Momento em que Bolsonaro é atacado com faca em Juiz de Fora.

A encruzilhada

O atentado contra Bolsonaro foi um grave crime contra a frágil democracia brasileira. O fato é simplesmente inaceitável, merecendo o mais veemente repúdio de todos, independentemente das posições políticas e ideológicas em disputa.

Imagine, por 30 segundos, que o seu candidato à Presidência da República foi esfaqueado em um ato de campanha, na frente de centenas de pessoas que o apoiam. Imagine que esse candidato é levado às pressas para um hospital e submetido à intervenção cirúrgica de emergência para que se contenha grave hemorragia interna e se repare lesões nos intestinos, circunstâncias potencialmente letais. Imagine, ainda, que o autor do atentado fosse uma pessoa com um passado de filiação a um partido situado no campo oposto ao do seu candidato. O que você iria pensar? Como se sentiria, efetivamente?

John Rawls, em sua obra fundamental, “Uma Teoria da Justiça”, propôs um experimento mental que denominou “Véu da Ignorância” (veil of ignorance). Funciona mais ou menos assim: vamos definir como deve ser um presídio. Uma pessoa de classe média, que já foi vítima de um roubo e que passou pela experiência de ser agredida por um delinquente comum, sente, provavelmente, muito medo de ser novamente vitimada. Nessa circunstância, é possível que ela concorde com aqueles para quem a forma de se reduzir o crime exige que os condenados devam sofrer tanto quanto possível para que outros potenciais infratores sejam dissuadidos, o que a levaria a imaginar o seu modelo de presídio de forma similar aos calabouços que temos no Brasil. Já uma senhora pobre, moradora de uma favela, mãe de um jovem de 20 anos que está preso, deve pensar em um modelo de presídio bem diferente. Se ela pudesse definir algo a respeito, pensaria em uma instituição onde todos pudessem trabalhar, onde cada preso tivesse a sua cela e onde seu filho pudesse estudar para prestar o vestibular.  Qual das tantas visões possíveis sobre o presídio ideal é, de fato, a melhor?

Rawls sugere que respostas a questões dessa natureza possam ser alcançadas a partir da incerteza sobre quais serão as pessoas afetadas. Digamos que o modelo seja definido por um grupo de 20 pessoas e que, ao final da definição, 10 delas, por sorteio, sejam encaminhadas a cumprir pena no presídio concebido. Todos saberiam, então, que possuem 50% de chances de passarem alguns anos na insituição que irão conceber. Essa circunstância, por certo, modificaria a ideia das pessoas a respeito de qual deva ser “o modelo”. Rawls sustenta que, por trás desse Véu de Ignorância, nós escolheríamos uma sociedade muito mais justa, aumentando o apreço pelas liberdades individuais e pela igualdade de oportunidades.

A “posição original de igualdade” proposta por Rawls é hipotética sendo ilustrada, como metáfora, pelo Véu da Ignorância, uma situação racional que não contaminaria os sujeitos pelos interesses pertinentes a sua posição social. Para ele, as desigualdades econômicas são inerentes a qualquer estrutura social, mas só seriam justas (e, portanto, legítimas) se as regras assegurarem dignidade a todos, beneficiando os mais desfavorecidos (princípio da diferença) e se todos tiverem as mesmas oportunidades básicas (princípio da igualdade de oportunidades).

Um modelo de política e de mudança social a ser construído a partir da posição originária, certamente não comportaria violência de qualquer tipo e, muito menos, a violência letal. Observe-se, entretanto, o quanto se tornou comum no Brasil que as pessoas se afastem de um padrão moral racional para sustentar suas posições políticas. Quando dois ônibus da caravana de Lula foram alvejados por quatro tiros, a reação de muitos dos adversários do PT foi a de que “quem semeia ventos, colhe tempestade”. Outros, menos afetos a metáforas, afirmaram que se tratava de um atentado produzido pelos próprios petistas. Agora, depois do que ocorreu com Bolsonaro, são ativistas de esquerda os que repetem comentários do mesmo tipo nas redes sociais.

É preciso dizer com todas as letras e da forma mais incondicional possível que o atentado contra Bolsonaro foi um grave crime contra a frágil democracia brasileira e que o fato é simplesmente inaceitável, merecendo o mais veemente repúdio de todos, independentemente das posições políticas e ideológicas em disputa. Nesse particular, as manifestações claras e imediatas de todos os candidatos à presidência, condenando o atentado, foram muito importantes. Com a exceção de algumas poucas declarações como a do presidente do PSL, um certo Gustavo Bebianno, que disse “- Agora é guerra”, ou de Dilma Rousseff, que lamentou o episódio, mas acrescentou que “incentivar o ódio cria esse tipo de atitude” – uma forma, portanto, de culpar a vítima pelo crime, o tom geral adotado pelas lideranças partidárias foi responsável e adequado à gravidade do momento político.

Por óbvio que o atentado não foi planejado por qualquer partido, o que não significa que direita e esquerda não tenham responsabilidade pelo clima de deterioração política que antecede e, de certa forma, estimula a predisposição à violência com motivação política. O atentado poderia ter ocorrido com outros candidatos e outros autores, tal a toxidade do ambiente político nacional, marcado por fake news, ameaças, blefes, ataques à Justiça e proposição aberta da violência.

Chegamos, assim, a uma encruzilhada. Ou o que ocorreu conduz a campanha eleitoral a um patamar de moderação e debate político (aquele que se faz em torno de propostas para o Brasil e não em torno de personalidades), ou descemos a ladeira em direção à barbárie e assistimos a novos atentados e à confrontação de rua entre grupos radicalizados. Por hora, nos resta desejar que Bolsonaro se restabeleça o mais rapidamente possível, a tempo de participar dos debates no segundo turno das eleições. Se isso não ocorrer e ele ficar fora da campanha, poderá vencer aquela que tende a ser a mais despolitizada eleição da história brasileira; aquele processo onde direita e esquerda aderiram orgulhosamente à condição da menoridade, alienadas em seus respectivos mitos.

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