MV BILL, O CARA

Há um movimento cultural no Brasil que ainda recebe pouca atenção e que segue amaldiçoado pela ideia da marginalidade. Possivelmente, nenhuma outra corrente na música, na dança ou na poesia cresceu tanto em nosso País na última década e significa tanto para tantos jovens. Estou falando do Hip Hop. Dentro dele, o Rap, a rima que se derrama pelo ritmo e que dá voz às periferias, tem propiciado a formação de centenas de grupos em todo o país e cativado um público fiel e militante. O Rap é coisa negra, feito basicamente por negros, moradores de vilas, favelas e bairros pobres. Não só porque a pobreza tem cor no Brasil, mas porque o ritmo, a dança e a história do Rap têm sido escritos por negros desde o seu começo, nos EUA. Também por isso, os rappers, assim como os dançarinos de break, são vistos com desdém pelo asfalto e são obrigados a enfrentar a violência policial e a intolerância da tigrada que não gosta de periferia, nem de negros.

Conheci o Rap brasileiro e me liguei na história quando os Racionais surgiram como um fenômeno. Depois deles, vieram muitos outros, mas talvez ninguém represente tanto hoje como MV Bill. Pois o cara, além do que tem feito na mobilização da CUFA – a Central Única das Favelas – que ajudou a criar; além da denúncia da realidade vivida fora das crônicas sociais – onde, não sei se vocês já perceberam, não há negros – e de uma notável obra social no Rio e na Cidade de Deus, onde mora, está realizando um trabalho inédito de pesquisa com jovens brasileiros envolvidos com o tráfico de drogas. Uma parte deste trabalho pode ser checada em “Cabeça de Porco” (Editora Objetiva, 295 pág.), o impactante e fundamental livro escrito por Bill, Celso Athayde e Luiz Eduardo Soares.

Estive no show de MV Bill, no Opinião, na última quinta feira, e saí de lá convencido de que o Brasil já tem uma liderança negra tão importante quanto Malcon X. A presença de Bill no palco é mágica. Ele ocupa o espaço com uma força tal e com um carisma que tudo a sua volta o reverencia. Então começa a cantar a sua poesia é uma navalha que vai nos cortando por dentro, nos mostrando o que de melhor um povo sofrido, doce e aguerrido pode oferecer: sua dignidade, seu olhar altivo, sua cara limpa. Na plateia, uma multidão de meninos e meninas pobres, cabelos encaracolados, bonés, tatuagens e calças largas, acompanhavam todos os versos como quem desabafa e tira de si o peso do mundo. Esses jovens não fazem política, não sabem quem é Delúbio ou Roberto Jefferson. Não estão perdendo nada, em síntese. Mas a política perde muito ao desconhecê-los. O Rap é uma prece pagã, uma promessa de igualdade e respeito; um hino triste e solidário que reúne esperança e que agrega identidade.

Ao falar da violência, da discriminação e da dor, o Rap simboliza, produz conceito para o que, antes, era só raiva e frustração. Vai, então, construindo um caminho e mudando a própria realidade que denuncia. Por isso, é preciso entender que, nas grandes cidades, a paz passa pelo Rap. E MV Bill, pessoal, é o cara!

Posts relacionados