A peste

O avanço do Coronavírus no Brasil nos coloca diante de riscos extraordinários. De um lado, a possibilidade da curva do contágio seguir a inclinação italiana ou iraniana, com uma explosão de casos e o consequente colapso do sistema de Saúde. Nesse caminho, as Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) são superlotadas com pacientes, em sua maioria idosos, que precisam de ventilação mecânica enquanto todos os demais – os que necessitam desse amparo por conta do Covid-19 e os pacientes afetados por outras moléstias – ficam sem leitos, o que inaugura a dinâmica de óbitos em cascata. Ao mesmo tempo, na medida em que os mais variados eventos vão sendo cancelados e as atividades econômicas entram em um ciclo de baixa rotação, inúmeras atividades de trabalho precário – para onde migrou grande parte dos desempregados no Brasil – são praticamente desativadas por falta de demanda. O problema atinge também os pequenos negócios abalados pela falta de capital de giro. Lidamos, então, muito concretamente, com a ameaça de uma visita ao cenário medieval das pestes, agregado ao desespero dos desvalidos, meticulosamente abandonados.

O quadro exige medidas extraordinárias que produzam drástica redução no deslocamento das pessoas nos espaços urbanos e programas ousados para o amparo aos mais pobres e para o apoio à rede de pequenas e microempresas. Quem pode dar conta dessa realidade?  As empresas?  A mão invisível do mercado?  Obviamente não.  Somente o Estado é capaz de se antecipar à grave crise que se aproxima com medidas de prevenção que devem ter um efeito cada vez mais compulsório. Somente o Estado pode conceber e operacionalizar mecanismos especiais de crédito, de rolagem de dívidas e de concessão de milhões de bolsas de emergência que garantam a sobrevivência dos setores confinados pelo trabalho precário.

E é exatamente aqui que as coisas podem entortar, porque o Brasil é, na exata síntese de Ciro Gomes, “um Boeing sofisticado com um chimpanzé no comando e um copiloto de videogame”. Alguém em sã consciência poderia imaginar que um presidente da República, em quarentena após ter convivido com vários indivíduos contaminados, seria capaz de sair às ruas para saudar uma aglomeração que pede a ditadura, apertando a mão de mais de 200 pessoas? Com esse gesto e com as sucessivas declarações de menosprezo à pandemia, Bolsonaro potencializa os riscos, mesmo caminho, aliás, seguido por Malafaia e outros líderes empresariais da fé que se negam a cancelar cultos em que centenas de pessoas se aglomeram.

Observe-se que a postura do primeiro mandatário – que orienta, com seus gestos e comunicados patéticos, milhões de seguidores cada vez mais radicalizados em suas bolhas de WhatsApp – contraria frontalmente as orientações do seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que, até aqui, tem se conduzido de forma responsável e diligente, sintonizado com as orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS).  O Brasil, assinale-se, tem construído, com o Sistema Único de Saúde (SUS), uma experiência que, talvez, apenas o Reino Unido tenha com o seu National Health Service (Serviço Nacional de Saúde). Refiro-me não apenas à capilaridade de um modelo de atenção capaz de responder de forma unificada a grandes desafios, mas também à condição que permitiu consolidar um conjunto de conhecimentos epidemiológicos e de saúde pública que estruturaram rotinas e protocolos de atendimento em todo o País.  Graças a isso, pode-se falar, efetivamente, em uma “cultura de saúde pública” no Brasil que se desenvolveu à margem das ideologias e disputas políticas, porque fortemente comprometida com o paradigma científico e o consequente respeito às evidências. O SUS, sempre atacado e menosprezado pelos interesses privados na área da Saúde, é, na verdade, uma das poucas razões de orgulho dos brasileiros.

Como nunca antes, o Brasil precisa de governantes à altura de sua missão constitucional. O fato é que temos, na Presidência, um senhor que habita um mundo escatológico de cocôs e urina, atormentado por ânus, pênis e vaginas, cujo estágio moral é encontradiço em jardins de infância. O Congresso Nacional tem o dever político e moral de afastar o senhor Jair Bolsonaro da Presidência e logo, ainda que, para isso, seja preciso interditá-lo. Deve fazê-lo para que o Brasil possa ser salvo das trevas para as quais caminha a passos largos.  Essa não é uma exigência derivada da política, mas da razão. O Brasil precisa se unir, ainda que seja por alguns meses, para combater a peste e salvar sua população mais pobre do desespero que irá se seguir. A dupla Bolsonaro/Guedes representa, exatamente, a impossibilidade de se enfrentar esses desafios. Para qualquer política, eles são, efetivamente, a peste.



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