Ciro, a boa notícia até aqui

Desde Brizola, o PDT não dispunha de uma liderança com as qualidades que costumam caracterizar os estadistas. Ciro é o mais preparado dos candidatos e seu discurso enfrenta temas complexos com posições políticas de perfil socialdemocrata – muito à esquerda, portanto, da esquerda brasileira.

O Brasil vive um momento de aguda instabilidade política com os riscos inerentes a conjunturas dessa natureza, agravados pela possibilidade de viabilização institucional de uma alternativa fascista. O movimento de greve/locaute dos caminhoneiros/empresas, que tornou o Brasil refém de demandas corporativas e de propaganda em favor de um golpe militar, evidenciou a fragilidade de uma ordem que se constituiu sobre um modelo político mafioso, sobre os interesses do capital financeiro e sobre um governo ilegítimo. Parte do apoio inicial da população ao movimento dos caminhoneiros, aliás, expressou, também, a exaustão com a realidade distópica e anômica que desespera o País. O caminho democrático para a superação da crise institucional passa pelas eleições de outubro que assinalam, assim, a disputa política mais importante desde as primeiras eleições diretas para presidente após a ditadura, em 1989.

As eleições presidenciais instituem uma dinâmica política própria de balanço da realidade, de diagnóstico sobre os principais problemas a serem enfrentados e de apresentação de propostas concretas. As disputas eleitorais nacionais são, por isso mesmo, uma espécie de respiradouro; algo que possibilita um espaço onde as considerações sobre o futuro adquirem maior densidade. O processo permite que os diferentes atores políticos digam o que pensam sobre a crise atual, sobre o enfrentamento do déficit orçamentário, sobre as políticas públicas necessárias à garantia dos direitos elementares, à construção da paz, à promoção da saúde, à qualificação da educação pública, entre outros temas centrais. Independentemente dos limites dos processos eleitorais, estamos diante de uma oportunidade histórica para se afirmar um caminho de reformas civilizatórias e para se barrar o avanço da estupidez.

Ninguém no campo democrático e popular no Brasil tem, hoje, melhores condições para se credenciar como uma liderança de um novo bloco histórico do que Ciro Gomes. O desempenho político de Ciro tem sido notável e sua participação no programa Roda Viva da TV Cultura, essa semana, ofereceu nova evidência disso (se você não assistiu, confira em: https://goo.gl/wsZpn4). Desde Brizola, o PDT não dispunha de uma liderança com as qualidades que costumam caracterizar os estadistas. Ciro é o mais preparado dos candidatos e seu discurso enfrenta temas complexos com posições políticas de perfil socialdemocrata – muito à esquerda, portanto, da esquerda brasileira. O eixo programático que Ciro está construindo bate de frente com o rentismo e assume o objetivo de derrotar politicamente o PMDB. A posição que ele expressou a respeito da segurança pública é, no fundamental, correta e avançada; assim como com relação à política de drogas e ao aborto, temas tratados com mediações legítimas, mas sem concessões à hipocrisia. Sobretudo, a postura de Ciro em favor dos ideais republicanos – o que exige, sempre é bom lembrar, o combate à corrupção e ao clientelismo – situam sua candidatura como a melhor notícia desses tempos sombrios.

Essa conclusão pode ser contestada, é claro, e haverá sempre argumentos críticos à candidatura de Ciro, por boas e más razões. O que me parece difícil aos críticos é a apresentação de um caminho alternativo que reúna viabilidade eleitoral e qualidade política. Marina pode se viabilizar eleitoralmente, mas sua candidatura não sinaliza um caminho consistente de reformas. Essa característica de baixa densidade política, especialmente em um momento de crise e de graves polarizações, tende a secundarizar seu papel, ainda que ela conte com expressiva base social e possa ser uma aliada importante. No campo mais tradicional da esquerda, Manuela e Boulos contribuirão com o debate, dando maior visibilidade a temas específicos, mas nada indica que possam oferecer alternativas políticas viáveis, seja por conta da dimensão dos seus partidos, seja pela herança em favor de respostas doutrinárias, uma espécie de refúgio que costuma blindar os marxistas diante dos desafios do mundo da vida.

O PT, bem, o PT, como todos sabem, oferece à Nação a candidatura de Lula (sem qualquer eixo programático), uma opção realizada em defesa da narrativa produzida desde o impeachment, a mesma que tem construído sucessivas derrotas ao partido e que, se for mantida, o conduzirá à marginalização política. Apresentar Lula como candidato, nos marcos legais conhecidos, afinal, equivale a oferecer à nação uma miragem. Quando aquilo que, para alguns, ainda parece sólido se desmanchar no ar, não haverá mais tempo para uma alternativa e boa parte da base social do PT terá migrado para outras candidaturas. Como parte da fatura cobrada pela despolitização e pelo cinismo, essa migração ocorrerá também em direção a alternativas situadas à direita.

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