Mundos paralelos

Um dos fenômenos mais impressionantes de nossa época é a formação de “mundos paralelos” onde as convicções se robustecem sem que seus habitantes percebam que vivem progressivamente apartados da realidade, mergulhados em uma bolha de significados radicalmente falsos.

Antes das redes sociais, o processo mais significativo de informação se dava na esfera pública delineada pelas TVs e rádios e pela circulação de jornais, revistas e livros. Essa esfera foi sendo alargada por sites, blogs e por plataformas como o Facebook, além de milhares de aplicativos que prometiam conectar as pessoas e transformá-las em produtoras de conteúdo. A indisposição com os meios tradicionais de comunicação, alimentada pela denúncia da tendenciosidade dos noticiários, impediu que a maioria dos críticos percebesse que as novas tecnologias traziam ameaças muito mais graves, entre elas a desconstituição da esfera pública e a submissão da cidadania à pós-verdade.

Se uma notícia contém informação incorreta, é normalmente do interesse do veículo corrigi-la, porque o elemento capaz de lhe agregar valor é sua credibilidade. Por isso, mesmo as manipulações editoriais da imprensa não podem ignorar os fatos. É possível não dizer, não ouvir uma fonte, dar declaração fora de contexto, justapor maldosamente fotos de desafetos com notícias sobre tragédias ou crimes, entre outros artifícios. O que nunca foi possível à imprensa tradicional foi desligar-se do mundo e inventar outro. Por trás de todas as matérias, editoriais e artigos sempre houve um mesmo mundo, por mais fragmentado que ele fosse, o que nos ofereceu uma realidade comum, sobre a qual foi possível projetar críticas, demandas, lembranças e conexões. É isso que estamos perdendo.

Então, Trump pode dizer que Obama nasceu no Quênia, entre muitas outras bobagens, sem se desmoralizar. Segundo levantamento do Washington Post, aliás, só no primeiro ano de mandato, Trump produziu 1.950 declarações falsas. No Brasil, Bolsonaro tem a mesma aptidão pela mentira e é capaz de afirmar que Miriam Leitão “não foi torturada”; que Fernando Santa Cruz “foi morto por seus companheiros” e não pela ditadura; que “não há fome no Brasil”, que os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre o desemprego estão errados e que o sistema de monitoramento via satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) sobre o desmatamento não deve ser considerado, demitindo sumariamente Ricardo Galvão, um dos nossos mais respeitáveis cientistas. Nada disso altera as convicções da bolha bolsonarista que recebe, ao mesmo tempo, mensagens lisérgicas sobre cada um desses pontos, via WhatsApp, que não podem ser contestadas, porque anônimas e não-públicas.

Pode-se compreender melhor a radicalidade desse processo em “Privacidade hackeada”, documentário disponível na Netflix, a respeito das estratégias desenvolvidas pela Cambridge Analytics em campanhas eleitorais pelo mundo, com foco na campanha de Trump e no Brexit. Vale muito assistir, também, às palestras no TED da socióloga turca Zeynep Tufekci, “We are building a dystopia just to make people click on ads” (“Estamos construindo uma distopia, apenas para fazer as pessoas clicarem em propaganda”) e da jornalista inglesa, Carole Cadwalladr, “Facebook role in Brexit, and the treat to democracy“ (“O papel do Facebook no Brexit e a ameaça à democracia”).

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