“CHE”, (E) TERNAMENTE

Terminei, esses dias, a biografia de Ernesto Guevara de la Serna, o “Che”, escrita por Jon Lee Anderson (Editora Objetiva, 1997). Trata-se de uma obra magistral. Em suas mais de 900 páginas, Anderson reconstitui a vida de Guevara, do seu nascimento na cidade argentina de Rosário em 14 de maio de 1928, até sua morte em La Higuera na Bolívia em 9 de outubro de 1967. Mais do que isso, o livro nos oferece um fascinante percurso pelo imaginário da esquerda revolucionária dos anos 60, permitindo que as opções da época, no que tiveram de apaixonadas e enlouquecidas, adquiram a estatura dos gestos incontrastáveis.

No livro, Che Guevara aparece como um homem extraordinário, mas não como um mito. Suas qualidades mais sensíveis, a coragem, a determinação, a disciplina, o desprendimento total, a repulsa diante da exploração, sua recusa a qualquer privilégio, seu desprezo pelo servilismo, sua busca pela justiça social, aparecem de forma fulgurante. Mas também seus defeitos, como a dureza muitas vezes impiedosa, a intolerância diante das opiniões contrárias ou a crença inquebrantável no papel redentor da violência, estão ali retratadas e documentadas. A revolução cubana, por certo, faz-se sentir da mesma forma, avessa a qualquer interpretação maniqueísta. Ali estão seu esplendor e sua miséria. Seus atos mais generosos e suas opções mais condenáveis.

Graças a um depoimento tomado por Anderson na Bolívia junto ao general reformado Mario Vargas Salina, foi possível iniciar as escavações em Vallegrande e chegar às ossadas de um grupo de guerrilheiros, um deles o do próprio “Comandante Che”, assassinado um dia após sua prisão.

Transcorridos 30 anos de sua morte, Che Guevara ressurge como um pedaço de cada um de nós. De uma viagem de moto pela América do Sul até à Guatemala democrática do presidente Arbenz; do encontro com Castro à Sierra Maestra; da entrada triunfante em Havana à luta armada nas selvas do Congo; da idéia de um “Novo Homem” à coluna guerrilheira na Bolívia; sua trajetória sintetiza uma epopéia sem paralelo, que não pode deixar de encantar todo aquele que a toque.

Talvez por isso, nos jovens corações do mundo inteiro haverá sempre um espaço para seu sorriso de menino ou para sua fisionomia implacável. Na alma de todos nós, guardaremos seus poemas ou seu fuzil. E se viajarmos por esta parte sofrida da América, levaremos Che conosco para que nosso olhar não se desvie do destino dos desvalidos. Haveremos, então, de descobrir que Che Guevara ficou não pelo “endurecimento” que pressupunha incontornável como o costumam ser os pesadelos, mas pelo que havia de ternura em seus sonhos.

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