Bacurau, o filme

Bacurau é mais do que um grande filme, é também uma obra em favor da dignidade das pessoas e uma ousada construção estético-política. Penso mesmo que estamos diante de um clássico, uma dessas obras de referência que veremos várias vezes, sempre com renovada fruição artística e surpresa, sem saber ao certo o quanto de nós assistiu ao filme e o quanto foi assistido por ele.

Bacurau é nossa melhor parte, em meio a um país em vias de ser desligado do mundo. Naquele canto isolado, alcançado pelo Estado de forma bissexta, nossa comunidade é alvo da perversão que se associou à política e pouco nos resta além de praguejar e ir levando as coisas do nada ao lugar nenhum. Há velórios para frequentar, bares onde ainda é possível a arte de um repentista; ocasionalmente, um prostíbulo ambulante agrega alegria ao cotidiano masculino. Há paz, sobretudo; as pessoas encontram prazer na cama, têm acesso a um “pequeno veneno que lhes dá garantia”; praticam um congraçamento de diferentes cores, orientações e sotaques, mas a comunidade está prestes a ser tragada pelo inferno. Não porque seja culpada, não porque crimes precisem ser punidos ou culpas expiadas. Bacurau será atacada, porque seus moradores são “matáveis”; porque são filhos de um povo sem eira nem beira. Na luta pela sobrevivência, entretanto, esse povo se descobre maior que suas instituições; recruta a liderança de um herói ambíguo – meio bandido, meio santo; meio homem, meio mulher – e se prepara para surpreender seu inimigo cruel.

“Requiém para Matraga”aparece na trilha sonora, talvez para uma referência à improvável luta armada, “Vim aqui só pra dizer / Ninguém há de me calar / Se alguém tem que morrer, que seja para melhorar”. Música composta pelo paraibano Geraldo Vandré, para o filme de Roberto Santos (1965) “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, baseado na obra de Guimarães Rosa (último conto de Sagarana) que nos fala da queda de um homem poderoso, a música nos prepara para um desfecho épico em um espaço onde só a aridez parecia autorizada.

A direita acusou o golpe. Para Isabela Boscov, da revista Veja, a “Lógica de Bacurau é tão desalentadora quanto a do lado oposto”. Fiquei imaginando como seria uma matéria da jornalista se ela fosse cobrir, digamos, o Levante de Varsóvia. “A lógica da revolta dos judeus, no fundo, é idêntica à do outro extremo, e tão desalentadora quanto ela: para que um lado se construa, é preciso destruir o outro lado — e com ira e violência”. Essa é a frase com a qual ela termina sua crítica cinematográfica. No período, troquei a palavra Bacurau por “Revolta dos Judeus”. Faria sentido? Demétrio Magnolli, na Folha, atacou o filme como um “testemunho da extinção da vida inteligente na esquerda”. Curiosa sensibilidade. Então uma história onde um povo se une para derrotar um inimigo externo é uma parábola “de esquerda”? Onde denunciar a articulação de psicopatas armados com políticos safados é deja vu comunista?

Nada sei sobre o filme além do que pude ver. Não sei das intenções dos diretores, roteiristas, etc e não penso que isso tenha relevância. A grande obra, aliás, escapa aos seus criadores. A crítica de Veja chega a insinuar que Lunga, o herói andrógino, foi inspirado em Lula. O mito, como se percebe, não está na tela, mas nas projeções dos sábios. Lula, com o perdão da sinceridade, nada tem de Lunga e, se estivesse em Bacurau, teria negociado com o prefeito e construído uma prisão de segurança máxima para gente como a personagem.

Bacurau, na verdade, é uma metáfora para um mundo onde quem nunca teve juízo está no poder. Trata-se de filme incômodo, particularmente para a parte tóxica do “Brasil do sul” que se sente mais próxima de atiradores americanos que dos nordestinos.

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