LINCOLN E WEBER

Em 1919, Max Weber realizou uma conferência na Universidade de Munique que se tornaria célebre. O texto apresentado chamou-se “A Política como Vocação”. Para Weber, a política deve ser compreendida como uma atividade peculiar onde, muitas vezes, o “bem” pode gerar o “mal”. Com esta expressão, Weber chama a atenção para o fato de que, na atividade política, não é rigorosamente possível que o sujeito se oriente apenas segundo suas convicções, porque é da natureza da atividade que aqueles que decidem ponderem sobre as consequências dos seus atos. Para ficar mais claro, imaginemos que um político pacifista, com uma vida inteira dedicada à luta contra a violência e a guerra, vença as eleições para a presidência de seu país. Alguns meses após sua posse, seu país é invadido por tropas de uma nação vizinha interessada em tomar-lhe parte do território. Neste momento, caberá ao presidente pacifista declarar guerra. Ainda que ele jamais desejasse este resultado, sua responsabilidade como primeiro mandatário assim o exige, sob pena de submeter seu povo ao domínio estrangeiro.

Por isso, Weber nos falou a respeito da “ética da convicção” e da “ética da responsabilidade”. A primeira nos permite uma orientação segundo princípios; a segunda exige do político que considere as consequências práticas dos seus atos. O político por excelência, o grande político, seria aquele capaz de combinar estas duas éticas. Vale dizer: alguém capaz de ser, tanto quanto possível, fiel aos seus princípios e, ao mesmo tempo, capaz de flexibilizá-los em nome de resultados que se imponham na defesa do bem comum. Um político orientado apenas pela “ética da convicção” não seria capaz de incidir sobre o presente para mudá-lo. Sua conduta se assemelharia a de um pastor que repetisse o mesmo sermão, buscando converter os demais, e sua perspectiva seria a da impotência. Já um político que se orientasse apenas pela “ética da responsabilidade”, estaria sempre a um passo da degradação. O pragmatismo despregado de qualquer princípio moral faria com que ele fosse eficiente em seus objetivos de poder, mas sua perspectiva seria a da delinquência.

O filme Lincoln, de Steven Spielberg, trata desta tensão própria da política, com raro brilhantismo, para dizer o mínimo. Além da atuação de Daniel Day-Lewis no papel principal, Tommy Lee Jones e Sally Field também valem o ingresso. Abraham Lincoln (1809-1865), 16º presidente dos EUA, conduziu o País na guerra civil e lutou pela abolição da escravatura. O filme se concentra nos meses finais da guerra de secessão e nos esforços do presidente para garantir os votos necessários à aprovação da 13ª emenda que traria a abolição. Então, Lincoln – “o mais puro dos homens” –  emprega meios, digamos, “pouco republicanos”. O contraste entre a sordidez dos meios e a humanidade radical do fim proposto é perturbador e exige o pensamento.  O filme, por isso mesmo, escapa ao maniqueísmo e parece brincar com a superficialidade com a qual a política é costumeiramente tratada. Nem todos gostam, claro. Já Max Weber adoraria.

 

Marcos Rolim – Zero Hora, 24 de fevereiro de 2013.

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