A MORTE DO POETA

Vivemos um mundo avesso à poesia. Nossos dias se prolongam imersos em um cotidiano habitado pelo absurdo e persistimos nele porque não há mesmo outro jeito. Com a poesia, avançamos para além deste tempo que nos foi legado e nos descobrimos. Pela construção poética, nos é oferecida essa possibilidade de um reencontro ao lado da nossa própria exposição que equivale a um desnudamento. Quando nos descobrimos o fazemos, então, em um duplo sentido.

Prado Veppo foi o nosso maior poeta. Teria sido muito maior ainda se houvesse tomado a decisão de ser inteiramente o que sempre foi, um poeta. A medicina, possivelmente, nos furtou versos inteiros e manteve aquele cão dentro do poeta “lambendo as horas feridas pelos golpes das demoras”.

Veppo foi raro no sentido que só os grandes artistas sabem sê-lo. Produziu textos que permanecerão tatuados na alma de gerações inteiras e, um dia, aqueles que não conheceram sua obra ainda se espantarão com seu vigor poético. Parece inacreditável que tenhamos perdido nosso maior poeta sem que, ao menos, nossa cidade e nosso estado tenham recolhido sua obra como um patrimônio cultural. Os familiares, os amigos, os colegas, os ex-alunos, todos, por certo, compartilham a dor pelo homem que Veppo foi. Seu desaparecimento, como o de qualquer ser humano, é motivo de dor e sentimento para todos os que o conheceram. Nós outros, entretanto, que conhecemos Prado Veppo como escritor e que mantivemos com ele, sobretudo, essa admirável e longínqua proximidade permitida pela fruição estética de seus versos, sentimos uma outra perda. Ela não é mais importante, nem mais profunda é, apenas, mais larga. Com a morte do poeta, é a humanidade inteira que fica menor.

Santa Maria será mais triste sem Veppo, mas, fundamentalmente, será menos brilhante e generosa. Uma cidade que já teve a alcunha de “cidade cultura” deveria escrever os versos de seus poetas pelas ruas e pelas praças. Para que os caminhantes tivessem acesso à beleza que os seres humanos inventam. Para que aquele cão que levamos dentro de nós siga “pulando a esmo em torno da alegria de si mesmo”. Por hora, todos nós dizemos adeus a Veppo, consternados e inconformes. Santa Maria, se pudesse, haveria de dizer, hoje, entristecida que “Há um cão dentro de mim de olhar tristonho com a cabeça num dos joelhos de meu sonho”.

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