Laboratório de Vírus Respiratório e do Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz

A ciência como uma vela no escuro

Carl Sagan (1934-1996) foi um cientista americano, professor da Universidade de Harvard e de Cornell, um dos mais brilhantes de nossa época, autor de mais de 600 artigos científicos. Suas descobertas sobre a atmosfera de Vênus permitiram que Sagan fosse um dos primeiros cientistas a realizar um estudo planetário sobre o efeito estufa. Foi físico, biólogo e astrônomo, tendo desempenhado um papel destacado no programa espacial norte-americano como assessor da NASA. Sagan acabou se tornando muito conhecido por seu papel de divulgador de conhecimentos sobre astronomia, conduzindo a célebre séria “Cosmos” para a TV e escrevendo muitos livros de ciência e de ficção científica.

Entre seus livros, há um que sempre me pareceu maravilhoso que aborda com didatismo e humor o método científico. Chama-se “Um Mundo Assombrado por Demônios: a ciência vista como uma vela no escuro” (Cia das Letras, 442 p.). Nele, há uma passagem onde o autor sustenta que cientistas não acreditam ou desacreditam. Assim, se alguém diz: “- há um dragão na garagem”, a resposta do cientista não será: “-dragões não existem”. O cientista dirá: -“mostre-me o dragão”. Aí ele é conduzido até a garagem e não há dragões por lá, mas quem afirmou que havia diz: -“Ocorre que o dragão é invisível”. O cientista, então, vai espalhar farinha no chão para ver se o dragão deixa pegadas. Não há pegadas. Bem, aí quem afirmou irá dizer: “É que meu dragão levita”, e assim sucessivamente.

A atual pandemia que assola o mundo tem evidenciado da forma mais dramática possível a importância da ciência. O mundo inteiro se volta para ela, buscando as respostas que podem salvar vidas. Ensaios clínicos sobre drogas capazes de tratar pacientes da Covid-19 estão em curso em todo o mundo. Pesquisas epidemiológicas com testagens de amostras da população começam a ser feitas – uma das primeiras, aliás, no RS, coordenada pela UFPel, com apoio de várias outras universidades. De uma hora para a outra, a expectativa por uma vacina passa a integrar a esperança do mundo. A propósito, alguém tem ouvido falar dos movimentos que combatem o uso de vacinas? Alguém está agora disposto a seguir as instruções dos charlatões que especulam com milagres ou com castigos divinos?

O ministro da Saúde de Israel, Yaakov Litzman, um dos líderes da aliança ultraconservadora “Judaísmo Unido da Torá”, afirmou que o coronavírus era “um castigo divino contra a homossexualidade”. Há alguns dias, como se sabe, ele testou positivo para Covid-19. O que se evidencia é que, em situações como a que estamos vivendo, a religião pode oferecer conforto aos que sofrem, especialmente aos que perderam familiares e/ou amigos, mas não pode oferecer soluções. Para as religiões, aliás, uma pandemia com centenas de milhares de mortos, colhidos aleatoriamente, é parte de um mistério insondável. Para livra-se dele, seria preciso supor um Deus ausente, já que a ideia de um Deus mau não seria suportável. O fato é que a pergunta “onde está Deus?” se renova aos que crêem, como em todas as tragédias, em todos os massacres, e tem o tamanho da escuridão.

A pandemia está permitindo, também, perceber a diferença entre médicos e cientistas. Alguém com formação e experiência na área da saúde pode ser um ótimo profissional em sua especialidade, o que não significa dominar o método científico, ter noções de estatística ou saber realizar pesquisas científicas. Aliás, a grande maioria dos profissionais de saúde não é formada por pesquisadores.

