Ciranda da bailarina

Impressiona a quantidade de declarações e textos completamente “sem noção” que circulam com naturalidade pela mídia e no ambiente político brasileiro. O vídeo com a quase-ministra-do-Trabalho, por exemplo, chamou a atenção mais pelo inusitado ambiente de gravação (o interior de um barco) e pela circunstância da referida estar acompanhada por quatro senhores banhistas do que propriamente pelo que disseram. O contexto é ridículo, a escolta idem, mas o que foi dito é algo. A quase ministra afirma que “todo mundo pode pedir qualquer coisa abstrata na Justiça do Trabalho”. Os amigos do barco, então, participam em apoio à “doutora” e um deles, empresário, diz que “ação trabalhista toda hora a gente tem”. O consenso imediato é “todo mundo pode ter uma ação trabalhista, eu tenho, ele tem, você tem, todo mundo”. Ao final, a indicada – que é deputada federal – conclui de uma forma, digamos, reflexiva: -“Eu só quero saber o seguinte, quem (sic) que pode passar na cabeça das pessoas que entram contra a gente em ações trabalhistas?” Eis um tema abstrato por excelência, uma espécie de intencionalidade da litigância, sustentado em idioma assemelhado ao português.

A estratégia de atribuir a uma conduta moralmente questionável uma dimensão universal é uma forma de desresponsabilizar o sujeito. Quando tratamos da corrupção, por exemplo, e afirmamos que ela ocorre sempre com aqueles que chegam ao Poder (“porque o poder corrompe”, se repete de forma irrefletida), então a corrupção já mudou de natureza. Ao invés de um crime vergonhoso, ela passa a ser uma fraqueza, algo inerente à condição humana. Nesse salto, o próprio problema se dissolve. A estratégia é simples e operante. Se dissermos, por exemplo, “todos os políticos roubam”. Então, roubar, embora seja claramente algo errado, deixa de ser especialmente grave, porque, afinal, não há como se lidar seriamente com a ideia de uma sociedade sem representação política, logo, se todos os políticos roubam, a disfunção seria um custo a ser suportado pelo sistema. Há variantes do mesmo sofisma.

Assim, se afirmo: “todos os políticos roubam fortunas”, ou “os políticos que roubam carregam malas cheias de dinheiro”, então aqueles que se apropriam de quantidades menores e com discrição ou sem malas, fazem algo que seria quase desculpável. A tese lembra a Ciranda da Bailarina, canção de Edu Lobo e Chico Buarque: “procurando bem, todo mundo tem pereba, marca de bexiga ou vacina e tem piriri, tem lombriga, tem ameba, só a bailarina que não tem”. Tenho visto gente boa embrenhar-se por esse caminho sem se dar conta de que ele conduz à abdicação moral e a uma versão da política transformada em circo.

Para conhecer, a providência básica é distinguir. Depois, nos obrigamos a outras operações, inclusive a de identificar semelhanças antes não percebidas, mas, se não formos capazes de separar os fenômenos, não será possível conhecê-los. Desviar dinheiro público, cobrar percentuais em contratos firmados por empresas estatais, pouco importa se para enriquecer ou se para comprar eleições ou votos no Congresso, ou para tudo isso junto (o que é quase sempre o caso) é um crime contra o povo brasileiro que não merece perdão, nem “mas”, o que não pode ser igualado ou equiparado a outros temas que envolvem questionamentos éticos pertinentes, mas que não dizem respeito a crime. Aliás, a maior parte da esquerda nunca fez esse debate, porque ergueu ao longo de anos um horizonte carregado por “mas e entretantos”, com o quê os bispos mantiveram seus cargos e os fiéis se esconderam em um parênteses.

A covardia, como se sabe, é contagiosa. Ela começa no silêncio e termina sempre em uma justificativa que envolve algum interesse coletivo a ser pretensamente salvo. Ainda hoje, reivindicações em favor da moralidade no trato do dinheiro público são classificadas em certos ambientes ditos “de vanguarda” como “udenismo” ou coisa pior. No fundo, o silêncio da esquerda sobre a corrupção que envolveu várias das suas referências políticas e que segue protegendo vilões de menor envergadura foi o resultado de um cálculo sobre as vantagens que o inimigo teria diante da autocrítica. O acerto de contas com o malfeito, assim, seria impossível, porque definido como arma na mão do tinhoso. Nenhuma novidade aqui, desde Stálin pelo menos.

Faltou lembrar que o risco do demônio se apropriar da boa causa é sempre infinitas vezes menor do que o risco de se permitir que ele próprio a formule.

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