Contra o fanatismo

Amós Oz, o mais influente escritor israelense da atualidade, ofereceu ao público do Fronteiras do Pensamento uma palestra encantadora na noite de quarta-feira (28), no salão de Atos da UFGRS. Sua vasta obra literária, com 20 romances traduzidos em dezenas de países, lhe rendeu amplo reconhecimento e seu nome já foi indicado ao Nobel de Literatura. Oz é também um ensaísta fecundo e um ativista comprometido com os Direitos Humanos, tendo sido um dos fundadores do movimento Paz Agora (Shalom Akhshav). Uma boa amostra de sua racionalidade pode ser conferida no livro “Como curar um fanático. Israel e Palestina: entre o certo e o certo” (Companhia das Letras, 2016, 104 p). No fundamental, sua posição política é orientada, pragmaticamente, pelo fim dos conflitos no Oriente Médio, a partir da proposição da convivência entre dois estados nacionais (um para os israelenses, outro para os palestinos), o que lhe afasta dos extremos e lhe oferece a experiência de ser pouco popular em seu país – onde já foi chamado de “traidor”. Para ele, o “grande Satã” não está representado pelo Ocidente, pelos EUA, pelos árabes ou pelo islamismo, mas sim pelo ódio e pelo fanatismo que crescem em todo o mundo, verdadeiras doenças mentais que podem nos contagiar.

A postura de alerta diante do fanatismo confere ao escritor uma importância ainda maior nesse momento. Pouco importa se nos referirmos a um jihadista, comprometido com a execução de “infiéis”, ou a um cristão fundamentalista, disposto a matar médicos “abortistas”, o fato é que um fanático, disse Oz, terá sempre respostas muito simples a oferecer, além de inimigos que personificam todo o mal e que lhe auxiliam na tarefa de arregimentar pessoas. Para ele, a curiosidade, assim como o humor, são antídotos poderosos contra o fanatismo: “fanáticos não têm senso de humor, e raramente são curiosos. Porque o humor corrói as bases do fanatismo, e a curiosidade agride o fanatismo ao trazer à baila o risco da aventura, questionando, e às vezes até descobrindo que suas próprias respostas estão erradas”. Por isso, o que distingue a boa literatura e a boa arte é a capacidade de “abrir um terceiro olho em nossa testa”. O bom texto altera a forma como vemos o mundo, enquanto o mau texto confirma nossas opiniões. Por isso, em “Como curar um fanático”, Oz diz que a fofoca também é filha da curiosidade, mas ela ama os clichês, que reiteram nossos preconceitos. “A boa literatura faz o oposto da fofoca: ela conta algo que não sabíamos, sobre nós mesmos ou sobre os outros. Ou algo que não queríamos saber”.

O Brasil, como ocorre em muitos outros países, vive uma época notadamente triste, marcada não só pela crise, mas pela ausência de perspectivas. De nós, o que de mais grave se roubou foi a esperança. Nesse deserto, a ameaça de um déspota não esclarecido se torna mais provável. O mesmo vazio estimula o fanatismo em suas várias dimensões, da política à religião. Não por acaso, somos, cada vez mais, assaltados por frases feitas e pela superficialidade dos comentários. Os fanáticos têm pressa. Para eles, todo gesto tendente à reflexão é uma perda de tempo. O que importa é a ação, como afirmava Mussolini. A ameaça à democracia e às parcas garantias se apresenta, entre nós, com  ênfase, pelo discurso da extrema direita e sua forma é o neofascismo. Essa plataforma disputará as próximas eleições presidenciais e terá uma legião de fanáticos a sua disposição.

A memória construída pelas experiências das câmaras de gás e do Gulag – afirmou Amós Oz – perdeu seu potencial imunizador. O medo – do imigrante, do muçulmano, do terrorista, do assaltante, do traficante, etc – tornaram o mundo mais permeável ao ódio; realidade inóspita que flerta com a morte e o horror.  O alarme, inequívoco e brutal, foi dado, como observou agudamente Eliane Brum, quando Bolsonaro homenageou, em sessão do Congresso, o mais notório torturador brasileiro. Naquela noite patética, nada sucedeu após a provocação perversa, absolutamente nada. Nenhum escândalo, sequer um grito de protesto. Um silêncio desse tamanho, e tudo o que nele transborda como vergonha, diz muito sobre as possibilidades trágicas emboscadas em nosso futuro.

Marcos Rolim, Zero Hora, julho de 2017.

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