A Parábola dos Cegos (1568), de Pieter Bruegel.

Ensaio sobre a cegueira

Estamos quase todos cegos. Não se sabe quando o processo começou, mas, de tanto ver superficialmente, de tanto se refestelar com frases feitas, com arremedos, com desculpas, bloqueamos a luz; ou, como o preferiu Saramago, fomos ofuscados por tanta luz e, ao invés do breu, cegamos de brancura. Vamos tateando o mundo, tocando as pernas do elefante sem ver o animal de tão grande, também porque chegamos ao sem fundo do cinismo e, ali, dentro de bunkers ideológicos, nos sentimos em casa, repetindo um mesmo mantra que já não se sabe mais se de igreja ou de partido.

Leio os jornais onde há informações sobre o número de infectados pelo coronavírus e sobre as mortes da Covid-19. A primeira informação é inútil e agrega enorme perigo, porque sugere realidade invertida. O número de pessoas infectadas é muitas vezes superior aos números oficiais, por óbvio, porque, no Brasil, quase todos os testados são os que apresentam os sintomas mais graves da doença e, muitas vezes, sequer eles. Já o número de mortes da Covid-19, embora mais próximo da realidade, comporta também subnotificação. Talvez, nunca possamos saber, exatamente, quantos morreram pela Covid-19.  Chama a atenção, entretanto, o crescimento dos óbitos por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Em Recife, nos primeiros quatro meses de 2019, morreram cinco pessoas com SRAG.  Este ano, no mesmo período, foram 525. Neste ano, até 28 de abril, havia 1.957 casos de SRAG conhecidos na Bahia, contra 401 casos registrados no mesmo intervalo em 2019. Também nesse período, o número de mortes por SRAG subiu de 31 para 241, uma variação de 677%. Em Minas Gerais, de 8 a 27 de março, as mortes por SRAG cresceram 360% na comparação com o mesmo período no ano anterior. No RS, o crescimento está na faixa dos 600%. Outros fenômenos podem estar na base dessa variação, inclusive uma maior taxa de registros para SRAG por conta da mudança de atitudes na pandemia. O fato é que não sabemos, porque vemos sem ver.

Alguns, então, confrontados com os desafios de monitoramento por ampla testagem, respondem, pateticamente, que não seria possível testar 200 milhões de habitantes. O fato é que nunca se tratou de testar “todas as pessoas”, mas de testar de forma criteriosa, com base em procedimentos epidemiológicos, como tem sido feito pelo estudo populacional do coronavírus que a UFPel conduz no Rio Grande do Sul, pioneiramente no mundo. A UFPel, assinale-se, possui uma tradição de estudos epidemiológicos que rivaliza com a melhor ciência produzida internacionalmente. Suas pesquisas, especialmente os “estudos de coorte” (em que se acompanha todos os nascidos em um determinado ano por toda a vida deles, medindo fatores de risco dentre outros elementos), já alteraram protocolos de atenção médica no mundo e mudaram orientações da OMS. Temos em nossas universidades trabalhos dessa magnitude que rendem centenas de artigos científicos publicados nas mais prestigiadas revistas científicas (journals) do mundo, mas seus autores são desconhecidos do público.

Pesquisa científica no Brasil sempre foi um palavrão, inclusive para uma certa tradição dita “progressista” que trata estatística como sinônimo de positivismo americano e que adora conversa fiada. Mais recentemente, entretanto, surgiu um discurso pelo qual o desconhecimento é tratado como virtude. Há mesmo um elogio da ignorância, que emerge no ideário neofascista, porque essa perspectiva precisa deslegitimar o conhecimento e a Ciência para que seus exércitos de energúmenos avancem. O populismo, aliás, independente de vertentes ideológicas, sempre precisou flertar com a burrice, porque se alimenta do simplificado e da noção manipulatória de que o grande líder é, verdadeiramente, uma pessoa “singela e autêntica”. O discurso do líder populista traduz a tentativa de uma identidade “com o povo”, o que só se alcança na construção de uma mitologia, recurso eficiente na produção da cegueira político-ideológica e na construção de submissão e moralidade decrépita. Ocorre que vivemos algo ainda mais grave que a incapacidade de ver. A cegueira alimentada pela extrema-direita é de ordem alucinatória e mobiliza projeções orgiásticas com temas como masturbação, pedofilia, golden shower, estranhas mamadeiras e kits gays.

Em meio às trevas, há um novo e radical fenômeno: passamos a lidar com ameaça do desaparecimento da esfera pública. Hitler precisou do rádio para que sua fúria hipnotizasse o povo alemão e preparassem as câmaras de gás. O neofascismo necessita das redes sociais e, particularmente, do WhatsApp. Alimentados pela mentira sistemática, sempre anônima e sem referências que permitam a checagem das informações, a extrema-direita produz uma realidade encantada por monstros, feiticeiros e heróis, contando historinhas para adultos tão alienados quanto os infelizes presos do mito da caverna platônica que só podiam ver sombras. Com essas plataformas, o gabinete do ódio montado pelo bolsonarismo constrói um mundo apartado do mundo, um espaço assustador cuja moldura são os grandes medos e as grandes raivas e que não pode ser contrastado pelo debate público, porque erguido no fundo da caverna da vida privada de cada um.

Os que habitam as bolhas bolsonaristas vivem, assim, em uma espécie de “estado lisérgico de natureza” onde todas as vozes discordantes são comunistas, onde o aquecimento global é uma ficção; o coronavírus foi produzido em laboratórios chineses; Leonardo DiCaprio financia incêndios na Amazônia e Dória é um agente das Farc. Sabendo apenas das sombras, é a civilização que é tomada como ameaça real. Tudo o que o foi construído em nome do Estado Democrático de Direito é, por decorrência, suspeito e a felicidade é uma arma fumegante. Passamos a enfrentar cegos delirantes e armados, e no meio da mais grave pandemia em 100 anos. O que conta, agora, é como evitar que a tragédia de proporções bíblicas em curso se alargue, impulsionada pelos criminosos discursos negacionistas do neofascismo. Nesse mundo, quem tem um olho é aliado e quem tem dois merece nosso apoio incondicional.

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