As convicções e o rebanho

O noticiário político tem me feito lembrar de aforismos de Nietzsche. Foi ele quem disse, por exemplo, que “também os vitoriosos são vencidos pela vitória”. Há certas vitórias, com efeito, que destroem os vencedores. A situação mais conhecida é aquela onde os recursos investidos na disputa são tão altos que a própria vitória não mais se justifica. Há preços a pagar por certas vitórias que melhor seria perder. Pensem nas últimas eleições presidenciais. Se Dilma tivesse sido derrotada, o PT seria, hoje, o maior partido da oposição. Aécio Neves teria assumido a gestão da crise e implementado, com custos políticos elevados, as mesmas medidas impopulares de Dilma e Temer. O PT, entretanto, venceu as eleições se valendo de todos os meios, incluindo o financiamento ilegal e o arsenal de maldades com o qual costuma lidar com seus adversários. Nietzsche diria que aqueles que lidam com monstros deveriam tomar cuidado para não se tornar monstros também. A esquerda faria bem, aliás, se escrevesse em suas bandeiras outra frase do filósofo alemão: “Se você encarar por muito tempo um abismo, o abismo terminará encarando você”. Lembrei dessa frase quando soube que o Congresso quase votou a anistia a políticos envolvidos com “Caixa 2”. A iniciativa, tramada por Renan Calheiros (PMDB) e Rodrigo Maia (DEM), contou com o apoio dos partidos tradicionais, incluindo o PT, e foi defendida pelo ministro Gedel Vieira (PMDB). A manobra só não prosperou pela resistência de parlamentares do PSOL e da REDE. O abismo é bem mais fundo do que se costuma pensar, em síntese.

Acho que Nietzsche também faria bem ao Ministério Público e à imprensa brasileira. Foi ele quem disse que “O pior inimigo da verdade não é a mentira, mas a convicção”, lembram? A coletiva de imprensa dos procuradores da Lava Jato foi uma montanha parindo um rato, processo saudado com entusiasmo por alguns jornalistas que se deliciaram com expressões como “comandante geral do esquema de corrupção”, “maestro” e “propinocracia”. Os promotores também afirmaram que “sem o poder de decisão de Lula, o esquema de corrupção seria impossível”. Ao invés de provas, uma apresentação em power point. A cena valeu horas de mídia em todo o País, em tom uníssono e irreflexivo.

É possível que Lula seja responsável por atos de corrupção? Há elementos que levam a crer que sim e qualquer pessoa medianamente informada haverá de imaginar que é mesmo provável que Lula tenha contas a acertar com a Justiça. Ele e centenas de outras lideranças de muitos partidos, assinale-se. Já a ideia de que sem Lula não haveria “petrolão” ou “mensalão” só pode receber guarida em mentes cansadas. As evidências apontam para outra direção e é muito mais provável que Lula e o PT tenham se somado a esquemas de assalto ao Erário operantes há décadas. Não fosse assim, não teríamos tantos “especialistas” como Marcos Valério, Paulo Roberto Costa, Fernando Soares (Baiano), Nestor Cerveró, figuras conhecidas por relevantes serviços prestados ao PMDB, ao PSDB e ao PP desde priscas eras.

Desde o início da Lava Jato, tenho afirmado que ela significa muito para o Brasil. Penso que ela passou a ocupar, inclusive, o espaço da esperança em um País onde a política se confundiu com o cinismo e a velhacaria. Os que integram essa força tarefa não deveriam permitir, também por isso, que seu caminho seja ofuscado pelos holofotes e amesquinhado por frases de efeito. Se essa for a conduta, será muito mais difícil que tenhamos Justiça e bem mais provável que se reconstruam veredas para velhos e novos patifes.

Já para aqueles que se satisfazem com suas convicções e que, tão frequentemente, povoam a mídia com elas, talvez valesse mais uma frase de Nietzsche:o homem do rebanho chama de verdade aquilo que o conserva no rebanho e chama de mentira aquilo que o ameaça ou o exclui do rebanho”. Sim. No Brasil, cada vez mais, a verdade parece ser aquela do rebanho.

Marcos Rolim – ZH 24/25 de set 2016.

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