A CIVILIZAÇÃO E SEUS ADVERSÁRIOS

Há muitos significados no futebol – no jogo, em seus rituais e nas atitudes dos torcedores – que transcendem o esporte. Um estádio é, inicialmente, um espaço hierarquizado onde as estruturas sociais estão demarcadas espacialmente. A amplitude destas demarcações tem sido reduzida nos novos estádios e o preço dos ingressos, especialmente, tornou-se um obstáculo para a presença de torcedores mais pobres. Um dos efeitos desse processo tem sido o “branqueamento” das arquibancadas. Como se viu na Copa, as imagens das câmeras sobre as torcidas mostraram uma paisagem protonórdica, etnicamente não representativa do Brasil, um País que, a par de sua diversidade racial, é formado predominantemente por população não-branca.

As cenas explícitas do racismo persistente no futebol têm, felizmente, produzido indignação. Ao lado da intolerância e da disposição covarde de ofender alguém por sua etnia, temos, finalmente, a justa demanda pela responsabilização dos ofensores. Trata-se de uma encruzilhada entre a civilização e seus adversários que o Brasil precisa superar.

Outro dia, no Fantástico, da rede Globo, uma excepcional matéria jornalística revelou o drama dos imigrantes negros, africanos e centro-americanos, que vêm ao Brasil em busca de trabalho e vida digna. A matéria abriu com alguns depoimentos profundamente preconceituosos de caxienses. Em síntese, eles se manifestaram contra o “convívio” com os ganeses e houve quem alertasse para as “terríveis doenças” que os imigrantes poderiam trazer. Claro que estas opiniões não são as de todos os residentes, mas espanta que possam ser representativas e que surjam em uma região que deve sua existência à imigração. A indignação pública diante das manifestações xenófobas, de qualquer maneira, foi sensivelmente menor do que a que temos visto frente ao racismo no futebol. Será por que se acredita que não haja racismo nelas?  É possível que alguém imagine contrariedade e medo dos caxienses se os imigrantes fossem holandeses?

Aqui no RS, recentemente, dois deputados, um do PP, outro do PMDB, realizaram pronunciamentos racistas e homofóbicos. Os discursos foram gravados e as expressões usadas – sobre “tudo aquilo que não presta” – são de conhecimento público. Os parlamentares sequer se desculparam. Para seus partidos, não há qualquer problema, inclusive, que eles tenham legenda e se apresentem como candidatos à reeleição. Também não se falou mais no assunto por estas bandas. Compreensível. Os adversários da civilização, como se sabe, não estão apenas dentro dos estádios de futebol.

 

Marcos Rolim – Zero Hora, 31 de agosto 2014.

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