“As possibilidades de manipulação política no uso dessas ferramentas ficaram evidentes nas últimas eleições presidenciais no Brasil com a sistemática disseminação de ataques virulentos e falsos que especularam com fobias e preconceitos estabelecidos socialmente”

Fake news e distorção cognitiva

Pesquisadores sugerem que estamos propensos a um tipo especial de distorção cognitiva motivada por nossos valores e que conservadores seriam mais suscetíveis a serem vitimados por notícias falsas, porque estão mais expostos na Internet a esse tipo de lixo e porque confiariam mais em sua intuição

As plataformas digitais que permitem interação e extraordinária disseminação de informações produziram expectativas benignas ao início. Quando do aparecimento das primeiras redes sociais, se falou muito, por exemplo, nas possibilidades de democratização da informação. A obra de Yochai Benkler, The Wealth of Networks: How Social Production Transforms Markets and Freedom (A riqueza das redes: como a produção social transforma os mercados e a liberdade), lançada em 2006, é um dos textos clássicos desse período.

De lá para cá, descobrimos que as novas tecnologias de comunicação também abrigam graves ameaças à democracia. O próprio professor Benkler é, hoje, um dos mais destacados pesquisadores a respeito das redes de desinformação. Recentemente, ele participou do estudo  Network Propaganda: Manipulation, Disinformation, and Radicalization in American Politics (Propaganda de Rede: Manipulação, Desinformação e Radicalização na Política Americana), que analisou, com o emprego do software Media Cloud, aproximadamente 2 milhões de matérias publicadas nas redes durante a campanha presidencial de 2016 nos EUA e mais 1,9 milhão de histórias que circularam na Internet no primeiro ano do governo Trump.

O estudo concluiu que o veneno da desonestidade tem sido disseminado, nos EUA, principalmente por alguns grupos de extrema-direita. O mapa envolve Fox News, Breibart, The Daily Caller, InfoWars e Zero Hedge como os locais onde as mentiras são criadas, para posterior disseminação pelas redes sociais e outras mídias. Também há desinformação, mentiras e distorções produzidas pela esquerda ou criadas no ambiente que os autores designam como “área democrática”, mas que não são equivalentes em volume e disseminação (há uma ótima resenha sobre esse trabalho, de Anya Schiffrin, em The digital destruction of democracy – A destruição digital da democracia).

Outro estudo, conduzido por Craig Harper e Thom Baguley, You are Fake News: Ideological (A)symmetries in Perceptions of Media Legitimacy (Você é uma Notícia Falsa: (A)simetrias Ideológicas nas Percepções de Legitimidade da Mídia), analisou três trabalhos com amostras americanas e britânicas para saber se haveria diferença na predisposição de liberais e conservadores para acreditar em notícias falsas, descobrindo que ambos tendem a legitimar notícias falsas que confirmam seus valores ideológicos.

A pesquisa sugere que estamos, todos, propensos a um tipo especial de distorção cognitiva motivada por nossos valores. O estudo descobriu, entretanto, uma assimetria: conservadores seriam mais suscetíveis, na média, a serem vitimados por notícias falsas, porque estão mais expostos na Internet a esse tipo de lixo e porque confiariam mais em sua intuição. Ao mesmo tempo, os pesquisadores encontraram evidências de que um subgrupo entre os liberais que tiveram maiores escores em uma escala de “narcisismo coletivo” – fenômeno em que um grupo imagina que suas opiniões sejam “superiores” – revelou inclinação maior em legitimar uma notícia falsa “confirmadora” de seus valores.  Em outras palavras, tanto à direita quanto à esquerda, quanto mais um grupo se imaginar o “sal da terra”, expressão confirmada da “pureza”, da “honestidade”, da “verdade” etc., maior será sua tendência de acreditar em “mentiras confirmadoras”.

Sempre existiram notícias falsas ou mentiras alimentadas por interesse político. Há duas diferenças básicas atualmente: a) fake news podem “viralizar” na Internet, enganando centenas de milhares de pessoas em segundos e b) isso pode ocorrer com o uso de plataformas como o WhatsApp, por exemplo, em uma relação não pública, sem que se identifiquem os responsáveis pela mentira. As possibilidades de manipulação política no uso dessas ferramentas, assinale-se, ficaram evidentes nas últimas eleições presidenciais no Brasil com a sistemática disseminação de ataques virulentos e falsos que especularam com fobias e preconceitos estabelecidos socialmente.

Há, ainda, novos problemas: um deles tem a ver com a formação das “bolhas” digitais. Sempre que interagimos nas redes sociais e procuramos temas na Internet, alimentamos mecanismos automáticos de processamento de dados que nos oferecem sugestões similares aos da busca. A socióloga turca Zeynep Tufekci abordou o tema em uma palestra memorável no TED sob o título We are building a dystopia just to make people click on ads (Estamos construindo uma distopia apenas para que as pessoas cliquem nos anúncios). Ela conta, por exemplo, que, após assistir a alguns discursos de Trump no YouTube, passou a receber sugestões de sites de “Supremacia Branca”. Ao clicar nessas sugestões, discursos ainda mais racistas e violentos lhe foram oferecidos pelos algoritmos do sistema. Recentemente, o YouTube anunciou que irá reduzir recomendações com “conteúdos prejudiciais” como vídeos que anunciam curas milagrosas, que afirmam que a Terra é plana ou que mentem descaradamente sobre eventos históricos.

Será preciso repensar amplamente o funcionamento dessas plataformas, de maneira a preservar a liberdade e, ao mesmo tempo, permitir a responsabilização dos manipuladores. Sem isso, teremos, cada vez mais, pessoas sendo conduzidas ao absurdo e à ignorância e se alimentando de ódio na formação de “bolhas” na rede, fenômeno que concorre, como destaca Tufekci, para a destruição da base comum de informações que poderia fundar um debate político racional.

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