A PAIXÃO SEGUNDO ALMODÓVAR

Não sou crítico de arte, nem tenho a pretensão de dominar os paradigmas estéticos que permitem a alguns especialistas apreciar o que não me agrada ou a criticar o que gosto. Ocorre que, diante de certas produções culturais – notadamente certos livros, filmes ou discos – sinto-me como que na obrigação de recomendá-las. Talvez exista, neste particular, uma inclinação que nos impõe repartir a fruição do belo, de tal forma que a própria noção que temos dele possa ser confirmada pelos demais. De qualquer forma, a percepção da beleza seria menor se não pudéssemos comunicar nossos sentimentos.

Por isso, hoje, escrevo sobre um filme. A última obra de Almodóvar, “Tudo Sobre Minha Mãe”, entretanto, é muito mais do que um filme. Trata-se de um manifesto em favor da paixão e da generosidade em uma das mais belas e tocantes narrativas do cinema moderno. O enredo do filme possuía todos os elementos para que dele resultasse uma obra marcadamente piegas ou, no outro extremo, uma produção no todo grotesca. O que se vislumbra, no entanto, é simplesmente sublime. “Tudo Sobre Minha Mãe” é um drama de uma delicadeza extraordinária. As emoções mais radicais estão ali, condensadas naquilo que carregam de contraditório e fascinante. A dor, a esperança, o amor, a falta, o desespero, a entrega, o cuidado, a solidariedade, o egoísmo, a graça, o patético, a ausência… tudo isto brota da tela aos borbotões com o mesmo contraste das cores vivas sempre presentes nos cenários do cineasta espanhol.

O filme todo é uma nuvem apaixonada que nos envolve de uma maneira irreversível. Como se não bastasse, o espectador tem a recompensa estética e o privilégio de acompanhar o desempenho de artistas verdadeiros. “Manuela” e “Agrado” são os dois personagens mais carismáticos e os atores nos surpreendem a cada cena em seu talento. Entre o tanto que pode nos impressionar nesta verdadeira obra de arte há que se destacar o fato de Almodóvar alcançar a expressão do humano nas pessoas para além das caricaturas possíveis ou das simplificações maniqueístas ainda tão comuns no cinema. Há algo de Sheakspeare em seus personagens no exato sentido de que eles retomam em profundidade a expressão contraditória que nos define. Os seres humanos são dilacerados, é o que nos diz Almodóvar. Neste dilaceramento constroem defesas, erguem barricadas, se entregam aos seus desejos, se superam. Inventamos saídas e há pouco de lógico nisto tudo pois nem mesmo a morte nos detém. Os personagens do filme são, de maneiras diversas, marcados pela morte. Não obstante, encontram na paixão pela vida sua razão própria. Digno de nota, por outra parte, é o fato do filme oferecer a palavra a segmentos marginalizados e permitir que todos descubram neles a mesma humanidade que nos atribuímos. Estamos, bem entendido, diante de uma produção que consagra no cinema deste final de século a perspectiva civilizatória oferecida pela ideia dos Direitos Humanos, a mesma que nos permite o reconhecimento do outro em sua diferença.

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