APONTAMENTOS

1- Discute-se a eleição de Tiririca como se ela fosse expressão da falta de consciência. De fato, a eleição de alguém sem trajetória de luta política e sem virtudes públicas conhecidas parece indicar um descompromisso antes de um “voto de protesto”. Aliás, se houve protesto neste voto, então foi contra o raciocínio. Muito mais complicado, não obstante, é discutir a eleição de “nulidades graduadas”, algumas delas conhecidíssimas por sua especial habilidade em acumular patrimônio, nomear cabos eleitorais e intermediar interesses privados em contraste com o interesse público; casos que deveriam ser considerados muito mais graves que as “votações tiriricas”.

2- Em público, descontados alguns momentos, a campanha presidencial transcorreu normalmente. Mas as hostes bárbaras atuam na Internet, protegidas pelo anonimato ou pela irrelevância. Às vezes, as próprias campanhas se encarregaram de destilar o ódio na web. O que alguns petistas, por exemplo, escreveram contra Marina deveria merecer uma comissão de ética (o que não será cogitado, até porque tais comissões parecem não ter o que fazer nos partidos). Mas foi com os ataques sofridos por Dilma com o tema do aborto que se atingiu as profundezas do esgoto; o que deveria ter suscitado forte reação da opinião pública. Inacreditavelmente, ao invés de enfrentar o preconceito com altivez, Dilma se declarou “a favor da vida” e insistiu em suas origens católicas. Com isso, a campanha do PT abriu mão – uma vez mais – de um debate sério, em nome – é claro – dos “objetivos finais”. Mais grave: houve quem passasse a dizer que o verdadeiro “abortista” é José Serra. Triste percurso este onde os termos do esgoto são aceitos e replicados.

3- Desejo que Dilma e Serra consigam expor com clareza o que pensam e aprofundem o debate sobre os temas onde, de fato, possuem visões diferentes para o Brasil. O diabo é que as campanhas eleitorais tendem a tornar os candidatos majoritários muito mais parecidos do que, de fato, são.

4- Marina – o mais significativo fenômeno político desta campanha – poderá desempenhar papel importante no 2º turno, ou optar pela neutralidade. Os que imaginam que ela se curvará às ofertas de ministérios não a conhecem. Marina quer que as candidaturas se manifestem diante da pauta de um novo modelo econômico e social fundado na sustentabilidade. Nem Dilma, nem Serra trabalham efetivamente com este conceito. No fundo, são produtivistas com sensibilidades sociais distintas, ambos dependentes de bases políticas conservadoras e, até certo ponto, produtos e reféns de um sistema político falido.

5- A filiação às políticas sociais de caráter inclusivo fazem do PT uma expressão tardia e mitigada da social-democracia contemporânea; a aliança PSDB-DEM, por seu turno, representa mais aproximadamente a trajetória neoliberal em oposição à experiência do welfare state. Uma diferença que, embora insuficiente para repensar o Brasil, não é pouca coisa. Que o PT se diga “socialista” e o PSDB “social-democrata” importa pouco para além do ponto onde a política se cruza com a ironia. A questão presente no 2º turno, imagino, não está “no quanto avançar”, mas mais exatamente “no quanto não recuar”.

Marcos Rolim, Zero Hora, 2010.

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