Na entrada do campo de concentração de Auschwitz, a macabra ironia em uma frase: “O trabalho liberta”

A sedução do abismo

“Hoje, presa de demônios por todos os lados,
uma das mãos cobrindo um olho,
o outro contemplando horrores,
ela desaba de desespero em desespero.
Quando chegará ao fundo do abismo?”
– Thomas Mann, Doutor Fausto

Thomas Mann produziu, quando de seu exílio nos Estados Unidos, em plena II Guerra Mundial, o romance Doutor Fausto, atualizando a lenda do pacto com o demônio. O personagem central dessa obra é o estudante de Teologia Adrian Leverkühn, sendo a história contada por seu amigo, Serenus Zeitblom. Leverkühn irá se dedicar à música e o pacto demoníaco que firma é, na verdade, uma dolorosa referência ao que ocorreu na Alemanha, onde a população fora seduzida por Hitler. Ainda hoje, os acontecimentos causam estupefação. Como foi possível que a mais desenvolvida nação europeia, potência econômica e cultural, berço de Kant, Hegel, Marx e Freud, Bach, Beethoven e Haydn, Goethe e Schiller, tenha sido sequestrada pela loucura dos fornos crematórios? Como compreender o III Reich e seus propósitos irracionais? Como imaginar que a democracia de Weimar pudesse ser condenada a partir das próprias regras eleitorais e conduzida à ditadura, à guerra total e ao holocausto, no intervalo de alguns poucos anos?

Vários fatores, por certo, se alinharam tragicamente para permitir que os alemães fossem seduzidos pelo abismo. As humilhações e os ressentimentos produzidos pelo Tratado de Versalhes, que impôs à Alemanha pesadas indenizações por conta da I Guerra, teceram o pano de fundo para as pretensões nacionalistas; a crise de 1929 que endividou o país e quebrou seu sistema financeiro, promovendo desemprego e hiperinflação, foi um elemento impactante, correlacionado a maiores espaços para projetos radicais e lideranças carismáticas. O quadro político interno, marcado pela divisão das duas principais organizações da esquerda, o Partido Social Democrata e o Partido Comunista, e pela incapacidade das lideranças democráticas de perceberem o significado real do nazismo, também pavimentaram a ascensão de Hitler.

Thomas Mann, nesse particular, foi uma voz lúcida e corajosa. Em 17 de outubro de 1930, após o Partido Nazista (NSDAP) ter alcançado o segundo lugar nas eleições (com 18,3% dos votos, atrás dos socialdemocratas, que alcançaram 24,5%), ele pronunciou o célebre discurso “Um apelo à razão” (Ein Appel an die Vernunft), em Berlim, conclamando à formação de uma frente entre a burguesia culta e a classe trabalhadora para resistir ao nazismo. Mann também deve ter se perguntado muitas vezes por que não foi ouvido. Em Doutor Fausto, há algumas pistas como a passagem em que o narrador da história, Zeitblom, conta que os cidadãos de Weimar que passavam perto do campo de concentração de Buchenwald, onde foram assassinados milhares de judeus, comunistas, homossexuais e ciganos, tentavam, a todo custo, “nada saber, embora, às vezes, o vento trouxesse o fedor de carne humana queimada a seus narizes”.

Nenhum regime totalitário ou ditatorial é possível sem que uma “vontade de não saber” se dissemine e constitua uma espécie de atmosfera cínica. O Brasil sabe bem desse ar irrespirável que ofereceu e segue oferecendo conforto moral aos que se calaram diante de crimes contra a humanidade como a tortura, por exemplo. Algo dessa fedentina tóxica, que produz alienação moral e conivência criminosa, pode ser localizada também entre aqueles que se calam diante da corrupção ou que a relativizam em nome de conveniências dialéticas. Nada disso, entretanto – nem a experiência da ditadura, nem os ataques ao erário promovidos pelos governantes à direita e à esquerda – se assemelha ao horror que se aproxima e que nos engolfará a todos se nada for feito. Refiro-me à emergência no Brasil de um discurso político proponente da violência e do ódio, de características fascistas, cujo rosto estará nas urnas nas eleições de outubro, em condições competitivas.

Muitos dos prováveis eleitores do fascismo no Brasil são jovens pobres, moradores das periferias, sem acesso a empregos fixos, com pouca ou nenhuma escolaridade, premidos pelas piores decorrências da crise, desiludidos e vítimas constantes da criminalidade. Quando esses setores se somam a um discurso favorável ao “armamento geral da população” e a ideias como “tem que prender e não mais soltar” e “bandido bom é bandido morto”, etc., fica fácil compreender suas razões. Esses segmentos buscam a cidadania que lhes foi sonegada e o fato de se alinharem ao discurso oferecido por alguém totalmente despreparado parece compreensível diante de uma realidade social de abandono e desesperança.

O que dizer, entretanto, quando vemos pessoas das classes mais privilegiadas, empresários e profissionais liberais, a maioria com formação universitária, apoiando essa mesma plataforma? Tais segmentos são mais conservadores, se dirá. Sim, muito bem, a democracia é o melhor dos regimes exatamente porque permite que posições políticas e ideológicas muito diversas se apresentem e dialoguem. Candidaturas como as de Amôedo, Meireles, Álvaro Dias e Alckmin, por exemplo, oferecem plataformas identificadas com o ideário liberal na economia e conservador nos costumes que costuma agradar a direita brasileira. O problema, aqui, é outro. O apoio de pessoas presumidamente esclarecidas a Bolsonaro não se explica pelo conservadorismo. Há nesse fenômeno, possivelmente, alguns dos temas presentes em Weimar nos anos 1930, entre eles a vontade de não saber e a disposição favorável a um pacto sinistro pelo qual a democracia é conduzida à pira sacrificial em troca da promessa da ordem dos cemitérios. Nunca estivemos diante de risco tão grave.

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