ENTREGANDO AS CHAVES

Uma das peças publicitárias mais comentadas das últimas eleições presidenciais foi um comercial da campanha de Dilma Rousseff na TV em que se mostrava um grupo de banqueiros animados em uma reunião e, ato contínuo, a cena de uma família jantando. O locutor afirmava que, se eleita, “Marina iria entregar o País para os banqueiros”. A comida, então, desaparecia da mesa, para o desespero das pessoas. Marina poderia ter respondido com outro comercial, com um grupo de empreiteiros em torno de uma mesa e outra família etc. O áudio poderia falar algo a respeito de negociatas com a Petrobrás, doleiros e políticos que enriquecem magicamente e partidos que nunca mais precisaram se preocupar com financiamento eleitoral. O fato é que não o fez. Ambas as escolhas dizem muito mais a respeito da disputa que tivemos do que todos os debates da campanha somados.

Passadas as eleições, a presidenta Dilma escolheu Joaquim Levy, diretor da Bradesco Asset Management como ministro da Fazenda. Antes, havia convidado Luiz Carlos Trabuco, presidente do Bradesco. Levy integrou o governo Fernando Henrique, foi secretário do Tesouro no primeiro governo Lula e é conhecido por suas posições ortodoxas e pró-mercado. Os investidores, claro, reagiram muito bem à escolha. No “novo governo, novas ideias”, a senadora Kátia Abreu (PMDB/TO, ex PSD e ex DEM) ocupará o ministério da Agricultura. Chamada de “miss desmatamento” pelos ambientalistas, a destacada liderança do latifúndio também é conhecida por sua hostilidade aos povos indígenas e pela defesa de que os reajustes do salário mínimo não sejam mais “tão generosos”, entre outras pérolas do ideário do século XVIII.

Muitos imaginam que perfis assim tenham a ver com a necessidade de ajustes na economia. Parece, mas não é. O que comanda as indicações é a urgência política de ampliar apoio entre os conservadores para amortecer os impactos dos escândalos de corrupção. O segundo governo Dilma tende a ser, por isso, mais dependente da “Casa Grande” do que o primeiro e ainda menos vocacionado a reformas. A turma que comeu bolinha de cinamomo terá mais dificuldade em alertar o Brasil para os “riscos do comunismo”, mas essa será, possivelmente, a única vantagem. Refém do “andar de cima”, o PT é cada vez mais uma caricatura dele próprio. Nela, seus candidatos atacam os adversários como “demônios da direita”. Depois de eleitos, entretanto, convocam todos os “diabos” e lhes entregam as chaves.

Marcos Rolim, Zero Hora, dezembro de 2014.

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