CIDADES MURADAS?

Durante todo o medievo, as cidades europeias conviveram com os muros como quem lida com sua própria essência. A própria noção de cidade estava como que na dependência dessa construção básica capaz de oferecer segurança àqueles que ali conviviam. As cidades modernas, por contraste, são espaços públicos onde, por definição, todos os cidadãos têm livre acesso e trânsito. É possível visitá-las, passar por elas, morar nelas ou deixá-las, a qualquer hora do dia ou da noite. Todas as constituições modernas das nações democráticas consagram essa liberdade aos cidadãos com o direito de ir e vir. O governo do Paraná, não obstante, pensa diferentemente. Julga-se no direito de escolher quem entre os cidadãos de seu próprio estado pode ir à Curitiba. Se forem sem terra, sabe-se já que o Sr. Jaime Lerner entende ser sua prerrogativa convocar a Polícia Militar para impedir – por bem ou por mal – a entrada de manifestantes na capital. Estive lá na semana passada, nos dois dias que se seguiram à repressão desencadeada pelo Estado contra aqueles que haviam decidido organizar uma manifestação pública de caráter reivindicatório. Visitei os acampamentos dos sem terra na periferia: me lembraram hospitais de campanha. Entre os trabalhadores, pessoas humildes e simples, havia mais de cem feridos. Muitos, entre eles, mulheres e crianças. Conversei com um jovem que recebeu uma bomba de gás em seu peito. Estava coberto por queimaduras e chorava em seu leito improvisado. Vi seres humanos com as pernas dilaceradas por mordidas de cães utilizados no policiamento. Vi um bebê de 8 meses com dois dedos fraturados. A mãe, na tentativa de protegê-lo, tentou se esconder dentro do banheiro do ônibus onde viajava quando um PM prensou a mão da criança na porta. Reconstituímos as circunstâncias da morte de Antônio, 35 anos, pai de 5 filhos, alvejado no abdômen por bala comum e identificamos a viatura onde estava o policial que atirou.

O MST poderia tentar ocupar um prédio público – como o havia feito em outras capitais, se argumenta. Então, fosse essa a preocupação, não seria de se esperar que o Estado protegesse o prédio? Será necessário, diante de cada manifestação de protesto ou descontentamento, colocar os quartéis de prontidão e orientar os policiais para que reprimam seu povo? É este o caminho da democracia que agrada o Sr. Fernando Henrique Cardoso? Uma “democracia” que não se alimenta da diferença e que parece só suportar o oficialismo, os convivas dos banquetes e a ordem unida? Após os eventos de Porto Seguro, quando das solenidades pelos 500 anos e, agora, após Curitiba, resta aos liberais a proposição das muradas. Nossas cidades poderiam ser cercadas de novo. Dentro delas, eles poderiam projetar um mundo harmônico só com pessoas saudáveis e ricas, de preferência brancas e bem vestidas. Os demais, essa incômoda maioria de gente do povo, gente sem educação, sem saúde, sem dentes, sem terra, sem futuro, habitariam as planícies ou as montanhas. Periodicamente, os das cidades enviariam emissários para anunciar à plebe as condições restritas de acesso ao mundo reservado pelas muralhas. Aos bem comportados se reservariam alguns lugares. Num mundo assim, tudo, talvez, fosse mais simples. De qualquer forma, restaria um problema sério a ser resolvido: quem trabalharia para o conforto dos da cidade?

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