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O Capitalismo Real:

29 - As sociedades capitalistas, tais como nos foram legadas, reproduzem naturalmente a desigualdade social concentrando renda e poder. Como decorrência, o capitalismo foi extremamente funcional à repartição das sociedades de diversas formas: primeiramente, possibilitando uma divisão entre aqueles que estão incluídos no "mundo do direito" e aqueles que estão à margem da própria idéia de "direito". O mundo dos "incluídos" já é, em si mesmo, absolutamente desigual pois aí estão ricos e pobres que, não obstante, guardam em comum o fato de serem reconhecidos em sua condição de pertencimento à sociedade. O mundo dos "excluídos" - onde estão os miseráveis e os marginalizados - estende a todos os seus membros o estranhamento de sua própria condição humana. O capitalismo possibilitou a repartição das sociedades contemporâneas entre aqueles que vivem ou sobrevivem por conta do seu trabalho e aqueles que vivem pela expropriação do trabalho alheio, que herdam fortunas, que vivem de rendas ou da especulação. A dinâmica econômica do capitalismo estimulou o surgimento de uma indústria bélica e promoveu a formação de impérios que submetem o mundo a um equilíbrio catastrófico. Os destinos de milhões de seres humanos, como de resto do próprio meio ambiente, são frequentemente ignorados na voracidade do capital pela conquista de novos mercados e pelo aproveitamento de quaisquer oportunidades lucrativas, pelo que as sociedades foram novamente divididas entre aquelas ameaçadas pela destruição e aquelas que se resguardam desta possibilidade trágica pelo poderio militar colocado a sua disposição. O capitalismo permitiu a universalização da lógica mercantil para todas as esferas da sociabilidade atribuindo a tudo um preço determinado e, por decorrência, um valor de troca. A comunicação entre os seres humanos passou a ser um grande negócio, a produção artística, a educação e a saúde, idem. Mesmo a sexualidade, as infinitas possibilidades de prazer, de divertimento ou de encontro entre as pessoas foram quantificadas e industrializadas. Introduziram-se, então, várias outras divisões nas modernas sociedades entre aqueles que dispõe dos recursos necessários à informação e aqueles que devem permanecer à margem da notícia e, portanto, da experiência de compartilhar simbolicamente o mundo; entre aqueles que terão acesso à herança cultural da humanidade e aqueles que permanecerão no obscurantismo; entre aqueles que podem ser salvos e cuidados e aqueles que devem agonizar e morrer antes; entre aqueles que possuem o direito ao regozijo e à plenitude da recomposição estética e aqueles que serão embrutecidos pelo cotidiano.

30 - O capitalismo permitiu que os seres humanos relegassem milhões de outros seres humanos à condição de "objetos descartáveis", formas de vida sem nome e sem presente. Possibilitou a emergência de um processo de homogeneização e a transformação dos seres humanos em quase objetos construídos para o trabalho e o consumo. Facilitou a padronização de suas sensibilidades, promoveu o egoísmo e a vacuidade, uniformizou seus preconceitos, sedou-os, transformou-os em "massa" a ponto de suspender muitos dos atributos singulares que demarcam os indivíduos, como seres únicos e autônomos. As modernas sociedades capitalistas promoveram, em uma escala jamais imaginada, a Razão em sua dimensão instrumental. O próprio processo de "esclarecimento" - como um movimento histórico de emancipação da experiência humana diante das limitações da natureza e, por decorrência de seu domínio - transforma-se em seu oposto assegurando uma condição regressiva de domínio sobre os indivíduos comuns por um sistema que se lhes impõe como uma lei da natureza. A impotência absoluta dos indivíduos, diante das condições globais que constituem o seu entorno, parece ser um dos resultado mais dramáticos deste fim de século.

31- Ao mesmo tempo, não é mais possível que se compreenda as modernas sociedades reduzindo-as a um "sistema" ou a uma das suas instâncias de representação. Em realidade, a civilização que recebemos como herança opera concretamente a partir de vários sistemas que se condicionam reciprocamente a partir de "linguagens" autônomas. A economia é um sistema; a política, o direito, a religião, os meios de comunicação social, a polícia, os sindicatos, etc. são outros "sistemas" que operam com relativa independência. O Capitalismo - que não é um "sujeito", mas um sistema produtivo - permitiu um desenvolvimento extraordinário das forças produtivas e estimulou uma revolução científica e tecnológica sem precedentes em toda a história. As possibilidades inéditas oferecidas pela informática, pela cibernética e pela robótica - que alteram radicalmente o próprio mundo do trabalho, os avanços impressionante da biotecnologia e das ciências médicas, as alternativas de comunicação instantânea, etc. podem ser redirecionadas para que alcancemos conquistas sociais até então inimagináveis. Estes resultados oferecem à humanidade, concretamente, a possibilidade de lutar por uma distribuição justa dos recursos e dos saberes acumulados que têm sido, via de regra, concentrados pelos grandes monopólios privados e apropriados por verdadeiros impérios econômicos. É preciso reconhecer, da mesma forma, que mesmo esta dinâmica de concentração e absurda desigualdade social em todo o mundo, não foi capaz de negar determinadas regras e valores imprescindíveis aos objetivos de extensão e afirmação da democracia. A luta pela construção de mecanismos internacionais que se superponham aos Estados nacionais e aos objetivos particulares das grandes corporações transnacionais - incluindo-se, aí, a idéia de um direito internacional efetivo dos Direitos Humanos, Cortes Internacionais, etc. - que auxiliem nas demandas dos povos do mundo por justiça, que se anteponham aos mecanismos perversos da especulação financeira patrocinado pelos mega-investidores e à drenagem líquida de recursos dos países em desenvolvimento pela dinâmica do endividamento externo, abrem o caminho para a possibilidade futura de um "Governo Democrático Mundial."

32- Um projeto contemporâneo de esquerda deve, então, definir-se como "anti-capitalista" no sentido de uma oposição radical às características excludentes que o caracterizam. Não se trata de oferecer à realidade da opressão e da desigualdade uma alternativa mitológica cuja referência teórica mesma exclui a possibilidade de uma intervenção efetiva capaz de alterar as características mencionadas. O paradigma do "Socialismo" e o mito da "Revolução" entendida como "ruptura" com a ordem cumprem este papel nefasto adicional de estabelecer - a partir de sua referência total - um critério tão doutrinário quanto perverso para a deslegitimação política de uma ação centrada em reformas. O que se perde de vista é a possibilidade de se garantir rupturas verdadeiras diante da ordem - naquilo que ela guarda de excludente e injusto - que alterem a vida de milhões de pessoas. Por esta dinâmica percebe-se o quanto a doutrina tradicional da esquerda implica uma prática conservadora. Sua "radicalidade", apenas retórica, é uma forma alienada de atribuição de sentido à própria impotência política. Concretamente, se definirmos o Sistema Capitalista como aquele estruturado pela propriedade privada dos meios de produção e pela existência do mercado, o problema da sua superação histórica não está posto como uma questão política desta época. A possibilidade de assegurar mudanças que diminuam as desigualdades sociais, que reponham a justiça, que eliminem a fome, a ignorância, o preconceito e a violência, entretanto, estão postas como questões políticas de nossa época. É preciso entender isto para que não passemos o resto de nossas vidas imaginando aquilo que nunca faremos e fazendo aquilo que nunca imaginamos. As perspectivas "salvacionistas" que anunciam "o melhor dos mundos" devem, então, naquilo que guardam de religiosidade, ser transformadas em uma perspectiva concreta de luta "por um mundo melhor".

A alternativa humanista

OPINIÃO

 

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