NÓS E OS TROPIS

Há uma novela de Vercors pouco conhecida no Brasil chamada “Lês animaux dénaturés” (Os animais desnaturados) cuja história evoca uma expedição realizada nos anos 50 por um grupo de cientistas britânicos à Nova Guiné. A viagem tinha por objetivo encontrar o chamado “elo perdido” entre os humanos e os símios. Os cientistas acabam encontrando uma colônia de seres vivos que aparentavam estar em um estágio intermediário entre a humanidade e a animalidade. Esses seres são logo batizados de “tropis”. Eles eram quadrúmanos -logo símios , mas viviam em cavernas, possuíam uma linguagem elementar e…enterravam seus mortos. A questão que se põe aos cientistas então é: aqueles seres primitivos poderiam ser considerados humanos? A questão nada tinha de acadêmica visto que um grupo de empresários estava interessado em domesticar os tropis e vendê-los no mercado como capazes de ajudar em várias tarefas domésticas. Um processo é aberto na justiça inglesa e logo uma grande polêmica apaixona o mundo. Especialistas nas mais diversas disciplinas são convocados e seus argumentos são tão fascinantes quanto contraditórios. Até que a esposa de um juiz oferece a solução: se os tropis enterram seus mortos, então são humanos, disse ela, porque essa cerimônia atesta uma interrogação metafísica, uma distância em relação à natureza. – “Para se interrogar, é necessário ser dois: o que interroga e o que é interrogado.” Comentando essa passagem, Luc Ferry assinala que o animal, confundido com a natureza, não pode interrogá-la. O animal, diz ele, constitui uma coisa só com a natureza. O ser humano, duas.

É porque se pergunta que o ser humano transcende – supera – suas determinações naturais e históricas. Da natureza, se afasta constantemente tensionando seus próprios limites; quanto à história, tudo o que lhe antecede é só constrangimento, nunca uma sentença. É o que Rousseau havia já assinalado em seu “Discurso Sobre a Origem da Desigualdade Entre os Homens”: o ser humano é, por excelência, indeterminação. Sua essência é não ter essência. A natureza serve-lhe tão pouco de guia, diz Rousseau, que, às vezes, ele se afasta dela a ponto de se matar. Os humanos são livres o bastante para morrer assim, a sua liberdade, ao contrário do que pensavam os antigos, encerra a possibilidade do mal. “Optima vídeo, deteriora sequor” ( vendo o bem, pode escolher o pior).

Essa é também a razão pela qual, pensando rigorosamente, a vida não constitui o “bem maior”. Mais importante do que a vida é a vida digna e morrer por ela pode mesmo ser um ato pleno de sentido, expressão da liberdade que nos constitui e de um bem que se almeja. O problema é que a idéia de “vida digna” é uma idéia moral; ela é construída pelos humanos. Poderíamos iniciar por aí um debate sobre o que é a vida digna em nossa época e o que devemos fazer para conquistá-la; vale dizer: para assegurá-la – como possibilidade – a todos. Na recente viagem que realizamos pelo Brasil visitando unidades da FEBEM, encontrei um menino em São Paulo que trazia tatuada em seu braço a seguinte frase: “Por que o medo, se o futuro é a morte?” Para ele e para milhares de outros jovens no Brasil, a vida já não possui sentido uma vez que seu passado só é suportável como esquecimento e o futuro é o nada. O que resta – o presente contínuo – é o lugar da fruição, de uma existência que se esvai sem qualquer projeto e que se define em si mesma como uma impossibilidade. O que nossa sociedade está retirando de muitos dos seus é a possibilidade de se interrogarem a ponto de reduzi-los à condição dos tropis. A continuar assim, em breve teremos em comum com eles apenas o hábito de enterrar nossos mortos.

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