome a humanidade foi apresentada ao modelo do Partido único, da fusão do Partido com o Estado, dos sindicatos atrelados, dos privilégios a uma casta de burocratas e arrivistas, da censura sistemática, da farsa dos processos judiciais e dos expurgos, da tortura e da infâmia, dos assassinatos em massa, dos Gulags e dos "paredóns". Pelo Socialismo e em seu nome, a humanidade conheceu a invenção do conceito de "inimigo objetivo" pelo qual muitos dos próprios integrantes da elite dirigente dos Estados totalitários foram conduzidos à execração pública e à morte por seus "companheiros". Foi em nome do Socialismo que os intelectuais chineses, professores, técnicos de nível médio e membros da "pequena burguesia" foram transferidos compulsoriamente para os centros rurais de "reeducação" pelo trabalho manual, que livros, discos e outros símbolos da "cultura burguesa" (sic) foram queimados em praça pública no auge da "revolução cultural" de Mao Tsé Tung; graças ao mesmo espírito "revolucionário", tanques com estrelas vermelhas passaram por sobre os estudantes da Praça Tianamem. Foi em nome do Socialismo que Pol Pot transformou o Cambodja em uma cova rasa para milhões de opositores e que na Coréia instituiu-se a primeira dinastia comunista da história. Pelo Socialismo e em seu nome Stálin construiu uma máquina de extermínio e organizou campos de concentração para os dissidentes, por qualquer critério relevante comparáveis aos campos nazistas, com a diferença de que se prolongaram muito mais no tempo. Estas e muitas outras características da política concebida como crueldade estiveram lado a lado nas experiências dirigidas por centenas de mediocridades como o general Yaruselsky na Polônia, Eric Honecker na ex- Alemanha Oriental, Ceausescu na Romênia ou Slobodan Milosovic na Iuguslávia. Estes senhores todos "ergueram bem alto a bandeira do Socialismo" neste século fixando-a sobre um monte de cadáveres.

7) A experiência do "Socialismo Real" e do Nacional-Socialismo constituíram as formas mais radicais de negação da liberdade já experimentadas pela civilização. Assinalaram, efetivamente, um processo de "medievalização" do cenário político mundial travestido pelo poder mistificador da mais eficiente das construções ideológicas da modernidade. O totalitarismo, entretanto, em quaisquer de suas versões, não caracteriza um retorno às formas conhecidas de opressão política, mesmo àquelas vividas no medievo. Ele introduz uma novidade radical: a idéia do controle total sobre os indivíduos e, por decorrência, sobre a história. Esta pretensão tornou-se possível, para além das situações concretas que a viabilizaram historicamente, por conta da idéia que anima os próprios movimentos totalitários, a saber: a idéia de que eles são os portadores de um saber determinado, aclamado como "científico", que lhes assegura o conhecimento do "sentido da história".

8) A experiência totalitária é inseparável da noção de "verdade" e revela tudo o que há de temível nas concepções políticas que partem do pressuposto de serem, de alguma forma, portadoras "da verdade". As ideologias totalitárias analisam não aquilo que é, mas "o que vem a ser". Elas se direcionam para a História, sempre. Mesmo o projeto da "raça superior", que parece ser tributário da idéia de "natureza", apenas reduz as questões históricas aos elementos naturais procurando, assim, oferecer explicação plausível à História. A ideologia totalitária oferece um modelo seguro e coerente que unifica passado, presente e futuro em uma lógica. Para mantê-la, é preciso desconsiderar toda e qualquer informação que desarrume seus encadeamentos internos, pelo que as ideologias devem se emancipar da realidade mesma, insistindo na existência de uma realidade "mais verdadeira" que estaria se escondendo por trás de todas as coisas perceptíveis. O que precisaríamos para perceber esta realidade "mais verdadeira", é claro, nos é oferecido pela própria ideologia. Costuma-se chamar isto de "dialética".

9) Pela condição de seres constitutivamente livres, os seres humanos começam novas sequências de fatos causais. Sua liberdade reside, precisamente, nesta capacidade criativa. Pela ação, os humanos são históricos porque começam coisas. Este "começo" é incompatível com a lógica oferecida pelas ideologias totalitárias onde tudo "provém" , mas nada pode substancialmente "advir". Não por outra razão, para as ideologias totalitárias não existe acaso. "Contra o começo, nenhuma lógica, nenhuma dedução convincente pode ter qualquer poder porque o processo de dedução pressupõe o começo como uma premissa. Tal como o terror é necessário para que o nascimento de cada novo ser humano não dê origem a um novo começo que imponha ao mundo sua voz, também a força coercitiva da lógica é mobilizada para que jamais alguém comece a pensar - e o pensamento, como a mais livre e pura das atividades humanas, é exatamente o oposto do processo compulsório da dedução". (1) Por esta razão, o modelo do militante ideal dos movimentos totalitários, não é aquele que se destaca por suas convicções ideológicas ou políticas, mas aquele para quem já não resta qualquer diferença entre fato e ficção. É como se estes movimentos afirmassem: - "Querem ver nossos bons militantes? Selecionaremos aqueles que acreditam".

O marxismo

OPINIÃO

 

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