ENTRE O RUIM E O PIOR

Estamos em plena campanha eleitoral que definirá os ocupantes dos principais cargos políticos do País, na presidência da República, nos governos estaduais, nas Assembleias Legislativas, na Câmara e no Senado. Como tem ocorrido no Brasil, o calendário eleitoral não parece mobilizar o interesse da maioria. Para milhões de brasileiros, aliás, talvez as eleições sejam, sobretudo, um incômodo.

Há muitas formas de se interpretar este desinteresse. Por um lado, a estranheza diante da política é marca coerente em um País de rarefeita experiência democrática. Entre nós, sequer foi possível que os valores da democracia se transformassem em cultura e há, como se sabe, opiniões assumidamente autoritárias e violentas compartilhadas entre todas as camadas e em diferentes níveis de escolarização.

De outra parte, as práticas políticas hegemônicas no Brasil não oferecem razões para que os eleitores se identifiquem com ela. Aliás, chamar a atividade desempenhada por partidos, governantes e parlamentares no Brasil de “política” talvez seja uma impropriedade. A ação política, com efeito, é aquela que se estrutura a partir do debate público em torno de ideias e de propostas de intervenção no mundo. Partidos políticos são, idealmente, associações formadas para que as pessoas lutem em favor de propostas. Os brasileiros, mesmo os mais atentos, não saberão identificar, entretanto, uma só luta travada pelos partidos políticos tradicionais no Brasil nos últimos 20 anos. Não há propriamente uma disputa por ideias entre os partidos, tampouco propostas de políticas públicas, razão pela qual temos construído uma democracia sem política. O resultado é o deserto e parece compreensível que as pessoas não se interessem por desertos.

Há ainda o direito à indiferença política. Os que vivem mergulhados na esfera privada, afinal, não podem ser obrigados à participação. O voto obrigatório é, por isso mesmo, instituição aviltante que importa superar. Votar é manifestação de consciência e vontade. Os que não possuem vontade, não costumam também ter consciência e seria, no mais, salutar que se afastessem das urnas.

O esforço pela mobilização nas campanhas, então, exige apelo complexo. A política é isso que conhecemos, afirmam os arautos do mesmo, mas será ainda pior se o desinteresse se ampliar. Somos convocados, então, para evitar o pior. O argumento não é desprovido de sentido. Afinal, nada é tão ruim que não possa piorar. Esse é o ponto ao qual chegamos.

Marcos Rolim  – ZH, 20/07/2014.

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