EVITA

Há filmes que nos marcam profundamente e que nos acompanham. Como determinados livros, certas composições musicais, algumas esculturas, peças ou quadros. A experiência de fruição do belo na relação dos humanos com a grande obra de arte faz-se acompanhar por esta característica inconfundível: a permanência. O que parece ser verdadeiro em um duplo sentido: de um lado, a permanência em nós mesmos como experiência que pode ser renovada sempre com o mesmo prazer; de outro, a permanência histórica; vale dizer, a permanência nos outros como valoração que se projeta no tempo.

Assinalo isto, de início, para justificar porque decidi escrever sobre o filme de Alan Parker, “EVITA”. Ocorre que desde quando o assisti ele tem teimado em permanecer comigo. Trata-se de uma verdadeira obra de arte capaz de nos envolver e apaixonar. Em regra, não me agradam os musicais. Tenho poucas recordações do gênero e algumas decepções. Nada, entretanto, pode ser comparado à experiência estética que a super-produção deste musical está a nos oferecer. “EVITA” parece ser mesmo muito mais do que um filme.

É certo que muitos não resistirão a confrontar a versão apresentada pelo diretor, tanto quanto o próprio conteúdo da ópera pop, com a realidade histórica do fenômeno peronista. A maior parte dos argentinos, tanto quanto o sabemos, recebeu a obra na dimensão de um documentário e, é claro, detestou. Evita e Perón são mitos nacionais e os mitos não suportam a lembrança de que, ao fim e ao cabo, estamos a falar de seres humanos com qualidades extraordinárias e defeitos insuportáveis. Ocorre que o resultado da obra de arte cria uma realidade própria que pode expressar, ou não, simetrias com os fenômenos históricos, políticos ou sociais. Entretanto, não se julga a obra por estas simetrias, senão por outro motivo porque não estamos tratando com qualquer ciência histórica, mas com arte. Ainda, assim, o enredo de “EVITA” parece expressar bastante bem a potência e os limites da tradição populista latino-americana com um discernimento incomum. O autoritarismo e a manipulação estão lá, tanto quanto a paixão e a entrega contruídas junto ao povo. Em verdade, o filme encerra lições fundamentais e nos facilita o entendimento da realidade política que nos constituiu, a nós a aos argentinos.

Evita foi uma das lideranças políticas mais fascinantes desta América. Sua trajetória deveria, ainda, merecer estudos e reflexões. A devoção do povo argentino a sua figura – uma espécie de santa emergente da plebe rude- talvez não tenha paralelo histórico cabível. O filme nos permite vislumbrar um tanto desta emoção e o faz de forma grandiosa. Nos permite reconhecer, sobretudo, uma época onde as lideranças políticas foram amadas. Só esta lembrança -capaz de nos estranhar- o justificaria plenamente.

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