Covardia

A covardia tem mil formas, mas é sempre anônima. Ela não se assume, não oferece endereço ou telefone e precisa das sombras para se realizar como maldade. A covardia gosta de andar travestida de indignação e escolhe como alvos aqueles que não podem se defender. A arma preferida dos covardes é a mentira. Não qualquer mentira, mas a mentira deslavada, enorme em sua infâmia, grande o suficiente para que os covardes pareçam grandes.
Vivemos em um país onde a covardia se desloca pelos corredores palacianos. Sempre esteve lá, é verdade, tramando seus venenos, articulando a vingança e administrando a oferta e a demanda de violência. Nessa história, a ideia moral daquele que o “camarada” Cláudio- está-tudo-sobre-controle Lembo denominou de “elite branca” pende de um chicote. Para a civilização que construímos – por sobre mais de três séculos de escravidão – a democracia sempre foi uma ideia incômoda, tanto quanto a ideia de direitos. E quando a plebe se agitou um pouco e alguns subalternos passaram a cantar de galo, a tigrada convocou a Pátria, a Família e a Propriedade, enquanto se preparava para aplaudir os milicos, Sim, porque os postes não podem mijar nos cachorros, não é mesmo?
Pagamos um preço altíssimo por não termos acertado contas com a ditadura. Covardia. Em seu estado puro, destilada pela vocação irrefreável da maioria dos nossos políticos pela acomodação e pelos privilégios. Na África do Sul – sim, lá onde os de baixo tomaram o poder e o tornaram negro – se ofereceu aos criminosos do apartheid a anistia. Mas o caminho exigido foi o da verdade. Para que alguém fosse anistiado, seria preciso relatar em uma comissão “De verdade e reconciliação” o crime praticado, por mais terrível que ele fosse. O país, então, ouviu os relatos como vísceras que se tivessem derramado sobre a mesa de jantar. E, por este caminho, se ofereceu o perdão e se produziu o reencontro do país consigo mesmo. No Brasil, fizemos o contrário: aprovamos uma anistia para impedir a verdade. O resultado é esta modorra cívica, esta indolência moral que nos permite ler a notícia do livro escrito pelo torturador da OBAN sem nem ter ânsia de vômito. Nosso passado nos espreita, então, como uma maldição. Ele está inteiro, por exemplo, nos emails apócrifos que circulam pela Internet falando contra os Direitos Humanos. Um lixo produzido pelos modernos feitores, com o qual se pretende transformar o ódio em política pública e que é recebido, via de regra, como expressão de uma banalidade. E ao invés de chamarmos a polícia para enfrentar esta ameaça, repassamos os emails.

A questão é: qual o futuro de um país onde não há apreço pela ideia dos Direitos Humanos e onde mesmo pessoas que não têm a desculpa de não terem estudado são capazes de reproduzir a lógica dos torturadores (que, por óbvio, sacam a pistola sempre que escutam a expressão “direitos humanos”)?

Marcos Rolim, Zero Hora, junho de 2006.

PS – A propósito: no próximo dia 20, às 19 horas, na Livraria Cultura (Bourbon Country), espero os amigos e todos os interessados no tema para o lançamento de meu livro “A Síndrome da Rainha Vermelha: policiamento e segurança pública no século XXI” (Zahar /Oxford University). Uma tentativa de discutir os caminhos mais promissores para as políticas de segurança pública em diálogo com as descobertas da moderna criminologia.

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