DÉJÀ VU

O texto “A noite de todos os horrores”, do jornalista Celito de Grandi, publicado em ZH do último domingo, reproduz os mesmos silêncios e preconceitos que caracterizaram a maior parte da cobertura da imprensa sobre o motim de 1994, no Presídio Central.

Como membros da comissão formada para tratar da rebelião, afirmamos que o RS esteve, naqueles dias, muito próximo de uma tragédia como a do Carandiru. Teríamos colhido resultado semelhante caso tivéssemos optado pelo confronto. Assinale-se que os esforços em favor da vida dos reféns só prevaleceram porque, além das posições que sustentamos, tivemos a sorte de contar com a lucidez de pessoas como o Cel. René Lacerda que, na reunião decisiva, onde foi vitorioso o caminho da negociação, afirmou que qualquer tentativa de ocupação da área onde estavam os amotinados redundaria, inevitavelmente, em dezenas de mortos, a começar pelos reféns, e que as vítimas seriam contadas às centenas caso a rebelião se alastrasse para as galerias do Central.

O texto, entretanto, passa ao largo do dilema real e toma como referência a opinião de um jornalista, Alexandre Bach, para quem “contra todas as práticas de negociação de reféns e com um discurso raso sobre defender direitos humanos, soltaram todos para uma aventura sangrenta na noite, sem liberar um único refém”.  Para se saber quem aprecia discursos rasos, entretanto, basta observar que a matéria assinala, já no seu início, que eram 27 reféns e que, quando da saída dos amotinados do Presídio Central, foram levados 10. Logo, 17 reféns foram liberados antes, ou não?  Negociamos todo o tempo a liberação de reféns, obtendo sucesso em diferentes momentos, inclusive quando da entrada de Melara e Linn, que foram trocados por quase todas as mulheres reféns.

O que ocorreu depois foi fruto da irresponsabilidade dos que abordaram os veículos com os reféns no seu interior. Esta postura foi a que contrariou toda e qualquer norma internacional e que redundou, também, na morte do inspetor e nos graves ferimentos que vitimaram o então diretor do Hospital Penitenciário. Nenhum deles foi alvejado pelos amotinados; o que, a par de todas as evidências, nunca foi registrado pela imprensa. Se todos os agentes de Estado tivessem agido como haviam se comprometido na comissão, a Brigada Militar – que acompanharia à distância os veículos – teria feito a abordagem no momento apropriado, evitando-se, assim, o desespero daquela noite.

 

Marcos Rolim* e Marco Antônio Bandeira Scapini**

*    Jornalista e sociólogo

**  Desembargador aposentado

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