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Afinal, por que "Socialismo"?

21 - Um partido político moderno que expresse, para o século XXI, um ideal libertário, que esteja profundamente comprometido com as lutas sociais por justiça e igualdade, que compartilhe aspirações democráticas e solidárias, que se anteponha às características excludentes e violentas das modernas sociedades capitalistas, deve sintetizar suas pretensões em um projeto de re-organização social radical. Este projeto, para os necessários efeitos políticos de demarcação pública, deve ser nomeado. A pergunta que se faz é: por que razão a expressão "Socialismo" seria a mais adequada para esta nomeação? Por que motivos, para além das convicções dogmáticas, de cálculos oportunistas ou da persistente ausência de reflexão, deveríamos manter a denominação que caracterizou, de um lado, uma doutrina sabidamente equívoca e, de outro, as perspectivas totalitárias deste século quase passado? Há, frequentemente, duas linhas de argumentação - normalmente superpostas, que procuram oferecer uma justificativa a esta renitência. Primeiro, aquela que nos apresenta a tese de que "o verdadeiro Socialismo" jamais foi realizado concretamente pelo que, as tarefas de sua construção permaneceriam atuais. A segunda, aquela que nos apresenta a tese de que o marxismo - em que pese "eventuais incorreções" ou "proposições teóricas ultrapassadas" permaneceria substancialmente atual como "método".

22 - A tese do "verdadeiro Socialismo" , como toda a proposição metafísica, separa conceito e história. Em sua versão dogmática, imagina a realidade do conceito como que inscrita em uma "interpretação verdadeira", naturalmente aquela que ela própria oferece. Pelo mesmo "método", um ideólogo conservador poderia sustentar que o "verdadeiro capitalismo" - um sistema de concorrência perfeita, sem qualquer tipo de intervenção do Estado sobre a economia, por exemplo - jamais foi "levado à prática". Tudo o que conhecemos ao longo da história do capitalismo, então, nada de comum possuiria com o "Capitalismo" assim definido. Um desdobramento da tese do "verdadeiro Socialismo" nos é oferecido por aqueles marxistas que, conscientes da farsa e das tragédias do Socialismo Realmente Existente, propõe a "Renovação do Ideal Socialista." Estes autores nos falam em "pluralismo político", "democracia", "economia de mercado" -ainda que socialmente regrada , "liberdades individuais", "Estado de Direito", "competitividade", "integração não subordinada à economia internacional", "promoção da diferença e respeito às minorias", etc. Em síntese, nos falam de tudo aquilo que não guarda qualquer relação de pertencimento à tradição socialista e, ao final, sem qualquer explicação, propõem que isto tudo seja chamado de "Socialismo".

23 - Não há qualquer "método" que seja independente do seu objeto. Um método é um conjunto operante de categorias cuja realidade mesma prende-se aos fenômenos que objetiva descrever e compreender. O método psicanalítico, por exemplo, só se mantém na medida em que se reconhece a existência da psiquê e de suas estruturas fundamentais como foram propostas pela reflexão freudiana. Se não aceitamos a existência de estruturas como o "ID" ou o "EGO" , não há como se falar em método psicanalítico. Ora, como é possível sustentar a permanência do marxismo "como método" se todo o conjunto operante de categorias que o estruturaram, a saber: "teoria do valor", "revolução" , "encadeamento histórico necessário dos modos de produção" , "determinação do fator econômico", "luta de classes", "proletarização da sociedade", "ditadura do proletariado" , "primado da violência" , "Estado como dominação de classe", "abundância" , "classe operária como sujeito revolucionário", etc. etc. são, atualmente, categorias equívocas ou inúteis?

24 - Nomear um projeto radical de transformação das sociedades capitalistas como "Socialismo" é, entretanto, não apenas uma impropriedade teórica. Trata-se de um erro político de dimensões históricas. Por ele, permitimos que nossa imagem pública como partido de esquerda seja associada à uma tradição que é, queiramos ou não, uma tradição militante anti-humanista. Os defensores da tese da "renovação do ideal socialista" assumem, então, uma nova tarefa que acrescenta mais dificuldades aos nossos desafios políticos: precisam sensibilizar a sociedade para a idéia da transformação social e, também, demonstrar a todos que os valores que sustentam nada possuem em comum com aquilo que a imensa maioria das pessoas no mundo identifica como "Socialismo". Em síntese: precisam obter a adesão das pessoas a uma idéia e, ao mesmo tempo, mudar a idéia que as pessoas fazem desta idéia. "Práticos", não?

O PT e o Socialismo:

OPINIÃO

 

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