EFEITO MATEUS

O desafio da educação é mesmo central para o futuro de qualquer país e ainda mais decisivo em nações como o Brasil. Só por isso, a recente campanha da RBS merece ser saudada. A educação está relacionada a muitos outros temas que vão dos indicadores da saúde ao crime; da capacidade de receber melhores salários até a chance de votar melhor ou de reduzir as taxas de abortamento. Pesquisa de Lochner e Moretti (The Effect of Education on Crime: Evidence from Prison Inmates, Arrests, and Self-Reports) demonstrou que terminar o ensino médio nos EUA reduz muito as chances de envolvimento com o crime (especialmente nos casos de homicídio, agressão violenta e furto/roubo de veículos). O professor Gláucio Ary Soares, um dos nossos melhores criminólogos, tem apresentado evidências de que, no Brasil, o “ponto de corte” para a redução do envolvimento com o crime está situado antes, na conclusão do ensino fundamental. Isto significa que o simples fato de aumentar os níveis médios de escolarização no Brasil em dois ou três anos pode reduzir fortemente as taxas criminais.

Pesquisa da Fundação Perseu Abramo (Diversidade Sexual e Homofobia no Brasil) encontrou que a escolaridade é um dos fatores que mais influenciam o nível de preconceito contra homossexuais. Quanto mais tempo de estudo, menos preconceituosas as pessoas tendem a ser. Um em cada quatro brasileiros é homofóbico – considerados assim os que transformam preconceitos em atitudes discriminatórias.  A variação de renda não tem grande impacto nesse comportamento, mas a escolaridade importa muito: entre os que nunca freqüentaram a escola, a homofobia atinge 52%; já entre os que possuem nível superior, ela cai para 10%.

Em cada tema relevante que se queira tratar, lá estará o desafio da educação a exigir de todos nós as respostas adequadas. Junto dele, a ciência ao invés das superstições e crendices; a importância dos diagnósticos competentes no lugar da improvisação; o prazer da leitura e a capacidade de fruição diante do belo e, sobretudo, o fascínio pela maior aventura entre todas que é a de buscar a verdade e o agir moral.

No Brasil, há décadas, a professora Esther Grossi tem sublinhado o que há de radical no desafio da alfabetização e muitos são os trabalhos que demonstram seus efeitos (ver, por exemplo, o excelente “Beginning to Read: thinking and leaning about print”, de Marilyn Jaeger Adams). Crianças que não são devidamente alfabetizadas – problema que atinge milhões de brasileiros incapazes de interpretar um texto simples – tendem a experimentar uma sucessão de outros eventos danosos em suas vidas. Este fenômeno, conhecido como “Efeito Mateus”, já foi aceito nos EUA como fundamento para a condenação de autoridades e gestores incompetentes.  Precisaremos chegar neste ponto?

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