EDUCAÇÃO E POLÍTICA

O tema da educação política é, por certo, muito importante em um país como o Brasil, marcado pela fragilidade das instituições democráticas e por um persistente afastamento da população dos processos de decisão. Determinadas expressões, como se sabe, podem adquirir sentidos os mais diversos, a depender dos contextos em que são pronunciadas ou dos paradigmas aos quais se vinculam. Alguém poderia, por exemplo, compreender a “educação política” como uma prática que afirma conteúdos políticos e, nesta esteira, situar que “toda educação é um ato político”. Vários são os pedagogos que repetem este “mantra” e muitos os professores que o aceitam como expressão de algo verdadeiro e importante. A idéia de que a educação é um ato político, entretanto, mais confunde as coisas do que as esclarece. A afirmação só é verdadeira como trivialidade: de fato, todo ato pedagógico é “político” no sentido de que toda a ação humana é política. Mas a frase introduz uma confusão, porque ao associar o ato pedagógico à política, dissolve a especificidade de ambos. Afinal, o que diferencia a política da educação? Esta pergunta não á apenas relevante, ela é essencial para que se compreenda as naturezas distintas das duas práticas.

Hannah Arendt ofereceu um caminho importante para que esta diferença seja compreendida, assinalando que, na política, temos um tipo de relação onde os sujeitos estão – pelo menos no plano dos princípios – em uma situação de igualdade. A própria idéia moderna de “cidadania”, tanto quanto o conceito de “república”, nos remetem para o plano da igualdade jurídica. Na ação política, temos sujeitos que interagem com os mesmos direitos. O mesmo não ocorre na educação. Ao falarmos em ato pedagógico, estamos diante de uma desigualdade pressuposta: alguém deve educar, alguém deve ser educado; um sujeito – o professor –  detém um conhecimento e se espera que, ao final de sua relação com outros sujeitos – os alunos-, parte deste conhecimento, pelo menos, tenha sido compartilhado e assimilado por estes. É claro que “o educador deve ser educado” e que todos – professores e alunos – podem aprender e ensinar ao longo do processo pedagógico. Mas isto não elimina, apenas complexifica, a desigualdade ontológica presente na natureza da educação.

Educar para a política significa, antes de tudo, educar para um tipo de prática cidadã onde se deve buscar, sobretudo, o interesse público. Para isso, algumas competências especiais são requeridas. Duas delas se destacam: a capacidade argumentativa e o respeito às diferenças. A “educação política”, neste sentido mais preciso, exige, assim, que o ato pedagógico promova o pensamento em torno de valores como a justiça, os direitos, a liberdade e a democracia.

Uma noção desenvolvida a respeito da “justiça” e dos “direitos” é o mesmo que uma competência moral. Uma educação para a política precisa estimular o amadurecimento do juízo moral, sem o que não se alcança a perspectiva universalista capaz de identificar os interesses mais amplamente generalizáveis em cada disputa. Pessoas com um nível moral não desenvolvido (situadas nos níveis pré-convencionais ou convencionais de moralidade identificados por Kohlberg) não conseguem ultrapassar as perspectivas particulares presentes nas disputas políticas. Por outro lado, sem que se valorize efetivamente a liberdade e a democracia os sujeitos não terão um verdadeiro apreço pelo debate público, nem serão capazes de questionar suas próprias convicções. Uma perspectiva do tipo abre espaços para concepções autoritárias e pode afirmar, em nome da política, sua própria negação.

Finalmente, uma educação para a política deve estar comprometida com a produção e o compartilhamento de um saber específico, aquele que afirma caminhos eficientes para mais liberdade e bem-estar e que se definem nos termos das diferentes políticas públicas. Neste sentido, educar para a política é, também, educar para a boa governança.

TAGS

Posts relacionados