Recentemente, um grupo de 30 profissionais de diferentes áreas, incluindo algumas das ciências exatas, todos integrantes de um movimento chamado “Docentes pela Liberdade”, divulgou no site “República De Curitiba: Mídia Digital de Direita”, um manifesto em defesa do uso imediato da hidroxicloroquina no tratamento de pacientes da Covid-19. O idealizador desse documento, o químico Marcos Nogueira Eberlin, é presidente da Sociedade Brasileira do Design Inteligente. Sim, isso mesmo, trata-se de um criacionista que afirma, desde as trevas, que a Teoria da Evolução de Darwin é “uma falácia”.

O debate sobre o uso da cloroquina tem revelado uma distância entre alguns médicos e a ciência, até então não percebida. Há relatos positivos de médicos que aplicaram a droga, mas relatos do tipo, por mais animadores que sejam, são muito pouco antes que se tenha evidências que recomendem amplamente seu uso. “Evidência” (do inglês “evidence”) tem, em ciência, o mesmo sentido da palavra “prova” em português. A língua inglesa possui uma expressão para relatos empíricos desprovidos de evidências: anecdotal. “Anedótico” é o relato baseado em algo que alguém viu, mas que não está provado. Pois bem, como se pode provar que um medicamento é eficiente na cura de uma infecção cuja maioria dos afetados terá remissão espontânea? Como estabelecer uma relação causal entre o medicamento ministrado e a eventual cura? Quem faz pesquisas sabe que o desafio aqui é isolar a variável medicamento, o que exige lidar com dois grupos tão similares quanto possível de pacientes selecionados aleatoriamente. Um grupo (o de intervenção), receberá o medicamento; o outro grupo (de controle) receberá placebo. Preferencialmente, o estudo se fará com o critério do “duplo cego”, ou seja: não apenas os pacientes não sabem se estão recebendo remédio ou placebo como quem tem relação direta com eles, incluindo médicos, também não sabe. Estudos do tipo, quando realizados em escalas compatíveis, podem medir com segurança também os efeitos iatrogênicos de medicações que agravam a situação dos pacientes e que podem mesmo matá-los.

A cloroquina poderá se demonstrar um medicamento útil e é natural, diante da ausência de evidências sobre qualquer droga no tratamento da Covid-19, que se façam tentativas e ensaios clínicos – como se têm feito no Brasil e no mundo. Alguns desse ensaios, aliás, já evidenciaram que a droga pode produzir efeitos iatrogênicos expressivos, especialmente se ministrada em doses altas (por exemplo: Safety considerations with chloroquine, hydroxychloroquine and azithromycin in the management of SARS-CoV-2 infection ou Ventricular Arrhythmia Risk Due to Hydroxychloroquine-Azithromycin Treatment For COVID-19), outros, não encontraram efeitos positivos contra o coronavírus (por exemplo: No Evidence of Rapid Antiviral Clearance or Clinical Benefit with the Combination of Hydroxychloroquine and Azithromycin in Patients with Severe COVID-19 Infection).

Será preciso continuar os ensaios com essa e outras drogas, mas isso nada tem a ver com a ideia de se estabelecer um protocolo para o uso geral de um medicamento desprovido de evidências. Pois é isso, exatamente, o que não-cientistas têm proposto, liderados por seu capitão. Um País onde um presidente prescreve medicamentos, aliás, sem que desse fato resulte um escândalo na própria comunidade médica, dá sinal de que pretende apagar a última vela no escuro.

Há pouco tempo, ainda quando deputado, Bolsonaro foi um dos autores de uma lei infame que autorizou o uso da fosfoetanolamina sintética, a chamada “pílula do câncer”. Mandetta, então também deputado, se opôs ao projeto. O artifício fraudulento de liberar uma substância que não produz qualquer efeito sobre o câncer e que pode ter levado muitos pacientes à morte por conta do abandono de terapias eficientes foi aprovado pela Câmara e pelo Senado e sancionado pela presidente Dilma Rousseff, o que deu origem à Lei 13.269/16. Um mês depois, em 16 de maio de 2016, o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu a lei. O charlatão maior, entretanto, virou presidente e a escuridão só tem aumentado.



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