democracia

Ninguém solta a mão de ninguém

Na reta final da campanha, já no 2º turno, muita gente saiu às ruas para tentar reverter votos e impedir que Bolsonaro fosse vitorioso. Nessa militância havia um pouco de tudo, mas a grande maioria dos ativistas foi formada por jovens independentes que perceberam um perigo real para a democracia e os direitos humanos. Em todo o Brasil, por fora das estruturas tradicionais de partidos, sindicatos ou associações, centenas de milhares desses jovens se mobilizaram em favor da vida e o fizerem com uma garra e uma esperança emocionantes.

Nesse processo, criaram novas formas de abordagem e argumentação. Uma das iniciativas interessantes foi um jogo de cartas disponibilizado no “Tese Onze”, canal do YouTube da socióloga Sabrina Fernandes, pesquisadora da UNB. A ideia é muito simples: as cartas continham propostas dos programas de governo dos dois candidatos. Quem estivesse disposto a participar do jogo deveria dizer se concordava ou não com cada uma das propostas, sem ser informado sobre qual dos candidatos a havia apresentado. As cartas eram, então, separadas em dois montes: um com as propostas aprovadas pela pessoa e outro com aquelas que ela rejeitava. A final, as cartas eram viradas mostrando a autoria das propostas. O resultado foi que a ampla maioria dos eleitores/as apoiava as propostas do programa de Haddad e não aceitava as de Bolsonaro, o que gerou perplexidade e mesmo descrença. -“Não pode ser verdade”, diziam alguns.

O jogo é um micro experimento social que confirma importante evidência: as pessoas costumam selecionar seus candidatos não por propostas, mas por narrativas associadas a eles ou a seus adversários. Pesquisa realizada pelo Data Folha em outubro, aliás, encontrou que a maioria dos eleitores não acompanha Bolsonaro em temas como acesso às armas, homofobia e valorização da ditadura. Para 55% dos brasileiros “a posse de armas de fogo deveria ser proibida”; para 74%, “os homossexuais devem ser aceitos por toda a sociedade” e para 69%, “a democracia é sempre a melhor forma de governo”.  No Brasil, mais que em outros países, o voto é, frequentemente, manifestação superficial de aderência a uma escala de afetos, o que envolve desde a raiva, até a solidariedade, passando por sentimentos variados e não necessariamente coerentes. Quando Sérgio Buarque de Holanda nos falou em “homem cordial” era exatamente a isso que se referia. Para ele, os brasileiros teriam uma tendência muito mais pronunciada às escolhas emotivas, “do coração” (córdio), ou seja, pouco racionais.

 Processos eleitorais centrados em personalidades são despolitizados no sentido de que mobilizam o eleitorado por todos os recursos, menos pela defesa de propostas políticas. Assim, no voto da maioria das pessoas há uma narrativa precária, à esquerda e à direita, mas raramente uma aderência política resultante de um processo autônomo de reflexão. Um dos fenômenos que vivemos nas eleições de 2018 foi o desenvolvimento, em escala ainda não conhecida, dessa despolitização. A campanha de Bolsonaro nunca pretendeu apresentar propostas ou deixar claro o que seria seu governo. Ele sequer registrou um programa, mas uma espécie de power point mal feito, com frases genéricas e desarticuladas, chamado “O caminho da prosperidade”. O discurso que o candidato dissemina, entretanto, é claríssimo e se funde, simbolicamente, com as aspirações populares por honestidade na política e por segurança.

Há “fortes sinais” que permitem duvidar da honestidade do clã Bolsonaro e tudo indica que seu governo enfrentará problemas sérios também no que tange à corrupção. Por outro lado, as ideias do novo presidente sobre segurança pública, caso sejam implementadas, produzirão mais violência, não menos. Isso pouco importou, entretanto. Uma das razões prende-se ao fato de que o PT não tinha o que falar sobre corrupção, sendo, pelo contrário, largamente identificado no imaginário social como envolvido com ela. Independentemente do que há de justo e/ou de injusto nessa identificação, ela é um fenômeno de extraordinária importância que deveria ter merecido tratamento radical pelo partido, o que nunca ocorreu. Os governos Lula e Dilma não conceberam políticas exitosas na área da Segurança, a par dos esforços feitos com o Pronasci. Um exame criterioso a respeito, aliás, encontrará retrocessos históricos como a introdução do Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) na Lei de Execução Penal, as Operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO)  e a Lei Antiterrorismo, circunstâncias que também limitaram o discurso do candidato do PT. No duro quadro político que recebeu como herança, assinale-se, Haddad teve bom desempenho e sua postura digna constituiu um capital importante.

Bolsonaro sempre verbalizou suas ideias de forma agressiva, desrespeitosa e mesmo virulenta, o que foi assimilado como “indignação autêntica”, um resultado para o qual nosso déficit civilizatório contribuiu muito. Seu discurso despertou indignação mundial e foi rechaçado até por líderes da extrema direita europeia como Marine Le Pen. A imprensa internacional, inclusive publicações liberais como The Economist, retrataram Bolsonaro como uma ameaça horripilante. A única nota de solidariedade externa à Bolsonaro veio de Dave Duke, ex-líder da Ku Klux Klan, que disse: “Ele soa como nós”. No Brasil, entretanto, Bolsonaro foi aceito como parte da paisagem, como se nada em sua trajetória e em suas posições inspirasse preocupação.

As coisas devem ser ditas por seus nomes verdadeiros. As eleições de 2018 assinalaram a mais séria derrota da esquerda desde a redemocratização. Muito mais grave, introduziram no coração da democracia brasileira uma bomba relógio. Bolsonaro é um homem da guerra fria. Quando usei essa expressão em uma conversa essa semana, Gunther Axt, acrescentou, com razão, “dos porões da guerra fria”. Dito de outra forma, o Brasil conduziu à presidência uma figura sinistra cujos valores se espelham na trajetória dos indivíduos que cometeram alguns dos crimes mais abomináveis de que se tem notícia. Quando Bolsonaro reverencia a memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, apresenta as credenciais de seu partido de fato e dá prova de sua lealdade mais funda.

Diante de tudo o que poderá ocorrer e do que já está ocorrendo – como o macarthismo assumido com fervor por bolsonaristas nas escolas, com ameaças a professores acusados de “doutrinadores”, entre tantas outras manifestações de intolerância e de atos de violência – movimentos de solidariedade e cuidado do tipo “Ninguém solta a mão de ninguém” parecem indicar o mais promissor e urgente dos caminhos. Para além disso, teremos que politizar a resistência e não cristalizar as diferenças identitárias do tipo “nós vs. eles”, “verdes/amarelos vs. vermelhos”, “cidadãos de bem vs. vagabundos”, estimuladas pelo bolsonarismo. Para deter os retrocessos que serão propostos pelo novo governo, será preciso disputar com projetos alternativos, com símbolos e narrativas diferentes, e juntar todo mundo que esteja disposto a lutar.

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