ESPÍRITO SANTO

Alexandre Martins de Castro Filho era Juiz de Direito e tinha 32 anos. Foi assassinado em 24 de março de 2003, em Vila Velha, no Espírito Santo. Ele estava saindo de seu carro, cedo pela manhã, quando foi alvejado por dois homens que estavam em uma moto. Antes disso, Alexandre foi ameaçado muitas vezes. Tentaram, mas não conseguiram, intimidá-lo. Então o mataram. Os assassinos foram identificados, presos e julgados; mas os mandantes do crime seguem impunes. Entre eles, estão várias autoridades civis e militares e, muito possivelmente, um Juiz denunciado por Alexandre como corrupto.

Antes deste crime, vários homicídios de encomenda já caracterizavam o Espírito Santo. Em abril de 2002, por exemplo, o advogado Joaquim Marcelo Denadai, que havia denunciado fraudes em licitações na área de limpeza urbana, havia sido morto. Os protestos em todo o país e a firme posição da OAB fizeram com que o então presidente Fernando Henrique Cardoso cogitasse intervir no Espírito Santo. Então, seu Ministro da Justiça, Miguel Reale Júnior, anunciou a intervenção federal. Pressões políticas sobre o governo e cálculos eleitorais (o governador do Espírito Santo chamava-se José Ignácio e era do PSDB), entretanto, fizeram com que Fernando Henrique recuasse da idéia. Miguel Reale, como homem digno, é claro, deixou o ministério.

A história do crime organizado naquele estado e a luta, até agora exitosa, que tem sido travada contra aquilo que se poderia denominar um “Estado bandido” é contada pela primeira vez em um livro imprescindível chamado “Espírito Santo” (Objetiva, 234 pág.), escrito por Luiz Eduardo Soares, Carlos Eduardo Ribeiro Lemos e Rodney Rocha Miranda.  Luiz Eduardo foi Secretário Nacional de Segurança Pública ao início do primeiro governo Lula; Carlos Eduardo é Juiz e dividia com Alexandre todas as tarefas da luta contra a corrupção; Rodney é Policial Federal e Secretário de Segurança Pública no estado.

Há livros que não nos permitem largá-los. Este é um deles. A revelação do “modus operandi” da quadrilha, seus métodos cruéis e sua desfaçatez, o envolvimento das cúpulas das polícias, a participação de políticos locais – um deles chegou a ser presidente da Assembléia Legislativa – e de magistrados, entre outras autoridades, nos causam perplexidade e horror. O livro, entretanto, é também pleno de esperança. O que ele nos mostra, de uma maneira simples e convincente, é que é possível derrotar o crime, mesmo quando ele é praticado por bandidos engravatados ou por policiais assassinos. É preciso coragem para isto, é claro. Riscos pessoais precisarão ser enfrentados e aqueles que estiverem empenhados nas investigações – sejam eles magistrados, promotores, políticos sérios ou policiais honrados – devem tomar medidas especiais de segurança. Mas combinando esforços, ainda que, a princípio, apenas de algumas poucas pessoas determinadas, é possível desbaratar os esquemas delituosos armados pelas elites e responsabilizar a sem-vergonhice toda.

Ah, antes que eu me esqueça, o livro pode ser muito útil para se compreender algumas coisas que têm ocorrido no Rio Grande do Sul ultimamente.

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